Johann Nestroy e o João Linguiça [Hanswurst]: o riso revelador

Johann Nestroy, uma das figuras mais proeminentes do teatro popular austríaco do século XIX (sobre o qual publicamos um verbete há poucos dias), produziu uma vasta obra teatral com figuras cômicas que remetem à tradição do Hanswurst, ou João Linguiça em tradução para o português.

Hanswurst, uma personagem oriunda da cultural popular medieval, era uma figura grotesca e cômica, frequentemente caracterizada por trajes chamativos, humor burlesco e uma mistura de astúcia e tolice. Ele representava o espírito popular, atuando como um porta-voz das classes mais simples, muitas vezes zombando das figuras de autoridade e desafiando normas sociais de forma irreverente.

Embora Nestroy tenha vivido em um contexto cultural e artístico posterior, ele herdou elementos da tradição de Hanswurst. Como dramaturgo e ator, Nestroy modernizou e refinou o teatro popular, adaptando-o às mudanças de gosto e às transformações sociais de sua época. Em suas peças, ele introduziu um humor mais sofisticado, com trocadilhos espirituosos e sátiras sociais afiadas, mas ainda assim manteve um vínculo claro com o espírito anárquico e subversivo do teatro de Hanswurst.

Assim como Hanswurst, os personagens de Nestroy frequentemente desafiavam a autoridade, questionavam hierarquias sociais e expunham hipocrisias de maneira humorística e incisiva. Além disso, o humor físico, o jogo de palavras e a teatralidade exagerada que caracterizam Hanswurst encontram ecos nos personagens cômicos e nos diálogos espirituosos de Nestroy. Ambos também conquistaram um amplo público, especialmente entre as classes trabalhadoras, ao abordar questões próximas do cotidiano e refletir as preocupações de seu contexto social.

Apesar das semelhanças, há também diferenças entre o Hanswurst e algumas das figuras cômicas de Nestroy. Enquanto Hanswurst era uma figura de improvisação e comédia mais crua, Nestroy trouxe ao teatro uma sofisticação literária, apresentando peças bem estruturadas e diálogos que combinavam humor com profundidade crítica (embora tenha passado uns dias na cadeia por descumprir as regras da censura com improvisações críticas durante as apresentações de suas peças). Além disso, Nestroy trabalhava em um cenário vienense mais urbanizado e em um teatro que começava a atrair também a emergente burguesia, enquanto o Hanswurst tradicional se dirigia principalmente a um público predominantemente rural e mais simples.

Veja nas fotos algumas imagens da figura do Hanswurst e uma representação dele na fachada exterior do Burgtheater de Viena:

Arthur Schnitzler, o duplo de Sigmund Freud, dissecando a alma humana

Arthur Schnitzler é um autor bastante conhecido e traduzido no Brasil, famoso também pela adaptação cinematográfica de seu Breve romance de sonhos [Traumnovelle] por Stanley Kubrick: “De olhos bem fechados” [Eyes Wide Shut], de 1999, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papéis principais.

Na Áustria, Schnitzler é presença constante nos palcos, sendo autor de uma vasta produção
dramática repleta de questionamentos e nuances psicológicas. Entre suas peças mais instigantes está Das weite Land (A Vastidão), atualmente em cartaz no Akademietheater, um dos espaços cênicos do renomado Burgtheater. Classificada como uma tragicomédia, a peça mergulha no universo da burguesia, onde diálogos aparentemente banais revelam, nas entrelinhas, a complexidade e a profundidade da alma humana, seus desejos, fracassos e suas esperanças. Em 1987, o cineasta suíço Luc Bondy adaptou o texto dramático de Schnitzler para o cinema. E ainda em 2025, teremos uma nova montagem para outro teatro de Viena, o Josephstadt.

A trama tem início com o suicídio de um pianista, suposto amante de Genia, esposa do industrial Friedrich Hofreiter, ele próprio envolvido em traições constantes. Como um cirurgião habilidoso, Schnitzler disseca as relações amorosas, os impulsos eróticos e as amizades de sua época, expondo as contradições e ambiguidades das conexões humanas sem oferecer soluções ou julgamentos. Poucos escritores conseguiram iluminar as lógicas paradoxais das relações íntimas com tamanha perspicácia. Vale atenção também aos papéis femininos de Schnitzler, as mulheres não apenas participam igualmente dos jogos de sedução e traição, mas geralmente possuem mais objetividade e capacidade de compreensão das lógicas das relações humanas.

