Ideias para a sala de aula com os melhores dicionários alemães austríacos gratuitos!

por Cristina Rettenberger

Você está procurando ideias para lidar com a diversidade da língua alemã e experimentar o seu pluricentrismo? Seguem dicas de sites que mostram alguns exemplos de como se fala na Áustria e que podem ser usados na sala de aula. 

Quem encontra primeiro as expressões mais engraçadas e criativas no alemão austríaco? Deixe sua criatividade livre na sala de aula com estes cinco dicionários divertidos:

1 – O dicionário Johannes Kepler Universität Linz

É especializado na região da Alta Áustria e explica os significados em alemão e inglês. O rosto feliz, neutro ou triste diz a você se o significado é positivo, neutro ou negativo. Super fácil de entender! Se houver um símbolo vermelho à esquerda, significa: evite usar a palavra, por favor!

2 – A plataforma online LiÖ (Lexikalisches Informationssystem Österreich)

Há mais de cem anos, uma iniciativa de vários centros de pesquisa começou a coletar as variedades dialetais de diferentes regiões (!!!). Agora, finalmente, esta coleção está acessível, embora ainda esteja em processo de conclusão.

3 – O “dicionário do povo” (Volkswörterbuch)

Photo by Matthieu Joannon on Unsplash

É um dicionário feito pelo povo e para o povo! Nesta página, os usuários podem adicionar palavras e seus significados em outras postagens, ou adicionar comentários às definições.

4 – O dicionário “Ostarrichi

Afirma ser um dos dicionários online mais completos e funciona da mesma forma que o “Volkswörterbuch“. Com a ferramenta de busca de uma palavra simples como “hallo“, é possível encontrar inúmeras expressões. Vale a pena dar uma olhada!

5 – O dicionário “Österreichisch

Aqui está a coleção de palavras do “Volkswörterbuch” e ostarrichi.org. em um só lugar! Eles já têm mais de 30.000 palavras e 35.000 comentários!

18 de março marca 80 anos do nascimento de Wolfgang Bauer

O “Bukowski da Estíria” chega ao Brasil: Os microdramas de Wolfgang Bauer em tradução

Também chamado de “Magic Wolfi”, “o Bukowski da Estíria” ou “terror da burguesia”, Wolfgang Bauer foi um dos maiores dramaturgos austríacos da segunda metade do século XX. Elfriede Jelinek o chamou de “maior dramaturgo” da Áustria e destaca, sobretudo, seus microdramas. Peter Handke refere-se a Bauer como único “gênio” entre os jovens literatos austríacos dos anos 1960. Em 18 de março, Bauer faria 80 anos se não tivesse falecido em 2005, em parte em consequência de seu estilo de vida exagerado. No Brasil, o autor continua praticamente desconhecido e pouco traduzido, embora parte de um dos seus romances, Fieberkopf [Cabeça febril] seja ambientado no Brasil. Além desse romance, Bauer escreveu poemas, dramas, manifestos, críticas, ensaios etc.

Foi sobretudo como dramaturgo que seu potencial provocativo, questionador e inovador se mostrou com força, mas as realizações artísticas de Bauer como letrista, romancista e escritor de longas-metragens também são extremamente bem sucedidas e populares, sempre questionando os limites dos gêneros e suas convenções. 

Wolfgang Bauer na cerimônia de entrega do Großen Österreichischen Staatspreises, em 1995.
Fonte: Wolfgang Bauer: Werk – Leben – Nachlass – Wirkung, por Thomas Antonic.

Famigerado nos anos 1960 até 1990 na Europa, Bauer obteve grande sucesso com seus dramas também nos Estados Unidos, graças a traduções e aos esforços de Martin Esslin, que o inclui na sua lista dos representantes do teatro do absurdo (Esslin, O teatro do absurdo, 2018). Depois de uma fase de pouca presença nos palcos, o autor foi redescoberto e ganhou nova fama em 2015, quando foi encontrado um drama seu até então desaparecido: Der Rüssel [A tromba], peça montada com grande sucesso em 2018 no Wiener Akademietheater. Outra peça, recentemente levado ao palco pelo Volkstheater de Viena, é Magic Afternoon, cujo tema é o vazio existencial da juventude numa cidade europeia do século XX. Sua peça Change é a única que já foi traduzida para o português, publicada em 1978 em forma de caderno pelo Instituto Goethe e disponível hoje apenas em algumas bibliotecas dessa mesma instituição.

