Uma retrospectiva da literatura austríaca em 2020

Em 2019, Peter Handke ganhou o Prêmio Nobel de Literatura – uma notícia divulgada no mundo todo. Mas na própria Áustria há também uma série de prêmios literários que são outorgados para homenagear autores renomados, estimular jovens talentos ou dar visibilidade a obras de destaque. A seguir, juntamos informações e curiosidades sobre alguns desses prêmios e seus vencedores do ano de 2020, oferecendo assim uma pequena retrospectiva sobre o cenário literário austríaco nesse ano distante de qualquer normalidade.

Clemens Setz. By Lesekreis – Own work, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22763817

Começamos com o escritor que, no entender de muitos (“As evil as Nabokov, as virtuosic as David Foster Wallace“, Welt am Sonntag; “One of the highest hopes of German literature“. Frankfurter Allgemeine Zeitung), é o autor mais promissor no cenário da literatura austríaca atual: Clemens Setz, nascido em 1982 e autor de diversos livros; entre eles, Die Stunde zwischen Frau und Gitarre [A hora entre mulher e violão, em tradução livre], um romance de aprox.. 1000 páginas que trata de um stalker, de raiva e vingança e dos abismos cotidianos. Já ganhou vários prêmios para literatura; em 2020, foram dois prêmios alemães: O Jakob-Wassermann-Literaturpreis e o importante Prêmio Kleist. Setz é também tradutor, além de autor de prosa e textos teatrais. Após sair, em 2019, uma coletânea de contos, com personagens que sempre se encontram na fronteira entre a “normalidade” e algum “desvio psíquico” (Der Trost runder Dinger [O consolo das coisas redondas]), publicou recentemente um livro não ficcional sobre línguas planejadas (Die Bienen und das Unsichtbare [As abelhas e o invisível, em tradução livre]). Veja aqui mais informações e alguns trechos de O consolo das coisas redondas em português.

Drago Jančar por By Michal Klajban – Own work, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9566724

O Prêmio Nacional da Áustria para Literatura Europeia foi outorgado este ano ao escritor esloveno Drago Jančar. Além do presidente austríaco Alexander van der Bellen, estava presente na premiação o escritor Peter Handke, contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2019 e que atua também como tradutor do francês e do esloveno.

Xaver Bayer por By Manfred Werner – Tsui – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4821919

O Prêmio Austríaco do Livro (Österreichischer Buchpreis) de 2020 foi concedido ao escritor Xaver Bayer, para seu livro Geschichten mit Marianne [Histórias com Marianne, em tradução livre]. Um livro nada convencional, de humor ácido e grande comicidade que começa com as seguintes palavras; “Hoje, Marianne parecer ter planos especiais para mim. Percebo isso assim que ela me acorda, um tanto rude, com vários tapas na cara”. São vinte contos que tratam das
“brincadeiras”, nem sempre inocente e bem-intencionadas, de um casal. A competição lúdica em que os dois entram é muito mais perigosa do que aparenta, as reviravoltas são as piores possível e o fim trágico. A júri responsável pela atribuição do prêmio defendeu que “Xaver Bayer ilumina os espaços do medo dos nossos tempos com um humor raivoso e muitas vezes melancólico”. Mais sobre Xaver Bayer aqui, num artigo do jornal Der Standard em ocasião de sua premiação.

Kathrin Röggla por By Amrei-Marie. – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18574983

Na categoria Literatura, o Prêmio Austríaco para as Artes foi concedido em 2020 para Kathrin Röggla. Autora austríaca de prosa, drama, ensaios, instalações artísticas e peças radiofônicas, ela mora em Berlim e é bastante ativa no mundo literário e artístico da Alemanha. Seu último livro de prosa saiu em 2017, Nachtsendung: unheimliche Geschichten [Programa noturno: histórias infamiliares, em tradução livre]: Um congressista que desaparece. Um avião que não decola. Uma ilha que se extingue. Uma criança instaura uma ditadura. A violência que eclode. São as pequenos absurdos e rupturas no cotidiano que dominam a literatura de Röggla.