Na montagem atual no Akademietheater, não vemos um cenário ou atuações em estilo realista, mas uma interpretação estilizada. A ação se desenrola em frente de uma cortina preta, há apenas três poltronas no palco, os atores entram e saem pela cortina, acentuando o caráter quase marionético de seus personagens. Michael Maertens, no papel de Friedrich Hofreiter, ganhou o Prêmio Nestroy como melhor ator em 2023. No site do Burgtheater, você pode ver algumas fotos e o trailer, assim como mais informações técnicas da montagem atual.

Arthur Schnitzler é também assunto de algumas pesquisas desenvolvidas no Centro Austríaco – em breve lançaremos um verbete sobre esse autor. Além disso, partes da peça Der Reigen (A Ciranda) foram traduzidas por Deborah Raymann como parte de sua dissertação de mestrado, disponível no acervo digital da UFPR.

Buch Wien: A Feira do Livro de Viena

A Buch Wien, a maior feira literária de Viena, terminou no dia 24 de novembro. Durante quatro dias intensos, visitantes tiveram a chance de explorar o trabalho de várias editoras — das mais consagradas às independentes — e participar de encontros com renomados autores e autoras como Robert Menasse, Arno Geiger, Barbara Zeman, Doris Knecht, Valerie Fritsch, Elias Hirschl e Reinhard Kaiser-Mühlecker.

As novas publicações da obra riquíssima de Maria Lazar tiveram um destaque especial. A autora teve muito sucesso nos anos 1930 e, após ser exilada e ter suas obras queimadas pelo nazismo, foi redescoberta apenas alguns anos atrás, graças à editora Das vergessene Buch [O livro esquecido]. Já publicamos sobre essa editora no nosso blog. Agora, não apenas os romances de Maria Lazar estão sendo reeditados, mas também sua obra dramática; suas peças são atualmente encenadas em diversos teatros de língua alemã e sua obra ganha novos olhares acadêmicos, incluindo no Brasil (UFPR, Curso de Letras) e nos EUA. Na biblioteca do Centro Austríaco temos alguns títulos publicados pela editora Das vergessene Buch, inclusive de Maria Lazar, disponíveis para empréstimo.

Outro momento marcante foi o lançamento do livro Und einige Herren sagten etwas dazu:
Die Autorinnen der Gruppe 47
[E alguns senhores disseram alguma coisa a respeito: as
autoras do Grupo 47] de Nicole Seifert, que resgata autoras e obras literárias importantes,
mas que foram esquecidas pela história literária.

A Casa de Bonecas em foco: Viena, Berlim e Campinas

Já ouviu falar de Henrik Ibsen e sua peça Casa de Bonecas, de 1878? No final, a protagonista Nora deixa a “casa de bonecas”, onde mora com seu marido e seus filhos, para enfrentar uma vida autodeterminada – essa decisão ousada de Nora (estamos nos finais do século XIX!) e a falta de pistas sobre o que poderia acontecer quando uma mulher assume as rédeas de sua própria vida causaram, aliás, um enorme escândalo na época da estreia dessa famosa peça.

Se você segue o Centro Austríaco da UFPR ou a Editora Temporal, já deve ter ouvido falar do livro que a dramaturga austríaca Elfriede Jelinek escreveu para apresentar a visão dela sobre o destino de Nora. A peça O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades estreou em Viena em 1978, exatamente cem anos após a estreia da peça de Ibsen. Recentemente, foi traduzida pela equipe do Centro Austríaco e lançada como livro pela editora Temporal. Clique aqui para saber mais. Ou aproveite que no dia 26 de novembro o grupo “Die Deutschspieler”, da Unicamp, vai apresentar – pela última vez! – a montagem bilíngue dessa peça de Jelinek.