Neste momento, estão sendo vertidos para o português os 21 microdramas de Wolfgang Bauer, num projeto de tradução do Centro Austríaco, executado por Ruth Bohunovsky e Hugo Simões. Inspirados no teatro de Eugène Ionesco, Wolfgang Bauer escreveu essas miniaturas dramáticas no início dos anos 1960. São peças para serem lidas ou encenadas com grande criatividade (como, por exemplo, essa montagem no teatro Kabinetttheater de Viena, ou ainda essa montagem musical e dramática inspirada por Bauer, que conta com a apresentação de três dos seus microdramas), pois colocam em questão praticamente todas as convenções do gênero dramático. Seus protagonistas são personagens históricas ou míticas conhecidas, de Martinho Lutero até Lucrécia Bórgia, do faraó Ramsés até Joseph Haydn, dos três mosqueteiros até Richard Wagner, mas o público-leitor certamente não encontra narrativas ou representações cénicas que correspondem a suas expectativas tradicionais.

Para saber mais sobre os objetivos e a recepção dos microdramas de Wolfgang Bauer, veja aqui um artigo de Ruth Bohunovsky, ou esse texto do Der Standard (em alemão) sobre a importância da obra de Bauer hoje. Mas, melhor que falar sobre Wolfgang Bauer e seus textos absurdos, cômicos e, ao mesmo tempo, instigantes, é lê-los. Leia aqui “Ramsés”, um dos microdramas, em uma tradução ainda provisória:

Ramsés

(sem intervalo)

Primeiro quadro:

Nas colinas da Irlanda do Norte. Granizo retumbante. Chuva densa. Baleias voam pelo ar. Ramsés, fantasiado de Napoleão, dá uma palestra frente ao clero irlandês. Não dá para ouvir nada, já que as gaivotas estão gritando muito, por causa das baleias voadoras. 

Ramsés: … (O clero, aos risos, se afasta)

Cai o pano.

Segundo quadro:

Um templo em chamas (incêndio total do templo). O teatro está se enchendo de fumaça. Ramsés encontra-se em algum lugar no meio das chamas, não é possível vê-lo. O teatro está tomado pelo cheiro de roupas queimadas. Estalos. Fumaça. Explosão.

Ramsés: (dos bastidores): Socorro! Socorro!

Cai o pano. 

Terceiro quadro:

O palco está cheio de água. Dentro dela, vários tipos de peixe estão nadando. (Tubarões, carpas, polvos, enguias, eventualmente baleias. Por motivos de simplificação, podem ser usadas as baleias do primeiro quadro.) Ramsés está for da água, proferindo uma de suas palestras populares. Está chovendo. Olhando a partir de baixo, é possível ver as gotas caindo na água. Raramente, um remo bate na água. Não é possível ouvir nada da palestra de Ramsés, devido à grande quantidade de água que está entre ele e o público.

Ramsés: …

Cai o pano.

Quarto quadro:

Cairo. O palco oferece um panorama da cidade, absolutamente preciso em termos geográficos. Ramsés encontra-se em algum lugar bem distante, proferindo sua famosa fala de denúncia (mesmo fazendo muitos inimigos…). Não é possível ouvi-lo. Os gritos das feirantes abafam tudo.

Ramses: …

Cai o pano.

Quinto quadro:

Ramsés está deitado na sua cama, morto apunhalado. Um quarto luxuoso. Entra um lacaio …

Lacaio: Salve, Ramsés!

Cai o pano.

Fim.

 

Peça de Bernhard é exibida por streaming na programação especial do Teatro de Salzburgo

Heldenplatz, última peça de Thomas Bernhard, faz parte da programação online do Teatro de Salzburgo. Criada em 1988 como parte das comemorações do centenário do Burgtheater de Viena e dos cinquenta anos que se passaram desde a “anexação” da Áustria pela Alemanha nazista, a obra mostra que o passado político austríaco continuava presente e encontrava ecos na população do final da década de 80. 

