Relato de aprendizagem: Influências linguísticas e fonológicas entre alemão, português e espanhol

Texto de Carlos Alejandro Peña Suárez (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

A aprendizagem de uma nova língua não é influenciada apenas pela gramática e pelo vocabulário, mas também pelas estruturas linguísticas que o aprendiz já conhece. Pesquisas na área de aquisição de segunda e terceira língua demonstram que a língua materna e outras línguas previamente aprendidas influenciam diretamente a pronúncia, a percepção auditiva e a compreensão de novos padrões linguísticos.

Como falante nativo de espanhol e estudante de português e alemão, é interessante observar como essas três línguas interagem entre si. Principalmente no nível fonológico, surgem vantagens e dificuldades específicas.

O alemão pertence à família germânica, enquanto o português e o espanhol fazem parte das línguas românicas. Apesar dessas diferenças, estudos sobre “cross-linguistic influence” mostram que até mesmo línguas tipologicamente distantes podem compartilhar características que influenciam o processo de aprendizagem.

Aprender alemão sendo falante de português ou espanhol

Para falantes de português e espanhol, o alemão costuma parecer difícil inicialmente devido aos casos gramaticais, à ordem das palavras e às palavras compostas longas. O sistema de nominativo, acusativo, dativo e genitivo não existe da mesma forma no português e no espanhol.

No entanto, no campo da fonologia aparecem diferenças interessantes entre lusófonos e hispanofalantes. Pesquisas sobre interferência fonológica mostram que hábitos articulatórios da língua materna influenciam diretamente a produção de novos sons.

O português brasileiro apresenta sons mais guturais e posteriores do que o espanhol em alguns contextos fonéticos. Isso pode facilitar para falantes de português a percepção e a reprodução de certos sons do alemão, como o “ch” e determinados sons fortes de “r”. Já falantes de espanhol costumam possuir um sistema vocálico mais estável e regular. Isso pode favorecer a pronúncia clara de vogais alemãs. Por outro lado, sons guturais e algumas combinações consonantais do alemão podem representar maior dificuldade.

Aprender português ou espanhol sendo falante de alemão

Falantes de alemão encontram inicialmente elementos familiares no português e no espanhol, como o alfabeto latino e diversas palavras internacionais. Entretanto, novas dificuldades surgem especialmente no aspecto fonológico.

No português brasileiro, as vogais nasais possuem grande importância. Palavras como “não”, “mãe” e “pão” apresentam nasalização, característica ausente no alemão. Pesquisas sobre percepção fonológica indicam que sons inexistentes na língua materna tendem a ser mais difíceis de reproduzir corretamente.

Além disso, o ritmo da fala em português difere bastante do alemão. O português brasileiro apresenta uma entonação mais fluida e musical, enquanto o alemão costuma ser percebido como mais segmentado ritmicamente.
No espanhol, a relação entre escrita e pronúncia costuma ser mais regular. Mesmo assim, a velocidade da fala e a variedade de formas verbais podem representar desafios para falantes de alemão.

Interferência linguística e multilinguismo

Pesquisas sobre multilinguismo demonstram que, ao aprender uma terceira língua, não apenas a língua materna exerce influência, mas também outras línguas previamente aprendidas. Esse processo é conhecido como “cross-linguistic influence”.

Entre português e espanhol ocorre frequentemente interferência lexical e fonológica. Devido à proximidade entre essas línguas, aparecem falsos cognatos, misturas gramaticais e influências na pronúncia.

Ao mesmo tempo, a proximidade linguística pode acelerar o processo de aprendizagem. Entretanto, estudos indicam que o excesso de semelhança também pode gerar simplificações excessivas e erros fossilizados.

Conclusão

A aprendizagem de alemão, português e espanhol mostra como língua, fonologia e experiência cultural estão profundamente conectadas. A língua materna influencia não apenas a gramática, mas também a percepção e a produção de novos sons.

Falantes de português podem apresentar vantagens em determinados sons guturais do alemão, enquanto falantes de alemão frequentemente encontram dificuldades com a nasalização do português. Já falantes de espanhol podem se beneficiar de um sistema vocálico mais estável, embora enfrentem outros desafios fonológicos.

