Kultur und Sprache lança novo site

O programa Kultur und Sprache lança um novo site. Lá, professores e professoras podem encontrar material didático sobre temas austríacos, mas também informações sobre cursos e eventos gratuitos que ajudam a promover uma imagem contemporânea do país e realizar um ensino de alemão mais plural e interessante. Os eventos (online e presenciais) se dirigem tanto a docentes já experientes como àqueles ainda em formação. Vale a pena dar uma olhada e se inscrever para receber o Newsletter!

O programa é atrelado ao Ministério Federal da Educação, Ciência e Pesquisa da Áustria e implementado pelo OeAD e já está ativo há 25 anos.

Planos de aula gratuitos para trabalhar literatura austríaca nas salas de aula

Um grupo de alunos da Universidade de Viena desenvolveu uma grande variedade de planos de aula e sites de qualidade para trabalhar com literatura em salas de aula de alemão como língua estrangeira. Os planos estão divididos de acordo com o nível de alemão dos alunos.

Aqui, fornecemos uma breve descrição de alguns planos de aula sobre literatura austríaca que valem a pena conhecer:

Geschichten aus dem Wiener Wald por Ödon von Horváth

Neste planejamento para o nível B2, os alunos podem conhecer várias cenas da peça teatral de Ödön von Horváth, que se passam em diferentes lugares da Áustria. Além disso, o planejamento inclui algumas cenas de filmes, o que pode ser muito motivador na sala de aula!

Clique aqui para acessar o plano de aula Didaktisierung Geschichten aus dem Wiener Wald von Ödön von Horváth (em alemão). 

Daniel Glattauer „Gut gegen Nordwind“ 

Este romance, baseado em uma troca de e-mails, tem um toque realista e moderno com o qual os alunos poderão se identificar facilmente. São tratados temas como amizade e conhecimento mútuo, permitindo também diferentes interpretações utilizando apenas trechos do texto. 

Para ver o planejamento, indicado para a partir do A2, clique aqui.

Kaffeehaus de Peter Altenberg

Imagem da representação de Peter Altenberg no Café Central de Viena. Quelle: http://www.viennatouristguide.at/personen/Altenberg/ab.htm

KAFFEEHAUS

Du hast Sorgen, sei es diese, sei es jene – – –

ins Kaffeehaus!

Sie kann, aus irgend einem, wenn auch noch so

plausiblen Grunde, nicht zu dir kommen

– – – ins Kaffeehaus!

(…)

O autor boêmio austríaco Peter Altenberg passava a maior parte do tempo em cafés. Não é de surpreender que suas obras tenham sido designadas por alguns como “literatura de café”!

Clique aqui para ver o planejamento para os níveis A2 e B1.

Você sabe quem é o Hanswurst, o João-Linguiça?

Trata-se de uma das personagens mais famosas do teatro de língua alemã, sobretudo na Áustria. Chegou a Viena em 1705 ou 1706 com Joseph Anton Stranitzky, um ator que se estabeleceu na capital austríaca após percorrer a Alemanha com grupos teatrais itinerantes. Trouxe na bagagem a figura cômica do Hanswurst – que está presente até hoje, esculpido em pedra, na parte externa do famoso Burgtheater de Viena.

No palco, além de cômico, João Linguiça foi também uma voz crítica em relação às injustiças sociais e à corrupção política de sua época, além de politicamente incorreto e exageradamente grotesco. As elites políticas e culturais do século XVIII, tanto na Alemanha quanto na Áustria, começaram a se incomodar tanto com essa figura nada compatível com o “bom gosto” da burguesia dita esclarecida que chegou a proibir sua presença nos teatros, para garantir a “implementação da boa moral”. Mas, a personagem do João Linguiça resistiu, continuou presente nos teatros, na vanguarda literária do século XX e no teatro de fantoches para crianças, onde ganhou o nome de Kasperl. Até o famoso Johann Wolfgang von Goethe escreveu uma farsa que tem o João Linguiça como personagem principal: Hanswursts Hochzeit oder der Lauf der Welt – Ein mikrokosmisches Drama [O casamento de João Linguiça ou o curso do mundo – um drama microcósmico].

Quer saber mais sobre a figura do João Linguiça? Falamos mais sobre ele e outras figuras da literatura austríaca no livro Áustria: Uma história literária.

