O Jovem Törless de Musil: um espelho dos cantos escuros da alma

Adryan Martins

Robert Musil (1880-1942) foi um escritor e filósofo austríaco considerado um dos maiores escritores do século XX ao lado de nomes como Kafka. Nascido em Klagenfurt, no então Império Austro-Húngaro, sua trajetória foi um tanto incomum. Musil se formou em engenharia mecânica, mas logo se voltou para a filosofia, psicologia e matemática, concluindo seu doutorado em 1908. Tal formação híbrida, que conciliava o rigor científico com a especulação filosófica, marcaria profundamente sua literatura.

O conflito entre o pensamento racional e as forças irracionais já se anuncia em seu romance de estreia, O Jovem Törless (1906). A obra é em grande medida um reflexo de sua própria biografia. Na adolescência, Musil foi enviado pelos pais para um rigoroso internato militar, experiência que o marcou profundamente. Embora Musil mais tarde tenha negado qualquer relação autobiográfica, o livro aproveita diretamente desse ambiente opressor, transformando a memória em uma investigação psicológica e moralmente impiedosa. Mais do que um simples “romance de formação” (Bildungsroman1), a obra de Musil utiliza o ambiente do internato para mostrar o despertar da sexualidade, a mecânica do poder e a fragilidade da ética, antecipando com uma lucidez perturbadora as sombras que em breve pairariam sobre a Europa.

Não é apenas um texto sobre a própria juventude, pois a escrita de Musil em O Jovem Törless revela um olhar curioso e ao mesmo tempo perturbador sobre o que se passa nos cantos escuros da alma. Ele não se contenta em narrar os fatos, prefere analisar as contradições que habitam o peito de Törless, a excitação que vem junto com o nojo, o impulso de proteger que se confunde com o desejo de destruir. O internato, com seus corredores vazios e regras rígidas, serve como uma lente de aumento para essas tensões e Musil conduz o leitor não por explicações prontas, mas por uma atmosfera de desconforto e estranhamento, como quem aponta para o que a razão insiste em ignorar, a fragilidade dos limites entre o certo e o errado quando os instintos torna-se a principal linha de raciocínio.

  1. Segundo consta na Wikipedia, o termo Bildungsroman é usado para o tipo de romance em que é exposto, de forma minuciosa, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.

Existe um austríaco típico? E um alemão típico? 

Raíza Custódio, aluna da disciplina de Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR 

Muitas vezes, quando começamos a aprender uma língua, já temos várias impressões formadas sobre como um povo é. Alemães são sempre diretos e pontuais – nada de fazer sala. Austríacos são frios e introvertidos. Mas será que é assim mesmo? 

A instrutora Mala Ullal, que trabalha como formadora intelectual na Alemanha, ajudando estrangeiros a se adequarem ao país, conta em uma entrevista para o site deutschland.de que, apesar da comunicação ser sim mais direta do que em vários outros países, as interações têm muitas outras nuances que dependem de região e experiências pessoais. 

Pensando justamente em abordar essas complexidades sobre o que é um austríaco típico, o jornal Der Standard fez uma série de quatro vídeos trabalhando o tema, passando por temas como comida, hobbies e organização. Veja o primeiro a seguir:

Recomendação de leitura: Wittgenstein e a filosofia austríaca – Questões de Rudolf Haller

Texto escrito por Felipe dos Santos Tassini, aluno da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR

A filosofia no século XX costuma ser dividida em duas grandes correntes opostas: a tradição continental e a vertente analítica. Esta última, ainda extremamente dominante nos países anglófonos, tem sua história intimamente ligada à apropriação dos resultados da lógica formal contemporânea pelos pensamentos filosóficos de Gottlob Frege e Bertrand Russell, bem como às críticas ao idealismo britânico formuladas por este último em parceria com G. E. Moore. Entretanto, a filosofia analítica só alcançará o caráter de um novo paradigma especulativo — e seu impacto verdadeiramente transformador — a partir dos resultados obtidos por Ludwig Wittgenstein em sua juventude.