Aprender diferentes línguas, portanto, não é apenas um processo linguístico, mas também cultural e cognitivo.

Referências e fontes de pesquisa
Odlin, Terence. Language Transfer: Cross-Linguistic Influence in Language Learning.
Cambridge University Press.
Ellis, Rod. Understanding Second Language Acquisition. Oxford University Press.
Cenoz, Jasone; Hufeisen, Britta; Jessner, Ulrike. Cross-linguistic Influence in Third Language
Acquisition.
Estudos sobre interferência fonológica e aquisição multilíngue:
Cambridge University Press – Cross-linguistic Influence in Multilingual Development.
Pesquisas sobre percepção fonológica e transferência articulatória em aquisição de L2 e L3.
Estudos comparativos sobre fonologia do português brasileiro, espanhol e alemão.
Conceitos gerais de fonética articulatória, fonologia e multilinguismo aplicados ao ensino de
línguas.
Observações pessoais desenvolvidas a partir do estudo acadêmico de português e alemão.

Conheça a banda austríaca “Sanguis et Cinis”

Joe Silva (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

Sanguis et Cinis: Biografia e Legado

Fundada em 1994 após o encontro entre Eve Evangel e Ashley Dayour, a banda austríaca Sanguis et Cinis consolidou-se como um dos nomes fundamentais da cena darkwave europeia. Seus primeiros passos foram marcados pela demo Requiem 1791, que trazia faixas emblemáticas como “Schicksalswölfe” e “Gedankensplitter”.

Trajetória

Em 1996, o lançamento do álbum de estreia, Schicksal, atraiu a atenção da gravadora MOS Records. Com o tempo, a formação passou por mudanças estratégicas: Eve buscou uma nova identidade visual para o grupo, integrando Celine Cecila Angel. Após a saída de Ashley Dayour e a passagem de membros como Arthur e Richard, a banda estabilizou-se como um trio.

A banda conquistou palcos internacionais, realizando shows memoráveis na Alemanha, Portugal, Itália e Áustria, além de turnês por locais tão distintos quanto México, África do Sul, Rússia e Estados Unidos. Dividiram festivais com ícones como Diva Destruction, Noctivagus e Within Temptation. Em 2003, o prestígio do grupo foi selado com a capa da revista alemã Orkus.

Nos anos 90, o grupo era um dos principais expoentes do Neue Deutsche Todeskunst, movimento que introduziu o idioma alemão na sonoridade darkwave. Com o tempo, sua estética evoluiu para uma fusão de Rock Alternativo e Rock Gótico.

Recomendações: O Som em Alemão Austríaco

Para quem deseja explorar a fase mais autêntica da banda, os álbuns abaixo são essenciais. Eles trazem letras inteiramente em alemão, mesclando sintetizadores atmosféricos com guitarras de timbres bem característicos:

  • Wie der unberührte Traum einer Jungfrau (Como o sonho intocado de uma virgem)
  • Schicksal (Destino)

Onde Escutar
Mergulhe na discografia oficial através das plataformas de streaming:

Capa do primeiro álbum lançado pela banda



Vaca austríaca impressiona pesquisadores por uso de ferramentas

Uma vaca austríaca simpática chamada Veronika viralizou nas redes sociais e impressionou biólogos, tudo isso porque usa uma vassoura para se coçar. Até aí, tudo bem: vários animais são capazes de usar ferramentas. O que chama atenção no caso de Veronika, porém, é o uso complexo que faz do objeto. Ela consegue usar a vassoura para se coçar e a ponta do cabo para se cutucar. O grupo de animais capazes do feito é bem mais seleto, e envolve chimpazés e humanos.

Veja a seguir um vídeo sobre Veronika feito pelo jornal Der Standard:

Além das muitas visualizações, o tema gerou também um debate sobre a relação entre humanos e animais e principalmente como vemos e pesquisamos outras espécies. Para ver mais sobre isso, recomendamos o texto de Eva Stanza no Wiener Zeitung (em alemão).