10 dicas para aprender alemão lendo artigos de jornais austríacos

Você está pensando em praticar ou aumentar o seu vocabulário em alemão lendo textos atuais sobre a Áustria? Ou já pensou em trabalhar com matérias autênticas de jornais em sala de aula? Aqui está uma lista de estratégias que ajudam não só a decifrar as palavras e seu contexto sem o auxílio de um dicionário, mas também a promover indiretamente a aquisição de mais vocabulário. Além disso, apresentamos uma variedade de jornais austríacos, para que você possa escolher com qual deseja trabalhar.

Jornais

Entre os periódicos mais populares estão Standard, Kurier, Presse e Krone. Entre todos, o Standard é muito popular e visto como um meio de alta qualidade, seguido pelo Wiener Zeitung ou o Falter, embora as opiniões variem. Já o Österreich e o Krone são considerados tabloides. Vale a pena dar uma olhada em todos!

Como selecionar o artigo

  1. Elementos no conteúdo como fotos, dados numéricos, e textos de apoio, nos quais o próprio conteúdo se repete várias vezes, mas em outras palavras, são muito úteis. Essas características costumam existir em artigos de jornal, então aproveite para aprender!
  2. A motivação afeta muito o desempenho: portanto, escolha um texto que seja de grande interesse para você e/ou seus alunos!

Estratégias para decodificar palavras

  1. Compare a palavra que você não conhece com palavras de outros idiomas que soam semelhantes para você (por exemplo: light, em inglês e Licht em alemão) Nota: Os jornais tendem a usar principalmente palavras derivadas do inglês!
  2. Caso a palavra “soe familiar” para você, mas você ainda não lembra do significado, tente ler a palavra em voz alta várias vezes: isso pode ajudar a verificar foneticamente se você não confundiu palavras que se parecem, mas não se relacionam entre si. Além disso, esse procedimento ajuda a encontrar a palavra no “léxico” da memória.

    Nada ainda? Vamos continuar tentando…

  3. Divida a palavra para tentar descobrir algo sobre ela. Você conhece algum sufixo ou prefixo? É uma palavra composta? Existem partes da palavra que você conhece por conta de sua função gramatical?
  4. Observe a palavra dentro da frase: Qual é sua posição? Que função (sujeito? objeto?) tem? (Importante: os jornais tendem a “esvaziar” as frases dos verbos de conteúdo, transformando as palavras importantes em substantivos. Então se você não entende uma palavra que não é um substantivo, tente deduzir seu significado olhando nos substantivos em torno dela).
  5. Veja se a mesma palavra ou uma palavra semelhante é encontrada em outros contextos dentro do artigo e sublinhe-a. Que pistas esses outros contextos fornecem sobre a palavra?
  6. Tente deduzir o significado da palavra levando em consideração o tópico geral e seu conhecimento geral sobre o assunto. Que ideias vêm para você?
  7. Se você não consegue entender a palavra, mude sua estratégia e tente outra. Se, apesar disso, você não tiver obtido sucesso, tente novamente mais tarde! Talvez você ainda não esteja pronto para entender a palavra por não ter informações suficientes sobre ela ainda: muitas vezes, novas informações e explicações são fornecidas no próprio texto a medida que é lido.
  8. Se você conseguiu chegar perto de uma interpretação da palavra que parece válida para você, verifique com segurança esse significado tanto no contexto próximo (a frase) quanto no contexto mais amplo (o parágrafo). Continua fazendo sentido?

Você quer saber mais sobre estratégias de leitura? Martina Kienberger se aprofunda no tema em sua tese. Clique aqui para ler (indicamos principalmente as páginas 170-172 – em alemão).

É o intraduzível que vale a pena traduzir

Dramaturgo e tradutor, Artur Kon participou da montagem de duas peças da escritora Elfriede Jelinek no Brasil, além de desenvolver atualmente uma pesquisa de doutorado sobre a obra da austríaca pela USP. Em entrevista, conversou com o Centro Austríaco sobre sua experiência com a obra de Jelinek e a importância da autora no cenário atual.

Centro Austríaco: Em poucas palavras: por que a obra da Jelinek é importante? 