Foi Wittgenstein quem, com a publicação do Tractatus Logico-Philosophicus em 1921, operou um salto qualitativo na utilização da análise das condições lógicas da linguagem como método de esclarecimento e dissolução de aporias filosóficas, já presentes nos projetos de Russell e Frege. Porém, mesmo sendo majoritariamente influenciado pelos seus pares fundadores da perspectiva analítica — como reconhecido por ele mesmo no prólogo de sua primeira obra —, suas inspirações vão muito além dessas figuras.

Como um vienense proveniente de uma família muito abastada — seu pai, Karl Wittgenstein, foi um empreendedor tcheco de sucesso cujos negócios na indústria de ferro e aço o alçaram à condição de um dos homens mais ricos do Império Austro-Húngaro —, Wittgenstein teve um acesso privilegiado ao cenário intelectual da Áustria de sua época.

Rudolf Haller (1929–2014), filósofo austríaco e professor catedrático de pesquisa fundamental em filosofia na Universidade de Graz, pretendeu em seu livro de 1988, Wittgenstein e a filosofia austríaca: Questões, abordar essa relação entre o pensamento de Wittgenstein e a filosofia austríaca, procurando tanto construir uma história intelectual da Áustria desde Johann Friedrich Herbart (1776–1841) e Bernard Bolzano (1781–1848) quanto realizar análises comparativas entre os temas centrais do Tractatus e as ideias de autores como Fritz Mauthner, Otto Weininger e Oswald Spengler.

A tese que percorre os nove ensaios reunidos no volume é a de que existe uma tradição filosófica especificamente austríaca, cujos traços distintivos — empirismo, proximidade com as ciências, crítica da linguagem e rejeição da metafísica grandiosa — não apenas antecederam o surgimento da filosofia analítica, como ajudaram a moldá-la de maneira decisiva. Para Haller, Wittgenstein não é simplesmente um herdeiro de Frege e Russell que por acaso nasceu em Viena; ele é, antes, um pensador situado no cruzamento de duas tradições, alguém que levou para Cambridge uma sensibilidade filosófica forjada no ambiente intelectual austríaco e que, ao mesmo tempo, transformou essa herança ao submetê-la ao rigor da lógica formal.

Com isso, Haller nos oferece uma chave de leitura duplamente reveladora. Por um lado, ele ilumina facetas do pensamento de Wittgenstein que a historiografia convencional costuma deixar na sombra — como sua dívida para com a Sprachkritik de Mauthner ou sua admiração pelo rigor ético de Weininger. Por outro, ele reconstrói uma genealogia alternativa da filosofia contemporânea, na qual a Áustria deixa de figurar como mera coadjuvante e passa a ocupar o centro do palco. O resultado é um livro que, mais de três décadas após sua publicação, continua sendo leitura obrigatória para quem deseja compreender não apenas Wittgenstein e a tradição austríaca, mas o próprio desenvolvimento da filosofia no século XX.

Os “Grün-Weißen”: conheça mais sobre o time austríaco que venceu o campeonato alemão de futebol

por Adryan Luiz Martins de Moraes, aluno da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR. 


O time SK Rapid Wien, também conhecido como “Grün-Weißen” por causa das cores do uniforme – verde (Grün) e branco (Weiß) conquistou o campeonato de futebol alemão de 1941 com uma vitória surpreendente. Mas para entender como um time austríaco ganhou a liga alemã, precisamos entender um pouco do contexto da época.

Entre as décadas de 1930 e 1940, a Alemanha colocava em prática seus planos de anexar a Europa, começando por países próximos, como a Áustria. Com a anexação da Áustria, alguns times do campeonato austriaco passaram a
competir com os times alemães em um único campeonato. E mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, o futebol profissional ainda estava sendo praticado. Adolf Hitler compreendia que os esportes tinham um grande poder para a propaganda militar e política, e que era uma forma de propagar suas ideologias para o mundo.