Jelinek não foi a única autora que pensou sobre o que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas. Recentemente, a jovem dramaturga israelense Sivan Bem Yishai, que está radicada em Berlim, lançou sua versão: Nora ou como compostar o Casarão [Nora oder wie man das Herrenhaus kompostiert], atualmente em cartaz no Deutsches Theater de Berlim (Sivan Bem Yishai escreveu o texto em inglês, a encenação baseia-se numa tradução da dramaturga austríaca Gerhild Steinbuch). Refletindo os debates dos nossos tempos, aqui a questão central não é o destino de Nora, mulher economicamente privilegiada da burguesia, mas todos os habitantes e frequentadores da Casa de Bonecas: desde a babá, a governanta e outros empregados, até a amiga de Nora e mãe solteira e o entregador de encomendas. Como já diz o título, trata-se de uma compostagem de uma casa de família, com muito ritmo e humor! Confira aqui o trailer dessa encenação:

Abrem-se as cortinas! Visitas aos teatros de Viena

O Centro Austríaco começa uma nova série temática para explorar diferentes aspectos da vibrante vida teatral de Viena. A nossa coordenadora, Ruth Bohunovsky, está em Viena e frequenta seus teatros regularmente, e vamos compartilhar uma série de publicações no Instagram do Centro Austríaco com informações, insights e curiosidades do mundo teatral da cidade. Nas postagens, abordaremos desde os bastidores das produções e curiosidades históricas, até informações sobre peças em cartaz, debates e reflexões polêmicas sobre a cena teatral. Vamos falar sobre a história dos teatros, sobre clássicos e textos dramáticos modernos, diferentes estilos de encenação e até mesmo as adaptações de romances para o palco.

A série vai completar e dialogar com os nossos verbetes já disponíveis sobre dramaturgia austríaca (George Tabori, Clemens Setz, Wolfgang Bauer, Thomas Bernhard, Elfriede Jelinek e Peter Handke), em que apresentamos ao público brasileiro importantes autores teatrais e suas obras (parcialmente traduzidas para o português).

Você sabia que, em Viena, o teatro é visto não apenas como uma forma de arte, mas como uma maneira de viver e compreender a vida? As peças podem durar de uma a quatro horas, e uma ida ao teatro ou à ópera pode acontecer de smoking ou vestido de gala, mas também em jeans e bota de inverno. A programação inclui montagens grandiosas, leituras dramáticas intimistas, produções multimídia, encenações tradicionais ou subversivas dos grandes clássicos e de obras contemporâneas, tragédias hilárias e comédias sobre o fim do mundo? Os vienenses adoram conversar e polemizar sobre as peças em cartaz, e essas conversas acontecem tanto no bar do teatro durante os intervalos quanto nos jornais e em revistas especializadas, mas também em conversas informais com as amigas no café da esquina ou até com o cabeleireiro.

Atualmente, Viena conta com cerca de 70 teatros ativos, desde o maior e mais famoso de todos, o Burgtheater, até teatros menores e experimentais, como o teatro de fantoche Kabinetttheater, que produz peças do modernismo europeu. Há debates acalorados sobre atualizar peças clássicas de Shakespeare ou Goethe, se o elenco atual é melhor ou pior que o de antigamente, e se romances podem e devem ser adaptados para o palco – nos últimos meses, vimos, por exemplo, obras em prosa como “Holzfällen” de Thomas Bernhard, “Malina” de Ingeborg Bachmann, “Die Schachnovelle” de Stefan Zweig, “Der Zauberberg” de Thomas Mann e “Die Verwandlung” de Franz Kafka adaptadas para o teatro.

Obviamente, o teatro vienense se insere na tradição teatral dos outros países de língua alemã e, cada vez mais, em escala global. Antigamente, falava-se em “teatro nacional” com produções artísticas apenas em língua alemã. Hoje, vemos palcos com produções em várias línguas e perspectivas internacionais, com obras produzidas por encenadores de outros países que trazem novas ideias criativas para a literatura e o drama em alemão. Isso traz desafios para a tradução: temos legendagem em teatro, traduções projetadas no palco, elencos multilíngues que precisam de tradutores durante os ensaios, encenações que usam de propósito a não-compreensão como elemento chave de sua produção. Essa diversidade cultural e linguísticas se reflete na programação dos teatros da cidade, mas também no festival “Wiener Festwochen”, que atrai produções teatrais, musicais e de dança do mundo todo, inclusive do Brasil. Por exemplo, em 2020, foi a atriz brasileira Kay Sara quem deu a palestra de abertura do festival, que ocorreu online, devido à pandemia. E, na versão de 2023, o atual diretor do festival, Milo Rau, transferiu a obra “Antígona” de Sófocles para o Brasil contemporâneo e a encenou com participantes indígenas que lutam pela posse de terras (veja mais sobre esse projeto aqui).