Artur Kon: Assumindo o risco desse tipo de avaliação, eu diria: as peças de Elfriede Jelinek constituem, provavelmente, a obra dramatúrgica mais importante do nosso tempo. Por um lado, ela continua certa tradição alemã de teatro político, que a gente aqui conhece bem por causa de um Brecht, e também do Heiner Müller; ela parte deles dois, mas cria uma forma muito dela de escrever para teatro. Isso porque, por outro lado, ela é resultado de uma outra tradição, a da literatura austríaca, com sua obsessão pelo funcionamento da linguagem, seu empenho político menos disciplinado, mais negativo, seu humor peculiar. Além disso, ela tem uma consciência rara do que significa escrever para teatro hoje: ela sabe que vivemos num momento em que o texto dramatúrgico é prescindível, o teatro já descobriu que pode ser “pós-dramático”. Ela não luta contra isso e nem abandona a tarefa de escrever para a cena, ela habita um espaço de tensão: se a cena se liberta do texto, e o texto por sua vez se liberta da cena, nem por isso eles deixam de exigir muito um do outro, de se desafiar mutuamente. Não conheço ninguém que explora essa tensão de modo tão poderoso quanto ela.(Só não sei se foram poucas palavras! Mas assim é com Jelinek…)

Elfriede Jelinek



C.A.: Você lembra a primeira vez que entrou em contato com a obra dela? O que te impactou mais?

A.K.: A primeira vez que eu ouvi falar dela foi quando ela foi laureada com o Nobel, em 2004. Eu estava no Ensino Médio ainda, e minha professora de Literatura, com quem eu conversava bastante sobre leituras, perguntou se eu a conhecia. Eu disse que não, e ela respondeu: “Sorte a sua. É só pornografia”. Como bom adolescente, claro que só fiquei mais interessado! Mas não havia obras dela traduzidas para o português, então guardei aquele nome em alguma gaveta no fundo da memória… E por isso eu o reconheci quando encontrei várias peças dela traduzidas para o francês, numa livraria parisiense. Na época eu não entendia nada de alemão, então comprei aquelas traduções, que hoje sei que não são muito boas, mas era o que dava pra ler. E eu li, e me encantei mesmo naquelas traduções, principalmente com duas coisas, que acabam se encontrando: primeiro, o modo como ela se apropriava de uma tradição literária, por exemplo recriando as figuras da Branca de Neve ou da Bela Adormecida, em Dramas de princesas; segundo, o modo como ela se apropriava da própria linguagem literária e teatral, deformando-a de modo a criar um estranhamento, ainda que não exatamente um estranhamento brechtiano. Depois encontrei algo para ler em inglês… Até que finalmente comecei a estudar alemão para poder ler no original, e aí foi como poder ter uma segunda primeira impressão!

C.A.: Quais são os grandes desafios de tradução da obra dela para o português?

A.K.: A própria Jelinek diz que é impossível traduzir os textos dela. Porque eles são inteiramente baseados em jogos de linguagem, trocadilhos, atos (propositalmente) falhos… além do mais, há toda uma dimensão do alemão austríaco, central para o modo dela criar esses jogos, que grande parte dos tradutores de alemão pode não perceber (e eu me incluo aí!). Mas o Derrida também já falou que só se pode traduzir – no sentido forte do termo, para além de uma transposição mecânica que hoje em dia até o Google consegue fazer – um texto intraduzível; poderíamos dizer que é o intraduzível que vale a pena traduzir. Mas estou cada vez mais convencido de que, para isso dar certo, é preciso ter coragem de tomar liberdades para com o texto de partida (mas novamente é a própria autora que sugere isso!). Isto é, criar os próprios jogos de linguagem, valer-se das próprias referências. É preciso escrever em português, e português brasileiro, no nosso caso, assumindo todo o sabor e toda a história da nossa língua.

C.A.: Como foi a experiência de encenar as obras dela para o público? Como foi a recepção das obras pelo público? 