E o título histórico dos Grün-Weißen? No ano de 1941, o Rapid Wien surpreendeu todos ao chegar ao final do campeonato alemã, que era constituído por uma fase de grupos que logo em seguida se tornava um confronto direto entres os times. Após chegar a final, é revelado que seu adversário seria o Schalke 04, time tradicional da
Alemanha e que tinha Adolf Hitler como torcedor.

Os Grün-Weißen começam perdendo pelo incrível placar de 3×0, mas os austríacos reagiram nos 10 minutos finais transformando o placar negativo em 3×4, feito realizado na frente de 100 mil torcedores, incluindo o ditador alemão.

Imagens, da esquerda para a direita:

1 – Time vencedor com a taça. Imagem disponível no Rapideum, museu do time em Viena.
2 – Camisa do Rapid Wien na temporada 2020/2021, feita pela Adidas
3 – Torcedores alemães com o placar final do jogo. Crédito: By Bundesarchiv, Bild 183-2004-1001-503 / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 de, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5348387

Três vezes em que a Áustria esteve presente na história do Brasil

Texto de Giselle Pereira Maia, aluna da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR. 

Apesar da distância e das diferenças culturais, o Brasil e a Áustria compartilham momentos históricos importantes. Por trás de diversos elementos do nosso cotidiano há heranças austríacas que muitos brasileiros nem imaginam. Veja três delas:

O amarelo da bandeira nacional

Ao contrário do que muitos aprendem na escola, a cor amarela na bandeira do Brasil não significa apenas o ouro do país. A cor foi escolhida como homenagem à Casa de Habsburgo, família austríaca de Maria Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil e esposa de Dom Pedro I.

Quer saber mais sobre Maria Leopoldina? O Centro Austríaco desenvolveu um material para alunos de alemão de nível A1 sobre a imperatriz. Conheça aqui.

As primeiras grandes pinturas do Rio de Janeiro

A chegada de Maria Leopoldina ao Rio de Janeiro, em 1817, mudou a ciência no país. A arquiduquesa tinha uma enorme paixão por botânica e mineralogia, e trouxe consigo muitos cientistas, médicos e pintores europeus. Durante anos, eles exploraram o território brasileiro, registraram a fauna e a flora e criaram as mais famosas pinturas das paisagens do Rio de Janeiro daquele século.

Pintura de Thomas Ender (Vista do Rio de Janeiro, 1837): acervo da Galeria de Pinturas da Academia de Belas Artes de Viena, Áustria

A origem da expressão “Brasil, país do futuro

Stefan Zweig foi um escritor austríaco de grande influência da década de 20. Por ser judeu, ele precisou fugir da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e abrigar-se no Brasil. Durante a sua estadia, escreveu sobre o país e nomeou-o como “Brasil, país do futuro”, essa expressão fez tanto sucesso na época que é possível ouvi-la até os dias de hoje, como na música “Perfeição” da banda Legião Urbana.

O Centro Austríaco também já fez um material didático sobre o período que Stefan Zweig e sua esposa, Lotte Zweig, passaram no Brasil. Veja mais aqui.

Esses fatos, que são pouco conhecidos, demonstram que é muito importante conhecer a história de outros países para entender o nosso, afinal, o Brasil foi formado por uma mistura de etnias e culturas. Logo, a Áustria deixou diversas marcas na nossa arte, literatura e até mesmo na nossa bandeira nacional.

Anton Zeilinger, o “Papa Quântico”

Susi Horn

Anton Zeilinger, nascido em 1945 em Ried im Innkreis, é um dos mais renomados físicos quânticos da atualidade e, requisito básico para receber um blog por aqui, austríaco. Em 2022, recebeu o Prêmio Nobel de Física por seus experimentos com fótons emaranhados, em conjunto com seus colegas Alain Aspect e John Clauser. Esse e outros experimentos seus confirmaram que o entrelaçamento quântico está certo, o que pavimenta o caminho para computadores quânticos, redes quânticas e comunicação criptografada quântica.