Para pessoas que ensinam ou aprendem alemão, a Deutsche Welle preparou um áudio e exercícios de compreensão sobre o tema. O material é indicado a partir do nível B1.

Exibição do Documentário: Schladming Misteriosa – a conexão dos Habsburgos com o Brasil

Herança da Áustria Schladming misteriosa – a conexão dos Habsburgos com o Brasil
O diretor Alexander Frohner e o autor Günter Fuhrmann desvendam o mistério de Schladming a partir daqui, viajando até o Brasil no rastro dos descendentes da arquiduquesa austríaca Leopoldina, que se casou lá.
Um de seus herdeiros, August Leopold, mais tarde fez de Schladming sua residência principal. O nativo de Coburg com raízes brasileiras atraiu a aristocracia internacional e artistas de toda a monarquia do Danúbio para a cidade alpina.

O documentário que mostra algumas das raízes austríacas no Brasil será exibido em Curitiba exclusivamente aos alunos da UFPR (por conta de direitos autorais) no dia 4 de junho, às 9:40.

Não perca!

O teatro do século XVIII ainda faz sentido hoje?

Você prefere encenações clássicas ou releituras provocativas? A peça Ifigênia em Táuris, de Goethe, é um exemplo perfeito para refletir sobre isso.

Inspirada na tragédia de Eurípides e escrita em 1779, a peça coloca Ifigênia em um dilema moral entre lealdade e liberdade, destacando o poder da razão e do diálogo. Ifigênia, sacerdotisa do templo de Diana na terra dos Táurios, luta para manter sua integridade moral em meio a um povo bárbaro. Quando seu irmão Orestes e seu amigo Pílades chegam à ilha em busca da estátua de Diana para expiar a culpa de Orestes, Ifigênia precisa escolher entre a lealdade à sua nova pátria e o desejo de retornar à Grécia. Diferente da versão trágica de Eurípides, Goethe enfatiza o poder da razão, da verdade e do humanismo, permitindo que o conflito seja resolvido sem violência, apenas pelo diálogo e pela honestidade de Ifigênia.

Na Áustria, duas montagens atuais interpretam essa história de formas bastante distintas, mas ambas dialogando com a realidade que estamos vivendo fora dos teatros:

Akademietheater (Viena) – Dirigida por Ulrich Rasche, a produção transforma o palco em uma experiência hipnótica: cenários monumentais, ritmos mecânicos, percussão intensa e atores em esforço físico constante. A peça vira um espetáculo visual e sonoro sobre poder, violência e resistência feminina. Assista um trecho:

Stadttheater Klagenfurt – Com direção de Ana Stepiani, essa versão foca na autossuficiência de Ifigênia como um manifesto pela desobediência e o empoderamento feminino. Em vez de uma tragédia distante, temos uma peça que questiona normas sociais e dá voz à luta pela liberdade.

Duas abordagens, um mesmo texto – e um convite à reflexão! E você, qual estilo prefere? Tradicional ou reinterpretado? 

Qual é a diferença entre encenar uma peça de teatro e um romance?

Nos teatros de Viena, é bastante comum vermos adaptações cênicas de romances, que não foram escritos para serem montados num palco. Entre eles, por exemplo, A montanha mágica, de Thomas Mann ou Metamorfose, de Franz Kafka – ambas as montagens podem ser vistas no Burgtheater. Mas transformar um romance numa obra cênica não é nada fácil e é bastante instigante pensar e observar tudo que acontece quando um romance (para cuja leitura precisamos vários dias ou semanas) se transforma numa apresentação teatral de uma, duas ou três horas. 

Outro exemplo, atualmente em cartaz no Volkstheater de Viena, é Malina, de Ingeborg Bachmann, um marco do movimento feminista pós-guerra: um romance icônico, mas pouco lido fora do círculo acadêmico. A encenadora Claudia Bauer – conhecida também pela aclamada montagem de humanistää, de Ernst Jandl – dá nova vida a essa obra, transformando-a em peça teatral. No palco, os muitos “Eus” da narradora são interpretados por sete atrizes diferentesque, em alguns momentos, dividem o palco simultaneamente, representando o turbilhão de vozes na cabeça da protagonista do romance. Malina se transforma assim em um espetáculo contemporâneo: dinâmico, cômico, divertido e em diálogo com as questões do nosso tempo. A peça tem lotado o teatro e conquistado novos públicos.