A.K.: O Heiner Müller, outro dramaturgo de língua alemã muito importante, e já mais conhecido por aqui, falou sobre as peças da Jelinek: o que interessa nelas é a resistência que elas oferecem ao teatro tal como ele é hoje. Assim como esses textos são impossíveis de traduzir, eles são impossíveis de encenar, num certo sentido. E do mesmo jeito, é isso que faz valer a pena encená-los: enfrentar a absoluta dificuldade que eles representam, descobrir dentro da dramaturgia da autora uma dramaturgia nova, específica para cada encenação. Apropriar-se como ator do texto, não permitir que ele se torne um peso alienígena que impede o ator de fazer o seu trabalho. A não ser que esse peso alienígena se torne um elemento da encenação! O que geralmente acontece também! Sobre recepção é sempre muito difícil falar. Eu mencionaria apenas o caso da nossa encenação de Dramas de princesas, de 2016: muitos espectadores achavam aquilo difícil, muito distante, pouco relacionável. Mas todas as espectadoras com quem falamos diziam que era absolutamente relacionável, próximo, reconhecível! Não que elas entendessem 100% do texto, acho que isso é impossível com Jelinek, não é um texto comunicativo, não é transparente e nem pretende ser. Mas nem por isso era algo alheio.

O que interessa nas peças de Jelinek é a resistência que elas oferecem ao teatro tal como ele é hoje.

Artur Kon

C.A.: Por que ler, traduzir, encenar, assistir Jelinek hoje no Brasil?

A.K.: Eis a grande questão, e eu acho que não existe uma resposta pronta e teórica para ela. Essa resposta tem que ser construída pelas leituras, traduções, encenações. Cada uma tem que ser uma tentativa de responder essa pergunta, uma proposta de pensar as semelhanças, diferenças e possíveis pontes. Mas para não fugir totalmente da questão, também poderia dizer que a obra de Elfriede Jelinek, no enfrentamento com questões centrais do presente (a opressão das mulheres, o fascismo crescente, o capitalismo aparentemente irresistível, a derrota histórica da esquerda revolucionária), é capaz de expandir nosso vocabulário dramatúrgico… Ora, “expandir o vocabulário dramatúrgico” pode parecer algo muito pequeno, e talvez seja menor do que gostaríamos – a autora é cética em relação ao poder transformador da arte. Mas repensar o que significa uma fala (para além de um diálogo com regras previamente estabelecidas), um papel (para além de personagens individuais com predicados fixos) ou um ato (sem a ilusão da ação autônoma de indivíduos) de modo algum é sem consequências.

Artur Kon ministra, de junho a setembro de 2021, o curso Não quero teatro! em parceria com o Centro Austríaco, sobre a obra de Elfriede Jelinek e Peter Handke. Clique aqui para fazer a inscrição.

Ideias para a sala de aula com os melhores dicionários alemães austríacos gratuitos!

por Cristina Rettenberger

Você está procurando ideias para lidar com a diversidade da língua alemã e experimentar o seu pluricentrismo? Seguem dicas de sites que mostram alguns exemplos de como se fala na Áustria e que podem ser usados na sala de aula. 

Quem encontra primeiro as expressões mais engraçadas e criativas no alemão austríaco? Deixe sua criatividade livre na sala de aula com estes cinco dicionários divertidos:

1 – O dicionário Johannes Kepler Universität Linz

É especializado na região da Alta Áustria e explica os significados em alemão e inglês. O rosto feliz, neutro ou triste diz a você se o significado é positivo, neutro ou negativo. Super fácil de entender! Se houver um símbolo vermelho à esquerda, significa: evite usar a palavra, por favor!

2 – A plataforma online LiÖ (Lexikalisches Informationssystem Österreich)

Há mais de cem anos, uma iniciativa de vários centros de pesquisa começou a coletar as variedades dialetais de diferentes regiões (!!!). Agora, finalmente, esta coleção está acessível, embora ainda esteja em processo de conclusão.

3 – O “dicionário do povo” (Volkswörterbuch)

Photo by Matthieu Joannon on Unsplash

É um dicionário feito pelo povo e para o povo! Nesta página, os usuários podem adicionar palavras e seus significados em outras postagens, ou adicionar comentários às definições.

4 – O dicionário “Ostarrichi

Afirma ser um dos dicionários online mais completos e funciona da mesma forma que o “Volkswörterbuch“. Com a ferramenta de busca de uma palavra simples como “hallo“, é possível encontrar inúmeras expressões. Vale a pena dar uma olhada!

5 – O dicionário “Österreichisch

Aqui está a coleção de palavras do “Volkswörterbuch” e ostarrichi.org. em um só lugar! Eles já têm mais de 30.000 palavras e 35.000 comentários!