Mas, afinal, o que é essa tal de física quântica? A palavra “quântico” se ouve por aí vez ou outra, principalmente quando alguém quer deixar um certo tema mais interessante e complexo. Na física, no entanto, ela tem um significado muito específico, então convido-os a um breve episódio de Physics for Dummies (e entre esses dummies encontra-se também a autora que vos fala).

De acordo com uma pesquisa muito séria no modo IA do Google, a palavra vem do latim quantum, significando “quanto” ou “qual a quantidade”, ou seja, no próprio nome desse ramo da física, os físicos já mostram que nem eles sabem do que se trata. Mas, brincadeiras à parte, pesquisas em páginas mais confiáveis dizem que esse ramo da física estuda aquilo que acontece em escala extremamente pequena, trabalhando nas escalas de partículas até mesmo subatômicas. Assim, estuda-se o comportamento das partículas fundamentais, aquelas que formam tudo o que há no mundo. Essa física lida muito mais com probabilidades do que com leis determinísticas tal qual a física clássica.

A título de curiosidade, alguns dos fenômenos que a física quântica ajuda a iluminar ou ajudou a inventar/descobrir, onde a clássica newtoniana não deu conta, são a física nuclear, o laser, os computadores quânticos, o decaimento radioativo, a espectroscopia atômica (seja o que for isso), entre outros. Além disso, ainda pode-se mencionar alguns nomes importantes da área, como o de Max Planck, conhecido como o pai da física quântica, Albert Einstein, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, também austríaco.

Assim, Zeilinger não só conseguiu o feito de “desemaranhar” esse ramo da física, mas de fazer o mesmo com os seus fótons emaranhados.

Desde criança, ele gostava de entender como as coisas funcionam, indicando isso já ao desmontar as pobres bonecas de sua irmã. Após completar o ensino médio, entre 1963 e 1971 o jovem estudou física e matemática na Universidade de Viena. Depois de formado, foi professor visitante em diversas universidades fora da Áustria, como nos EUA, na Alemanha, na Grã-Bretanha e na França — um talento nato como professor, ele foi um docente que, com muito carisma, também ensinou a física ao público amplo. Até se tornar professor emérito em 2013, Zeilinger lecionou na Universidade de Viena, onde também foi decano da faculdade de física e participou do conselho do Instituto para Física Experimental. Além do prêmio Nobel, que não lhe foi concedido à toa, Zeilinger pela primeira vez teve sucesso com a teletransporte quântico de partículas de luz, em 1997, criptografou a primeira transação bancária pelo emaranhamento quântico em 2007 e ganhou diversos outros prêmios pelos seus trabalhos na física.

Numa entrevista publicada pelo canal de YouTube da Universidade de Viena, lhe fazem a pergunta “qual foi sua descoberta científica mais importante?”. Anton Zeilinger reponde, de modo muito simples, que essa descoberta seria o fato de a informação ser a base da ciência, e não a investigação de uma realidade material. Essa afirmação ganha cada vez mais defensores em meio aos físicos modernos: a informação seria o ingrediente básico da qual todo o resto — partículas, campos, forças, tempo, espaço — emerge. Por exemplo, a dureza de um diamante é apenas uma informação de como os átomos dele estão ligados; a cor de um pôr do sol, então? Informação sobre a frequência das ondas de luz. 

E, para finalizar com algo mais leve e compreensível, o cientista ainda dá um conselho aos recém-ingressados na universidade: façam aquilo pelo que se interessam, não o que os seus avós ou pais querem de vocês. Parece uma dica óbvia, mas não é tão óbvia assim quando se observa os jovens nos ambientes universitários, dos quais tantos seguem desejos alheios nas suas escolhas acadêmicas, e não os próprios. Imaginem só se um gênio como Zeilinger tivesse seguido qualquer área menos a que é sua paixão, imaginem os descobrimentos que se teria adiado por isso! Dito isso, sigam o que acende sua curiosidade, de onde podem surgir as maiores e melhores descobertas.