A cena teatral dos países de língua alemã tem várias diferenças em relação ao Brasil. Os grandes teatros, como o Burgtheater e a Ópera de Viena, são instituições públicas com grande estabilidade financeira e de planejamento. Ao mesmo tempo, os teatros menores precisam se adaptar a editais e investir muita criatividade e flexibilidade para garantir a sobrevivência, mas apresentam igualmente produções de grande qualidade ao público da cidade e visitantes de outras regiões e países.

Venha nos acompanhar em nossa nova série temática, visitando alguns teatros de Viena (e, talvez, de outras cidades), conhecendo sua arquitetura, suas histórias, peças e montagens, curiosidades e debates atuais!

Feira do Livro de Leipzig de 2024

Hoje, dia 27 de março de 2024, começa a famosa Feira do Livro de Leipzig. Este ano, a Holanda e a região de Flandres ganham destaque especial.

No ano passado, o país cuja literatura estava no centro dos holofotes da Feira de Leipzig foi a Áustria (confira aqui a Feira do ano passado), com o lema “meaoiswiamia” (que já deciframos e explicamos por aqui 🙂 ).

E, já chegou ao Centro Austríaco o catálogo publicado para a exposição mostrada em ocasião da Feira de 2023, “Jetzt & Alles: Österreichische Literatur. Die letzten 50 Jahre” [Tudo & Agora: Literatura Austríaca. Os últimos 50 anos]. Uma publicação caprichada que apresenta não apenas passagens de obras literárias de dezenas de autores, a maioria da geração atual, mas também fotos de objetos, manuscritos, obras de arte, anotações privadas e lugares que, de um jeito ou de outro, dialogam com a produção literária austríaca das últimas décadas. Muitas das obras dos autores e das autoras apresentadas ainda não tem tradução no Brasil – a publicação, que pode se consultada no Centro Austríaca, é portanto uma ótima introdução para quem se interessa pela literatura austríaca atual.

Karl Kraus e “A Literatura demolida”

Poeta, escritor, jornalista e crítico social austríaco, Karl Kraus ficou conhecido pelas críticas à sociedade, à política e, principalmente, à imprensa de sua época. Kraus viveu durante o final do século XIX e início do século XX, sendo uma importante figura no período conhecido como Fin de siècle

Além de ser reconhecido pelo seu estilo literário marcado pela ironia e pelo sarcasmo, Karl Kraus também produziu um trabalho complexo e profundo. Em 1899, fundou a famosa revista satírica chamada “Die Fackel” (A Tocha), com a qual alcançou um público grande e diversificado. Kraus foi o editor da revista até o ano de sua morte, em 1936.  

Die Fackel, volume 1, Karl Kraus, Wikimedia Commons <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fackel_Kraus_1899_(1)_Cover.jpg&gt; CC0

O escritor foi uma voz importante na crítica social e política da Áustria do início do século XX. Ele acreditava que o país era um “laboratório para o fim do mundo”, sendo a Áustria o lugar onde o pior da natureza humana estava em ação. Ele criticava as ideias nacionalista e militarista, e foi um forte opositor à Primeira Guerra Mundial, já que via a guerra como uma manifestação da loucura coletiva da humanidade. Uma das maiores preocupações de Kraus foi o papel da linguagem e dos meios de comunicação na divulgação de mentiras (hoje falaríamos em fake news) e na perpetuação de problemas sociais e políticos, assunto que discutiu em diversas publicações na revista “Die Feckel” e no ensaio “Die demolirte Literatur” (A Literatura Demolida).  

O ensaio, publicado em 1913, critica a literatura e a imprensa como mecanismos que contribuem para a decadência da cultura austríaca. Kraus argumenta que a imprensa comercializada e a literatura de massa são formas de entretenimento que se preocupam mais com o lucro do que com a qualidade, e que a linguagem usada é muitas vezes vazia e sem sentido. Ele acreditava que a imprensa deveria prestar um serviço público e que os jornalistas deveriam ser responsáveis e éticos em suas reportagens, o que não ocorria. Kraus ainda destacava a falta de objetividade e rigor nas informações distribuídas nos meios de comunicação. 

Portrait Karl Kraus, vintage print, silver bromide, Hermann Schieberth, Mutual Art <https://www.mutualart.com/Artwork/Karl-Kraus/0232234A0264F690&gt; CC0

“A Literatura Demolida” é considerada uma das obras mais importantes de Karl Kraus e um marco na crítica literária e cultural. Com sua linguagem afiada e seu estilo satírico e contundente, Karl Kraus denunciou os graves problemas sociais da época. Expondo aquilo que considerava como hipocrisia social, Kraus produziu um trabalho, que não era muito popular entre seus contemporâneos, mas que influenciou escritores e artistas como Bertolt Brecht, Elias Canetti e Walter Benjamin. A luta de Karl Kraus pela arte e pela literatura em uma sociedade em colapso, deixou seu legado como uma lembrança da importância da arte e da cultura em tempos de mudança e de crise. 