18 de março marca 80 anos do nascimento de Wolfgang Bauer

O “Bukowski da Estíria” chega ao Brasil: Os microdramas de Wolfgang Bauer em tradução

Também chamado de “Magic Wolfi”, “o Bukowski da Estíria” ou “terror da burguesia”, Wolfgang Bauer foi um dos maiores dramaturgos austríacos da segunda metade do século XX. Elfriede Jelinek o chamou de “maior dramaturgo” da Áustria e destaca, sobretudo, seus microdramas. Peter Handke refere-se a Bauer como único “gênio” entre os jovens literatos austríacos dos anos 1960. Em 18 de março, Bauer faria 80 anos se não tivesse falecido em 2005, em parte em consequência de seu estilo de vida exagerado. No Brasil, o autor continua praticamente desconhecido e pouco traduzido, embora parte de um dos seus romances, Fieberkopf [Cabeça febril] seja ambientado no Brasil. Além desse romance, Bauer escreveu poemas, dramas, manifestos, críticas, ensaios etc.

Foi sobretudo como dramaturgo que seu potencial provocativo, questionador e inovador se mostrou com força, mas as realizações artísticas de Bauer como letrista, romancista e escritor de longas-metragens também são extremamente bem sucedidas e populares, sempre questionando os limites dos gêneros e suas convenções. 

Wolfgang Bauer na cerimônia de entrega do Großen Österreichischen Staatspreises, em 1995.
Fonte: Wolfgang Bauer: Werk – Leben – Nachlass – Wirkung, por Thomas Antonic.

Famigerado nos anos 1960 até 1990 na Europa, Bauer obteve grande sucesso com seus dramas também nos Estados Unidos, graças a traduções e aos esforços de Martin Esslin, que o inclui na sua lista dos representantes do teatro do absurdo (Esslin, O teatro do absurdo, 2018). Depois de uma fase de pouca presença nos palcos, o autor foi redescoberto e ganhou nova fama em 2015, quando foi encontrado um drama seu até então desaparecido: Der Rüssel [A tromba], peça montada com grande sucesso em 2018 no Wiener Akademietheater. Outra peça, recentemente levado ao palco pelo Volkstheater de Viena, é Magic Afternoon, cujo tema é o vazio existencial da juventude numa cidade europeia do século XX. Sua peça Change é a única que já foi traduzida para o português, publicada em 1978 em forma de caderno pelo Instituto Goethe e disponível hoje apenas em algumas bibliotecas dessa mesma instituição.

Neste momento, estão sendo vertidos para o português os 21 microdramas de Wolfgang Bauer, num projeto de tradução do Centro Austríaco, executado por Ruth Bohunovsky e Hugo Simões. Inspirados no teatro de Eugène Ionesco, Wolfgang Bauer escreveu essas miniaturas dramáticas no início dos anos 1960. São peças para serem lidas ou encenadas com grande criatividade (como, por exemplo, essa montagem no teatro Kabinetttheater de Viena, ou ainda essa montagem musical e dramática inspirada por Bauer, que conta com a apresentação de três dos seus microdramas), pois colocam em questão praticamente todas as convenções do gênero dramático. Seus protagonistas são personagens históricas ou míticas conhecidas, de Martinho Lutero até Lucrécia Bórgia, do faraó Ramsés até Joseph Haydn, dos três mosqueteiros até Richard Wagner, mas o público-leitor certamente não encontra narrativas ou representações cénicas que correspondem a suas expectativas tradicionais.

Para saber mais sobre os objetivos e a recepção dos microdramas de Wolfgang Bauer, veja aqui um artigo de Ruth Bohunovsky, ou esse texto do Der Standard (em alemão) sobre a importância da obra de Bauer hoje. Mas, melhor que falar sobre Wolfgang Bauer e seus textos absurdos, cômicos e, ao mesmo tempo, instigantes, é lê-los. Leia aqui “Ramsés”, um dos microdramas, em uma tradução ainda provisória:

Ramsés

(sem intervalo)

Primeiro quadro:

Nas colinas da Irlanda do Norte. Granizo retumbante. Chuva densa. Baleias voam pelo ar. Ramsés, fantasiado de Napoleão, dá uma palestra frente ao clero irlandês. Não dá para ouvir nada, já que as gaivotas estão gritando muito, por causa das baleias voadoras. 