Publicado em 1971 – apenas um ano antes da morte trágica da autora –, Malina é um texto introspectivo que mergulha na complexidade da psique feminina. Fragmentado e inovador, o romance retrata a luta da protagonista sem nome para encontrar sua identidade em uma sociedade patriarcal. Entrelaçando sonhos, reflexões, cartas, telefonemas e versos poéticos, a história aborda sua convivência com Ivan, o amante ausente, e Malina, símbolo de estabilidade racional.

E vem mais por aí! Em janeiro de 2025, Claudia Bauer estreia no mesmo Volkstheater Krankheit oder Moderne Frauen(Doença ou mulheres modernas), de Elfriede Jelinek. Fique de olho, porque vamos trazer as novidades e críticas por aqui! 

Stefan Zweig e sua novela Xadrez (Schachnovelle) no Burgtheater

Está fazendo enorme sucesso no Burgtheater de Viena uma adaptação musical do famoso livro Xadrez, escrito por Stefan Zweig durante seu exílio no Brasil e considerada uma de suas obras-primas. O texto, uma narrativa em prosa, é ambientada em um navio que faz a travessia entre Nova York e Buenos Aires, onde se desenrola um confronto simbólico entre diferentes mundos e psicologias.

As personagens centrais são Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez, retratado
como um homem de poucas palavras, simples e intelectualmente limitado fora do tabuleiro, mas um gênio estratégico no jogo, e Dr. B., um enigmático passageiro que revela ter desenvolvido suas habilidades no xadrez de maneira peculiar e traumática.

Na montagem no Burgtheater, o encenador, ator e músico Nils Strunk parodia todos os personagens da trama, canta, atua e dança. O resultado é uma performance de ritmo acelerado, dançante, envolvente e com bastante suspense. O público adorou, está lotando todas as apresentações e ainda pede bis. Vale a pena dar uma espiada no trailer:

Ernst Jandl na floresta vienense – o Theater Dschungel Wien

Sabia que existe um teatro-floresta no centro de Viena, bem no meio do complexo arquitetônico MUSEUMSQUARTIER? O MQ é um centro cultural inaugurado em 2001, mas foi construído já no século XVIII, quando abrigava as cavalariças imperiais de Viena (Kaiserliche Hofstallungen).

O teatro Dschungel Wien apresenta apenas produções para o público infanto-juvenil. Este mês, entre outras peças, apresenta uma montagem de “Ottos Mops”, inspirado no famoso poema sonoro de Ernst Jandl em que usa apenas a vogal “o”. Leia, escute e assiste a leitura do poema aqui.

Johann Nestroy e o João Linguiça [Hanswurst]: o riso revelador

Johann Nestroy, uma das figuras mais proeminentes do teatro popular austríaco do século XIX (sobre o qual publicamos um verbete há poucos dias), produziu uma vasta obra teatral com figuras cômicas que remetem à tradição do Hanswurst, ou João Linguiça em tradução para o português.

Hanswurst, uma personagem oriunda da cultural popular medieval, era uma figura grotesca e cômica, frequentemente caracterizada por trajes chamativos, humor burlesco e uma mistura de astúcia e tolice. Ele representava o espírito popular, atuando como um porta-voz das classes mais simples, muitas vezes zombando das figuras de autoridade e desafiando normas sociais de forma irreverente.

Embora Nestroy tenha vivido em um contexto cultural e artístico posterior, ele herdou elementos da tradição de Hanswurst. Como dramaturgo e ator, Nestroy modernizou e refinou o teatro popular, adaptando-o às mudanças de gosto e às transformações sociais de sua época. Em suas peças, ele introduziu um humor mais sofisticado, com trocadilhos espirituosos e sátiras sociais afiadas, mas ainda assim manteve um vínculo claro com o espírito anárquico e subversivo do teatro de Hanswurst.