No Brasil, foram publicadas as seguintes obras de Karl Kraus: Aforismos (tradução de Renato Zwick, 2016, Arquipélago Editorial) e Os últimos dias da humanidade (tradução de Mariana Ribeiro de Souza, 2017, Balão Editorial) – disponível no Centro Austríaco.  

Imperatriz Sisi volta para as telas

por Angélica Neri

Elisabeth da Baviera, mundialmente conhecida como Sissi, foi uma imperatriz da Monarquia de Habsburgo. Além de ter ocupado uma posição importante no império, sua reputação se deve à sua beleza marcante, personalidade controversa e até sua melancolia. Mesmo após mais de cem anos de sua morte, Sisi continua sendo uma figura que desperta muito interesse e curiosidade, sendo considerada um símbolo da cultura austríaca. Na minissérie recém-lançada pela Netflix, vemos uma jovem irreverente, cheia de vida e um pouco alheia aos tradicionais costumes do palácio habsburgo. 

Os seis episódios da primeira temporada retratam o enlace do jovem imperador austríaco Francisco José I (Franz Josef I) com Elisabeth. Ao mudar-se para o palácio imperial, em Viena, ela tem dificuldade de se adaptar à vida na corte por se sentir muito entediada com as obrigações das mulheres da nobreza naquela época. Para tentar se distrair da vida na corte imperial, Sisi gostava muito de cavalgar e escrever poemas – ela era fascinada pela poesia de Heinrich Heine. 

A minissérie A Imperatriz ilustra os primeiros meses após o casamento de Francisco José e Elisabeth, retratando as dificuldades enfrentadas por Sisi em sua nova vida, os embates com a sogra, a Arquiduquesa Sofia, e o crescente descontentamento do povo com o poder monárquico. Também são abordados outros momentos importantes na história do país, como a relação do império austríaco com a Rússia czarista e a França de Napoleão III.  

No cenário político, Sisi é considerada uma das responsáveis pela união monárquica com a Hungria, que resultou na formação do Império Austro-Húngaro (1867-1918), período correspondente à última fase da Monarquia de Habsburgo. Adorada pelos húngaros, o sexto e último episódio apresenta algumas nuances dessa relação de Sisi com o povo. 

Além de retratar acontecimentos históricos da época, a minissérie também mostra a vida no Palácio Imperial de Hofburg, os famosos bailes da corte austríaca – que contam, aliás, com a ilustre presença de grandes compositores como Johann Strauss e Franz Liszt. Ainda no que diz respeito ao retrato histórico, um outro aspecto interessante explorado na série é a combinação de elementos da época com elementos contemporâneos. Isso pode ser percebido de várias formas, como na representação das vestimentas ora tradicionais ora mais modernas, ou na tradicional valsa vienense com elementos de dança contemporânea, para citar alguns exemplos. Desse modo, ao assistir à minissérie, é importante ter em mente que estamos assistindo a uma adaptação e que, portanto, não se trata de uma reconstrução histórica da vida no império e dos acontecimentos daquela época.

A primeira temporada da série começou a ser gravada em 2021 e estreou no dia 29 de setembro deste ano. Estudantes de alemão e demais interessados na cultura austríaca têm muitos motivos para maratonar os seis primeiros episódios. Ainda não temos notícias de uma continuação da série, mas, uma coisa é certa; mesmo após mais de um século de sua morte, continuamos nos perguntando: Quem foi Sisi?

Clique aqui para ver um material didático sobre Sisi desenvolvido pelo Centro Austríaco.

Teatro austríaco: inovação, provocação e riso

por Alisson Guilherme Ferreira

Burgtheater, em Viena.