Ramsés: … (O clero, aos risos, se afasta)

Cai o pano.

Segundo quadro:

Um templo em chamas (incêndio total do templo). O teatro está se enchendo de fumaça. Ramsés encontra-se em algum lugar no meio das chamas, não é possível vê-lo. O teatro está tomado pelo cheiro de roupas queimadas. Estalos. Fumaça. Explosão.

Ramsés: (dos bastidores): Socorro! Socorro!

Cai o pano. 

Terceiro quadro:

O palco está cheio de água. Dentro dela, vários tipos de peixe estão nadando. (Tubarões, carpas, polvos, enguias, eventualmente baleias. Por motivos de simplificação, podem ser usadas as baleias do primeiro quadro.) Ramsés está for da água, proferindo uma de suas palestras populares. Está chovendo. Olhando a partir de baixo, é possível ver as gotas caindo na água. Raramente, um remo bate na água. Não é possível ouvir nada da palestra de Ramsés, devido à grande quantidade de água que está entre ele e o público.

Ramsés: …

Cai o pano.

Quarto quadro:

Cairo. O palco oferece um panorama da cidade, absolutamente preciso em termos geográficos. Ramsés encontra-se em algum lugar bem distante, proferindo sua famosa fala de denúncia (mesmo fazendo muitos inimigos…). Não é possível ouvi-lo. Os gritos das feirantes abafam tudo.

Ramses: …

Cai o pano.

Quinto quadro:

Ramsés está deitado na sua cama, morto apunhalado. Um quarto luxuoso. Entra um lacaio …

Lacaio: Salve, Ramsés!

Cai o pano.

Fim.

 

Peça de Bernhard é exibida por streaming na programação especial do Teatro de Salzburgo

Heldenplatz, última peça de Thomas Bernhard, faz parte da programação online do Teatro de Salzburgo. Criada em 1988 como parte das comemorações do centenário do Burgtheater de Viena e dos cinquenta anos que se passaram desde a “anexação” da Áustria pela Alemanha nazista, a obra mostra que o passado político austríaco continuava presente e encontrava ecos na população do final da década de 80. 

A montagem atual mostra que os temas abordados pela peça (antissemitismo, fanatismo político) ainda precisam ser discutidos e que Bernhard continua um autor cujas obras contribuem para esse objetivo. E não só na Áustria: a peça foi publicada no Brasil em 2020 com o título Praça dos Heróis e tradução de Christine Röhrig pela Editora Temporal. (Clique aqui para ver o trailer da peça).

A programação online do Teatro de Salzburgo se estende até abril deste ano e cada peça custa 9€. As obras são exibidas em alemão. Veja a programação completa aqui.

5 materiais didáticos para trabalhar o alemão austríaco

Você dá aula de alemão? Já pensou em tratar não apenas da Alemanha, mas também dos outros países de língua alemã com seus alunos? Você sabia que o alemão falado na Áustria e na Suíça tem algumas diferenças em relação ao alemão falado na Alemanha? Assim como alguém que estuda português deve saber que há diferenças entre o português de Portugal e o português falado no Brasil, certamente um aprendiz de alemão terá interesse em saber algo sobre as variantes linguísticas e diferenças culturais entre os três países de língua alemã. Para ajudar a abordar esse tema em sala de aula, selecionamos aqui uma série de materiais didáticos que abordam a variação linguística, a história e a cultura da Áustria.

1 – Introdução à variação: o material Einführung in das österreichische Deutsch, Teil 1 e Teil 2 trazem informações importantes e exemplos ilustrativos sobre o alemão austríaco, apresentando a diferenciação entre Standardsprache, Umgangsprache e Dialekt. (Indicados para os níveis B1 e B2, respectivamente).

2 – O Österreich Institut fornece gratuitamente materiais sobre diversos temas artísticos, como arquitetura ou escrita criativa. Além disso, apresentam figuras como Gustav Klimt ou o Castelo Schönnbrum. Os materiais são formulados para diversos níveis.

3 – O Centro Austríaco também elabora materiais didáticos. Já estão disponíveis um material sobre os cafés vienenses (A1) e um sobre a Imperatriz Sisi (A1-B1). 