A montagem atual mostra que os temas abordados pela peça (antissemitismo, fanatismo político) ainda precisam ser discutidos e que Bernhard continua um autor cujas obras contribuem para esse objetivo. E não só na Áustria: a peça foi publicada no Brasil em 2020 com o título Praça dos Heróis e tradução de Christine Röhrig pela Editora Temporal. (Clique aqui para ver o trailer da peça).

A programação online do Teatro de Salzburgo se estende até abril deste ano e cada peça custa 9€. As obras são exibidas em alemão. Veja a programação completa aqui.

5 materiais didáticos para trabalhar o alemão austríaco

Você dá aula de alemão? Já pensou em tratar não apenas da Alemanha, mas também dos outros países de língua alemã com seus alunos? Você sabia que o alemão falado na Áustria e na Suíça tem algumas diferenças em relação ao alemão falado na Alemanha? Assim como alguém que estuda português deve saber que há diferenças entre o português de Portugal e o português falado no Brasil, certamente um aprendiz de alemão terá interesse em saber algo sobre as variantes linguísticas e diferenças culturais entre os três países de língua alemã. Para ajudar a abordar esse tema em sala de aula, selecionamos aqui uma série de materiais didáticos que abordam a variação linguística, a história e a cultura da Áustria.

1 – Introdução à variação: o material Einführung in das österreichische Deutsch, Teil 1 e Teil 2 trazem informações importantes e exemplos ilustrativos sobre o alemão austríaco, apresentando a diferenciação entre Standardsprache, Umgangsprache e Dialekt. (Indicados para os níveis B1 e B2, respectivamente).

2 – O Österreich Institut fornece gratuitamente materiais sobre diversos temas artísticos, como arquitetura ou escrita criativa. Além disso, apresentam figuras como Gustav Klimt ou o Castelo Schönnbrum. Os materiais são formulados para diversos níveis.

3 – O Centro Austríaco também elabora materiais didáticos. Já estão disponíveis um material sobre os cafés vienenses (A1) e um sobre a Imperatriz Sisi (A1-B1). 

4 – O site Mein Sprachportal oferece vários materiais digitais, incluindo exercícios com vídeo e áudio. 

5 – O livro didático Menschen, elaborado e publicado pela editora Hueber, conta com um material disponibilizado gratuitamente que aborda o alemão austríaco (materiais para o alemão suíço também estão disponíveis).

90 anos de Thomas Bernhard

Hoje, Thomas Bernhard faria 90 anos. Em homenagem a esse grande escritor original, provocativo, perturbador e, ao mesmo tempo, um clássico da literatura em língua alemã, republicamos um texto de Cristóvão Tezza sobre o autor austríaco, de cuja obra é fã declarado. As seguintes linhas foram publicadas originalmente na orelha do livro “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard” (Konzett, 2014, editora da UFPR). Segue ainda uma lista de todas as publicações de obras bernhardianas no Brasil até 2020.

Thomas.Bernhard.jpg: Thomas Bernhard Nachlaßverwaltungderivative work: Hic et nunc, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Sobre a literatura de Thomas Bernhard
por Cristovão Tezza

Para quem acredita que a infelicidade produz boa literatura, o caso Thomas Bernhard é exemplar. Filho de mãe solteira na Áustria conservadora dos anos 1930, prestes a ser invadida por Hitler, estudou num internato nazista de Salzburg, sobrevivendo aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Quando o retrato do Führer foi substituído pelo do Papa, o jovem Thomas não sentiu “nenhuma mudança visível”. Aos 18 anos, passou mais de um ano internado, sofrendo de uma doença pulmonar que o acompanharia como um fantasma até sua morte, em 1989. Depois de escrever alguns poemas juvenis que ainda reverberavam uma imagem idílica da antiga Áustria, Thomas Bernhard explodiu nos anos 1960 com o livro “Geada” (ainda sem tradução no Brasil), seguido de uma sequência impactante de romances e peças. Sua ficção revelava um escritor agressivo, espetacular e performático, alguém que se tornaria simultaneamente o mais odiado e mais amado artista austríaco de seu tempo.