Bons dias. 

Relato de aprendizagem: Influências linguísticas e fonológicas entre alemão, português e espanhol

Texto de Carlos Alejandro Peña Suárez (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

A aprendizagem de uma nova língua não é influenciada apenas pela gramática e pelo vocabulário, mas também pelas estruturas linguísticas que o aprendiz já conhece. Pesquisas na área de aquisição de segunda e terceira língua demonstram que a língua materna e outras línguas previamente aprendidas influenciam diretamente a pronúncia, a percepção auditiva e a compreensão de novos padrões linguísticos.

Como falante nativo de espanhol e estudante de português e alemão, é interessante observar como essas três línguas interagem entre si. Principalmente no nível fonológico, surgem vantagens e dificuldades específicas.

O alemão pertence à família germânica, enquanto o português e o espanhol fazem parte das línguas românicas. Apesar dessas diferenças, estudos sobre “cross-linguistic influence” mostram que até mesmo línguas tipologicamente distantes podem compartilhar características que influenciam o processo de aprendizagem.

Aprender alemão sendo falante de português ou espanhol

Para falantes de português e espanhol, o alemão costuma parecer difícil inicialmente devido aos casos gramaticais, à ordem das palavras e às palavras compostas longas. O sistema de nominativo, acusativo, dativo e genitivo não existe da mesma forma no português e no espanhol.

No entanto, no campo da fonologia aparecem diferenças interessantes entre lusófonos e hispanofalantes. Pesquisas sobre interferência fonológica mostram que hábitos articulatórios da língua materna influenciam diretamente a produção de novos sons.

O português brasileiro apresenta sons mais guturais e posteriores do que o espanhol em alguns contextos fonéticos. Isso pode facilitar para falantes de português a percepção e a reprodução de certos sons do alemão, como o “ch” e determinados sons fortes de “r”. Já falantes de espanhol costumam possuir um sistema vocálico mais estável e regular. Isso pode favorecer a pronúncia clara de vogais alemãs. Por outro lado, sons guturais e algumas combinações consonantais do alemão podem representar maior dificuldade.

Aprender português ou espanhol sendo falante de alemão

Falantes de alemão encontram inicialmente elementos familiares no português e no espanhol, como o alfabeto latino e diversas palavras internacionais. Entretanto, novas dificuldades surgem especialmente no aspecto fonológico.

No português brasileiro, as vogais nasais possuem grande importância. Palavras como “não”, “mãe” e “pão” apresentam nasalização, característica ausente no alemão. Pesquisas sobre percepção fonológica indicam que sons inexistentes na língua materna tendem a ser mais difíceis de reproduzir corretamente.

Além disso, o ritmo da fala em português difere bastante do alemão. O português brasileiro apresenta uma entonação mais fluida e musical, enquanto o alemão costuma ser percebido como mais segmentado ritmicamente.
No espanhol, a relação entre escrita e pronúncia costuma ser mais regular. Mesmo assim, a velocidade da fala e a variedade de formas verbais podem representar desafios para falantes de alemão.

Interferência linguística e multilinguismo

Pesquisas sobre multilinguismo demonstram que, ao aprender uma terceira língua, não apenas a língua materna exerce influência, mas também outras línguas previamente aprendidas. Esse processo é conhecido como “cross-linguistic influence”.

Entre português e espanhol ocorre frequentemente interferência lexical e fonológica. Devido à proximidade entre essas línguas, aparecem falsos cognatos, misturas gramaticais e influências na pronúncia.

Ao mesmo tempo, a proximidade linguística pode acelerar o processo de aprendizagem. Entretanto, estudos indicam que o excesso de semelhança também pode gerar simplificações excessivas e erros fossilizados.

Conclusão

A aprendizagem de alemão, português e espanhol mostra como língua, fonologia e experiência cultural estão profundamente conectadas. A língua materna influencia não apenas a gramática, mas também a percepção e a produção de novos sons.