O teatro é, sem sombra de dúvidas, um ponto alto nas culturas e nas literaturas de expressão alemã, e é certo que a Áustria viu toda uma tradição teatral florescer após o fim da Segunda Guerra Mundial, dando continuidade a uma forte presença e relevância do teatro na vida cultural do país, acima de tudo em Viena. Surgiu uma pletora de dramaturgos (mulheres, homens e everything in between), que, com certeza, tinham e têm muito a dizer e encontraram no teatro, cada um à sua maneira, a forma (ou uma das formas) para (se) exprimir no que concerne não somente aos efeitos do pós-guerra para a Áustria e para o mundo, como no que concerne àquilo de mais íntimo do ser humano e às questões que sempre estiveram presentes nas sociedades. Além disso, não é nada incomum que, multifacetados como foram ou são, os muitos autores teatrais que vieram nessa onda enveredem por outros gêneros, afora o teatro, e obtenham também neles sucesso.

No entanto, por mais que possuam reconhecimento internacional pelas suas contribuições artísticas, com a atribuição de homenagens e prêmios importantes a eles, estes autores são, via de regra, pouco conhecidos, senão completos desconhecidos, do público brasileiro em geral. Isto se deve em boa medida ao fato de que são raras as traduções e publicações de suas obras como um todo disponíveis em língua portuguesa no país.

E, tendo em vista tanto a falta de publicação de textos dramáticos traduzidos quanto o status do teatro no Brasil, onde os recursos são escassos e onde, querendo ou não, ele não é tão prestigiado quanto poderia e deveria ser — até mesmo porque não alcança todas as classes sociais, configurando, ainda nos tempos atuais, um programa bastante elitizado —, essa escassez se reflete na falta de montagens e/ou encenações e/ou leituras dramáticas produzidas a partir das peças de dramaturgos austríacos. É claro, alguns deles desfrutam de uma maior visibilidade no círculo literário-teatral nacional, mas mesmo estes possuem um vasto acervo a ser descoberto e explorado.

Assim, o projeto do Centro Austríaco de divulgar e traduzir (integralmente ou pelo menos em parte) textos dramáticos de língua alemã se insere no referido contexto. Nosso objetivo é apresentar dramaturgos (sobretudo) do teatro austríaco (modernos e contemporâneos), com a disponibilização de informações relevantes a respeito de suas vidas e em especial de suas obras dramatúrgicas, assim como o acesso a trechos de algumas delas em tradução para o português e, por fim, um inventário, cujo conteúdo visa divulgar aquilo que foi produzido no Brasil sobre eles, a nível acadêmico, jornalístico, ensaístico e literário. Desse modo, o público interessado encontrará no nosso site informações e passagens de obras selecionadas de diversos dramaturgos austríacos que, no nosso entender, têm potencial para entrar num diálogo criativo, performático ou literário, com leitores(as), diretores(as), atrizes e atores, produtores(as) teatrais no Brasil.

O projeto dá conta, neste primeiro momento, dos seguintes autores: George Tabori, Thomas Bernhard, Wolfgang Bauer, Peter Handke e Elfriede Jelinek. E se encontram em fase de elaboração verbetes sobre Clemens Setz e Arthur Schnitzler.

Conheça mais sobre o projeto aqui.

Bolsas para a escola de inverno “A descoberta da modernidade” da Universidade de Viena

A escola se localiza em Viena, onde ainda são visíveis vestígios da cultura marcante do final do século XIX e início do século XX. O programa de duas semanas combina cursos acadêmicos de primeira classe com um extenso programa social e cultural. A rica herança cultural de Viena, especialmente os museus, levará a uma compreensão completa da contribuição do fin-de-siècle para a modernização da Europa.

Esse programa único consiste em palestras de alto nível pela manhã e excursões guiadas na cidade de Viena, bem como visitas a vários museus à tarde. Fora da estrutura das aulas, Viena oferece muitas oportunidades para explorar outras atrações culturais e históricas.

O ambiente acadêmico do curso incentiva o intercâmbio intercultural e social e favorece o entendimento mútuo entre a população estudantil internacional. Assim, os participantes ampliam seus horizontes, conhecem colegas de diferentes áreas de estudo, fazem amigos para a vida e constroem conexões para suas futuras carreiras profissionais.

Existe um vídeo para oferecer algumas impressões do univie: escola de inverno. Por favor, clique aqui para ter acesso ao material.

Dado o aspecto intercultural e interdisciplinar do programa, nossas ofertas de cursos são, sem dúvida, de interesse para estudantes de todas as áreas de estudo.

Para informações mais detalhadas sobre a universidade: escola de inverno para estudos históricos culturais, visite nossa página clicando aqui.

Também existe a possibilidade de acessar as bolsas. Para mais informação é só clicar aqui. O prazo de inscrição para a escola de inverno é 30 de novembro de 2022.