O Prêmio Veza-Canetti, outorgado pela prefeitura de Viena, foi criado em 2014, em homenagem à esposa do famoso Elias Canetti e no intuito de valorizar e dar visibilidade a escritoras que são de ou moram em Viena. Veza era amiga de Karl Kraus, tradutora e escritora, além de “conselheira literária” de seu marido. Durante toda sua vida e nas décadas posteriores, ficou na sombra de seu renomado companheiro, não publicou nada enquanto vivia e não há nenhuma menção sobre sua atividade literária na autobiografia de Elias Canetti. Veza morreu em 1963 e foi apenas em 1990 que Elias Canetti autorizou que fossem publicados alguns escritos da esposa (veja aqui informações em inglês sobre uma biografia dessa autora recém “descoberta”). No Brasil, saiu em 1992 A rua amarela, de autoria de Veza. Em 2020, a vencedora do prêmio Veza-Canetti foi Elisabeth Reichart, autora de textos feministas de diversos gêneros e que tratam, entre outros assuntos, sobre o passado nazista de seu país.

Elfriede Jelinek. By The original uploader was Ghuengsberg at English Wikipedia. – Transferred from en.wikipedia to Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3698206

O Prêmio Nestroy é concedido todo ano em várias categorias do mundo teatral, desde a melhor peça até a melhor produção alternativa. Em 2020, um ano extremamente difícil para os teatros – que ficaram, durante muitos meses, de portas fechadas –, o prêmio para a melhor peça foi para Schwarzwasser [Água de esgoto, em tradução livre], de Elfriede Jelinek. A obra leva ao palco o maior escândalo político da Áustria dos últimos anos, responsável pela dissolução do governo em 2019: o “caso Ibiza”. Além disso, em 2020, foi criada uma categoria nova do Prêmio Nestroy: Prêmio Especial Corona. Foram premiadas produções em formatos inovadores e experimentais: uma performance interativa em forma de filme, uma peça de teatro via ZOOM; leituras online que saem da sala de estar dos atores/das atrizes e chegam nas salas de estar dos espectadores; vídeos com monólogos escritos por autores austríacos em 2020 e lidos por atores do grande Burgtheater. Para mais informações: https://www.nestroypreis.at/

KALLIOPE: Ella Lingens e Dorothea Neff

A médica Ella Lingens e seu marido, Kurt Lingens, ofereceram ajuda a vários amigos judeus depois da anexação da Áustria pela Alemanha Nazista em 1938, mas foram entregues por um delator para o governo. Ella foi enviada para Auschwitz, onde permaneceu cerca de dois anos. Em 1980, Ella e o marido foram condecorados pela instituição Yad Vashem, autoridade de recordação dos mártires e heróis do Holocausto, com o título de Justos entre as Nações, reservado aos não judeus que se arriscaram para salvar judeus durante o Holocausto.

Conheça mais sobre a vida da médica:

A atriz Dorothe Neff abrigou, entre os anos 1941 e 1945, sua amiga Lilli Wolff, figurinista e judia. Neff passou por vários perigos, principalmente quando a amiga precisou fazer uma cirurgia para retirada de um tumor. Por suas ações, foi foi nomeada pela instituição Yad Vashem como Justa entre as Nações.

Saiba mais sobre a vida da atriz:

A exibição dos documentários é parte de uma parceria entre o Centro Austríaco e a Embaixada da Áustria. O material ficará disponível entre 21 de dezembro de 2020 e 20 de janeiro de 2021. 

Clique aqui para conhecer a exposição Kalliope – Mulheres na Sociedade, na Cultura e na Ciência. A seguir, veja a programação completa de exibição de documentários:

Paul Celan: Poeta entre línguas

Hugo Simões apresenta sua pesquisa de mestrado, intitulada “A tradução do que se cala: Paul Celan entre genocídios”, disponível em https://www.academia.edu/36877647/SIM… , com participação da Dr. Irene Giner-Reichl, embaixadora austríaca no Brasil, e do pianista Jonathan Silva, que executa as seguintes peças:

  • Ponteio No. 49 — C. Guarnieri
  • Ponteio No. 1 — C. Guarnieri
  • Ponteio No. 17 — C. Guarnieri

Hölderlin Vanguarda: Desejo de Elfriede Jelinek

Palestra de Uta Degner da Universidade de Salzburg sobre “Hölderlin Vanguarda: Desejo de Elfriede Jelinek”, no âmbito de um ciclo de palestras sobre Hegel e Hölderlin, organizada pela UFRGS (Centro de Estudos Europeus e Alemães). Na sua fala, Degner aborda um dos aspectos mais características da obra de Jelinek, sua intertextualidade criativa (aqui, com foco na poesia de Hölderlin). Depois, discute com especialistas brasileiras sobre a obra da escritora e dramaturga austríaca, inclusive sobre aspectos e problemas da tradução. A palestra é em alemão, mas acompanhada por tradução em língua portuguesa e boa parte da conversa acontece também em português. Em breve, todo o vídeo será legendada.