4 – O site Mein Sprachportal oferece vários materiais digitais, incluindo exercícios com vídeo e áudio. 

5 – O livro didático Menschen, elaborado e publicado pela editora Hueber, conta com um material disponibilizado gratuitamente que aborda o alemão austríaco (materiais para o alemão suíço também estão disponíveis).

90 anos de Thomas Bernhard

Hoje, Thomas Bernhard faria 90 anos. Em homenagem a esse grande escritor original, provocativo, perturbador e, ao mesmo tempo, um clássico da literatura em língua alemã, republicamos um texto de Cristóvão Tezza sobre o autor austríaco, de cuja obra é fã declarado. As seguintes linhas foram publicadas originalmente na orelha do livro “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard” (Konzett, 2014, editora da UFPR). Segue ainda uma lista de todas as publicações de obras bernhardianas no Brasil até 2020.

Thomas.Bernhard.jpg: Thomas Bernhard Nachlaßverwaltungderivative work: Hic et nunc, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Sobre a literatura de Thomas Bernhard
por Cristovão Tezza

Para quem acredita que a infelicidade produz boa literatura, o caso Thomas Bernhard é exemplar. Filho de mãe solteira na Áustria conservadora dos anos 1930, prestes a ser invadida por Hitler, estudou num internato nazista de Salzburg, sobrevivendo aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Quando o retrato do Führer foi substituído pelo do Papa, o jovem Thomas não sentiu “nenhuma mudança visível”. Aos 18 anos, passou mais de um ano internado, sofrendo de uma doença pulmonar que o acompanharia como um fantasma até sua morte, em 1989. Depois de escrever alguns poemas juvenis que ainda reverberavam uma imagem idílica da antiga Áustria, Thomas Bernhard explodiu nos anos 1960 com o livro “Geada” (ainda sem tradução no Brasil), seguido de uma sequência impactante de romances e peças. Sua ficção revelava um escritor agressivo, espetacular e performático, alguém que se tornaria simultaneamente o mais odiado e mais amado artista austríaco de seu tempo.

O eixo principal de suas provocações de gênio, na literatura e na dramaturgia, está na lembrança obsessiva e obstinada de que a Áustria havia abraçado prazerosamente o nazismo, durante os sete anos em que esteve sob dominação alemã, numa cooptação que o país esqueceria em seguida, criando uma fantasia moral de seu próprio passado. Contra esta amnésia coletiva, Bernhard dedicou quase que cada uma das linhas que escreveu. Mas, o que poderia ter sido apenas uma arte panfletária politicamente localizada, nas suas mãos se tornou uma voz literária incontornável, de um pessimismo transcendente e transnacional.

Sua linguagem é, frase a frase, uma constatação instantânea, repetitiva e permanente de um desastre avassalador e irredimível, numa espécie terrível de profecia circular que se autorrealiza. Ao mesmo tempo, seu texto é irresistível, desafiando os limites do cômico e do trágico sem jamais se entregar ao conforto do relativismo pós-moderno.

Em: Konzett, Matthias (org.). O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard. Tradução por Ruth Bohunovsky. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

Publicações de Bernhard no Brasil

Prosa:
Árvores Abatidas (Holzfällen) (1991), tradução de Lya Luft
O sobrinho de Wittgenstein (Wittgensteins Neffe) (1992), tradução de Ana Maria Scherer
O náufrago (Der Untergeher) (1996, segunda edição 2006), tradução de Sergio Tellaroli
Perturbação (Verstörung) (1999), tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo
Extinção (Auslöschung) (2000), tradução de José M. M. de Macedo
O imitador de vozes (Der Stimmenimitator) (2009), tradução de Sergio Tellaroli
Meus Prêmios (Meine Preise) (2011), tradução de Sergio Tellaroli
Origem (Autobiographische Bände) (2006), tradução de Sergio Tellaroli

Teatro (peças publicadas):
O fazedor de teatro (Der Theatermacher) (2017), tradução de Samir Signeu
O presidente (Der Präsident) (2020), tradução de Gisele Eberspächer, Paulo R. Pacheco Jr.,
Ruth Bohunovsky
Praça dos Heróis (Heldenplatz) (2020), tradução de Christine Röhrig