Falantes de português podem apresentar vantagens em determinados sons guturais do alemão, enquanto falantes de alemão frequentemente encontram dificuldades com a nasalização do português. Já falantes de espanhol podem se beneficiar de um sistema vocálico mais estável, embora enfrentem outros desafios fonológicos.

Aprender diferentes línguas, portanto, não é apenas um processo linguístico, mas também cultural e cognitivo.

Referências e fontes de pesquisa
Odlin, Terence. Language Transfer: Cross-Linguistic Influence in Language Learning.
Cambridge University Press.
Ellis, Rod. Understanding Second Language Acquisition. Oxford University Press.
Cenoz, Jasone; Hufeisen, Britta; Jessner, Ulrike. Cross-linguistic Influence in Third Language
Acquisition.
Estudos sobre interferência fonológica e aquisição multilíngue:
Cambridge University Press – Cross-linguistic Influence in Multilingual Development.
Pesquisas sobre percepção fonológica e transferência articulatória em aquisição de L2 e L3.
Estudos comparativos sobre fonologia do português brasileiro, espanhol e alemão.
Conceitos gerais de fonética articulatória, fonologia e multilinguismo aplicados ao ensino de
línguas.
Observações pessoais desenvolvidas a partir do estudo acadêmico de português e alemão.

Conheça a banda austríaca “Sanguis et Cinis”

Joe Silva (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

Sanguis et Cinis: Biografia e Legado

Fundada em 1994 após o encontro entre Eve Evangel e Ashley Dayour, a banda austríaca Sanguis et Cinis consolidou-se como um dos nomes fundamentais da cena darkwave europeia. Seus primeiros passos foram marcados pela demo Requiem 1791, que trazia faixas emblemáticas como “Schicksalswölfe” e “Gedankensplitter”.

Trajetória

Em 1996, o lançamento do álbum de estreia, Schicksal, atraiu a atenção da gravadora MOS Records. Com o tempo, a formação passou por mudanças estratégicas: Eve buscou uma nova identidade visual para o grupo, integrando Celine Cecila Angel. Após a saída de Ashley Dayour e a passagem de membros como Arthur e Richard, a banda estabilizou-se como um trio.

A banda conquistou palcos internacionais, realizando shows memoráveis na Alemanha, Portugal, Itália e Áustria, além de turnês por locais tão distintos quanto México, África do Sul, Rússia e Estados Unidos. Dividiram festivais com ícones como Diva Destruction, Noctivagus e Within Temptation. Em 2003, o prestígio do grupo foi selado com a capa da revista alemã Orkus.

Nos anos 90, o grupo era um dos principais expoentes do Neue Deutsche Todeskunst, movimento que introduziu o idioma alemão na sonoridade darkwave. Com o tempo, sua estética evoluiu para uma fusão de Rock Alternativo e Rock Gótico.

Recomendações: O Som em Alemão Austríaco

Para quem deseja explorar a fase mais autêntica da banda, os álbuns abaixo são essenciais. Eles trazem letras inteiramente em alemão, mesclando sintetizadores atmosféricos com guitarras de timbres bem característicos:

  • Wie der unberührte Traum einer Jungfrau (Como o sonho intocado de uma virgem)
  • Schicksal (Destino)

Onde Escutar
Mergulhe na discografia oficial através das plataformas de streaming:

Capa do primeiro álbum lançado pela banda



Workshop aborda línguas minoritárias na Áustria a partir da literatura

Workshop da plataforma Kultur und Sprache aborda línguas minoritárias na Áustria. Partindo do romance “Engel des Vergessens”, de Maja Haderlap, a palestrante Katrin Stefan fala sobre a história dos eslovenos da Caríntia na região bilíngue na fronteira entre Áustria e Eslovênia.

O evento acontece de forma online nos dias 08 e 11 de junho de 2026. Mais informações e inscrições no site da plataforma Kultur und Sprache.