Cem anos de Paul Celan

Em 1949, o filósofo alemão Theodor W. Adorno escreveu que seria “bárbaro” escrever poesia “após Ausschwitz”. A “Fuga da Morte” – senão toda a obra – de Paul Celan pode ser lida como uma prova do contrário, como um trabalho e um confronto poético-estético cujo tema é justamente a experiência do holocausto.

Paul Celan nasceu há exatamente cem anos, em 23 de novembro de 1920, em Chernivtsi, cidade que hoje fica na Ucrânia, mas que naquela época ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro. Para Celan, o idioma alemão foi, ao mesmo tempo, “língua materna”, “língua dos assassinos” de seus pais (ambos mortos em campos de concentração durante o regime nazista) e, também, “língua poética”. A reflexão sobre os limites da língua e da comunicação humana para expressar experiências extremas e de não-pertencimento foram essenciais para sua obra poética.

Para conhecer mais:

Paul Celan

KALLIOPE: Margarete Schütte-Lihotkzy

Quando Margarete Schütte-Lihotzky celebrou seu centésimo aniversário em 1997, disse que em 1916 ninguém teria encarregado a uma mulher o projeto de uma casa. Mas ela não só conseguiu estudar Arquitetura na Escola de Artes Industriais como também criou um modelo de cozinha que é usado até hoje. Além de sua vida profissional exemplar, Schütte-Lihotkzy participou do movimento de resistência contra o regime nazista.

Conheça mais sobre a vida da arquiteta:

A exibição do documentário é parte de uma parceria entre o Centro Austríaco e a Embaixada da Áustria. O material ficará disponível entre 20 de novembro de 2020 e 20 de dezembro de 2020.

Clique aqui para conhecer a exposição Kalliope – Mulheres na Sociedade, na Cultura e na Ciência. A seguir, veja a programação completa de exibição de documentários:

Convocatória de tradução para o alemão de contos brasileiros

A Embaixada do Brasil na Áustria e a Universidade de Viena estão recebendo projetos de tradução, para o alemão, de contos brasileiros publicados a partir de 1822, por ocasião da publicação de uma antologia bilíngue comemorativa do bicentenário da independência.  

Projetos devem ser enviados às organizadoras do projeto, Alice Leal (alice.leal@univie.ac.at) e Carolina Borges (carolina.borges@univie.ac.at). Dúvidas também podem ser enviadas a esses dois endereços.

O prazo para o envio de projetos é 14 de dezembro de 2020. O texto completo da convocatória encontra-se no anexo

Evento: apresentações sobre Rose Ausländer e Paula Ludwig na Abralic

Rose Ausländer (à esquerda) e Paula Ludwig (à direita)

O simpósio “Deslocamentos Literários: cultura, tradução e migração”, parte do XVII Congresso Internacional Abralic, terá duas apresentações dedicadas às poetas Rose Ausländer e Paula Ludwig.

O mestrando Luiz Carlos Abdala Junior (UFPR) apresenta o trabalho “As diferentes moradas do exílio: Rose Ausländer e a tradução entre línguas” no dia 05 de novembro de 2020 às 14h15. Em seguida, às 14h30, a doutoranda Mariana Chirico Machado Holms (USP) apresenta “Brasil 1943 – a natureza estrangeira à espreita em um poema do exílio de Paula Ludwig”.

A programação completa do simpósio pode ser vista aqui. As apresentações serão transmitidas ao vivo no canal do YouTube da Abralic.

Conversa com Claudia Cavalcanti sobre Ingeborg Bachmann e seus poemas

A tradutora Claudia Cavalcanti e as professoras Susana Kampff Lages (UFF) e Ruth Bohunovsky (UFPR e coordenadora do Centro Austríaco) conversaram sobre Ingeborg Bachmann e seus poemas, como parte das atividades do Núcleo de Tradução e Criação da Universidade Federal Fluminense (UFF). A conversa está disponível no YouTube:

De Ingeborg Bachmann, Claudia Cavalcanti traduziu o livro O tempo adiado e outros poemas, publicado pela Todavia Livros em 2020. Mais informações aqui.