Assim como Hanswurst, os personagens de Nestroy frequentemente desafiavam a autoridade, questionavam hierarquias sociais e expunham hipocrisias de maneira humorística e incisiva. Além disso, o humor físico, o jogo de palavras e a teatralidade exagerada que caracterizam Hanswurst encontram ecos nos personagens cômicos e nos diálogos espirituosos de Nestroy. Ambos também conquistaram um amplo público, especialmente entre as classes trabalhadoras, ao abordar questões próximas do cotidiano e refletir as preocupações de seu contexto social.

Apesar das semelhanças, há também diferenças entre o Hanswurst e algumas das figuras cômicas de Nestroy. Enquanto Hanswurst era uma figura de improvisação e comédia mais crua, Nestroy trouxe ao teatro uma sofisticação literária, apresentando peças bem estruturadas e diálogos que combinavam humor com profundidade crítica (embora tenha passado uns dias na cadeia por descumprir as regras da censura com improvisações críticas durante as apresentações de suas peças). Além disso, Nestroy trabalhava em um cenário vienense mais urbanizado e em um teatro que começava a atrair também a emergente burguesia, enquanto o Hanswurst tradicional se dirigia principalmente a um público predominantemente rural e mais simples.

Veja nas fotos algumas imagens da figura do Hanswurst e uma representação dele na fachada exterior do Burgtheater de Viena:

Arthur Schnitzler, o duplo de Sigmund Freud, dissecando a alma humana

Arthur Schnitzler é um autor bastante conhecido e traduzido no Brasil, famoso também pela adaptação cinematográfica de seu Breve romance de sonhos [Traumnovelle] por Stanley Kubrick: “De olhos bem fechados” [Eyes Wide Shut], de 1999, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papéis principais.

Na Áustria, Schnitzler é presença constante nos palcos, sendo autor de uma vasta produção
dramática repleta de questionamentos e nuances psicológicas. Entre suas peças mais instigantes está Das weite Land (A Vastidão), atualmente em cartaz no Akademietheater, um dos espaços cênicos do renomado Burgtheater. Classificada como uma tragicomédia, a peça mergulha no universo da burguesia, onde diálogos aparentemente banais revelam, nas entrelinhas, a complexidade e a profundidade da alma humana, seus desejos, fracassos e suas esperanças. Em 1987, o cineasta suíço Luc Bondy adaptou o texto dramático de Schnitzler para o cinema. E ainda em 2025, teremos uma nova montagem para outro teatro de Viena, o Josephstadt.

A trama tem início com o suicídio de um pianista, suposto amante de Genia, esposa do industrial Friedrich Hofreiter, ele próprio envolvido em traições constantes. Como um cirurgião habilidoso, Schnitzler disseca as relações amorosas, os impulsos eróticos e as amizades de sua época, expondo as contradições e ambiguidades das conexões humanas sem oferecer soluções ou julgamentos. Poucos escritores conseguiram iluminar as lógicas paradoxais das relações íntimas com tamanha perspicácia. Vale atenção também aos papéis femininos de Schnitzler, as mulheres não apenas participam igualmente dos jogos de sedução e traição, mas geralmente possuem mais objetividade e capacidade de compreensão das lógicas das relações humanas.

Na montagem atual no Akademietheater, não vemos um cenário ou atuações em estilo realista, mas uma interpretação estilizada. A ação se desenrola em frente de uma cortina preta, há apenas três poltronas no palco, os atores entram e saem pela cortina, acentuando o caráter quase marionético de seus personagens. Michael Maertens, no papel de Friedrich Hofreiter, ganhou o Prêmio Nestroy como melhor ator em 2023. No site do Burgtheater, você pode ver algumas fotos e o trailer, assim como mais informações técnicas da montagem atual.

Arthur Schnitzler é também assunto de algumas pesquisas desenvolvidas no Centro Austríaco – em breve lançaremos um verbete sobre esse autor. Além disso, partes da peça Der Reigen (A Ciranda) foram traduzidas por Deborah Raymann como parte de sua dissertação de mestrado, disponível no acervo digital da UFPR.