O eixo principal de suas provocações de gênio, na literatura e na dramaturgia, está na lembrança obsessiva e obstinada de que a Áustria havia abraçado prazerosamente o nazismo, durante os sete anos em que esteve sob dominação alemã, numa cooptação que o país esqueceria em seguida, criando uma fantasia moral de seu próprio passado. Contra esta amnésia coletiva, Bernhard dedicou quase que cada uma das linhas que escreveu. Mas, o que poderia ter sido apenas uma arte panfletária politicamente localizada, nas suas mãos se tornou uma voz literária incontornável, de um pessimismo transcendente e transnacional.

Sua linguagem é, frase a frase, uma constatação instantânea, repetitiva e permanente de um desastre avassalador e irredimível, numa espécie terrível de profecia circular que se autorrealiza. Ao mesmo tempo, seu texto é irresistível, desafiando os limites do cômico e do trágico sem jamais se entregar ao conforto do relativismo pós-moderno.

Em: Konzett, Matthias (org.). O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard. Tradução por Ruth Bohunovsky. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

Publicações de Bernhard no Brasil

Prosa:
Árvores Abatidas (Holzfällen) (1991), tradução de Lya Luft
O sobrinho de Wittgenstein (Wittgensteins Neffe) (1992), tradução de Ana Maria Scherer
O náufrago (Der Untergeher) (1996, segunda edição 2006), tradução de Sergio Tellaroli
Perturbação (Verstörung) (1999), tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo
Extinção (Auslöschung) (2000), tradução de José M. M. de Macedo
O imitador de vozes (Der Stimmenimitator) (2009), tradução de Sergio Tellaroli
Meus Prêmios (Meine Preise) (2011), tradução de Sergio Tellaroli
Origem (Autobiographische Bände) (2006), tradução de Sergio Tellaroli

Teatro (peças publicadas):
O fazedor de teatro (Der Theatermacher) (2017), tradução de Samir Signeu
O presidente (Der Präsident) (2020), tradução de Gisele Eberspächer, Paulo R. Pacheco Jr.,
Ruth Bohunovsky
Praça dos Heróis (Heldenplatz) (2020), tradução de Christine Röhrig

Escola de idiomas promove aulas sobre cultura austríaca

A escola de língua alemã Baukurs promove aulas abertas sobre cultura austríaca entre os dias 08 e 12 de fevereiro de 2021. Os cinco encontros são divididos por nível de conhecimento de língua alemã e abordam temas como a cidade de Viena, literatura e arte austríacas e ainda bolsas e oportunidades de estudo no país. Veja a programação completa e as informações de inscrição abaixo:

Obra redescoberta: Friderike Maria Zweig

Talvez você já tenha ouvido aquele dizer antigo de que atrás de todo grande homem existe uma mulher. Bom, atrás do escritor austríaco Stefan Zweig existia uma grande mulher, com história e carreira encobertas pela fama do marido. Mas felizmente a vida e os textos de Friderike Maria Zweig (1882-1971), primeira esposa do autor, estão sendo redescobertos em 2021. 

Uma das primeiras mulheres a serem aceitas na Universidade de Viena, deixou uma obra composta por contos, romances, trabalhos biográficos e traduções do francês para o alemão, além de ter sido professora, ter ajudado Zweig com sua obra de inúmeras maneiras e ter tido um papel importante na disseminação da cultura austríaca.

Antes de seu casamento com Zweig, Friderike foi casada com Felix von Winternitz, com quem teve duas filhas. Ela conheceu Zweig em 1912 e, depois de se divorciar do primeiro marido, começou a morar com o autor em um lindo casarão em Salzburg (Paschinger Schlössl), a partir de 1919. Friderike deixa de se dedicar ao seu próprio trabalho e se torna a “guardiã da tranquilidade” do marido – garantindo assim um contexto em que ele conseguisse elaborar sua grande obra. Em 1937, se divorcia de Zweig, que se casa com sua secretária Lotte (com quem se muda para o Brasil e se suicida em 1942). 

No ano que marca o aniversário de 50 anos da morte de Friderike, o Stefan Zweig Zentrum Salzburg publicou um caderno com uma apresentação sobre a autora, como um “primeiro passo” para a redescoberta de sua obra. Os artigos do material apresentam os diários escritos pela autora durante a guerra, assim como seu trabalho em prol da paz e da liberdade. Além disso, durante o ano de 2021, acontecem vários eventos sobre Friderike, organizados pelo Stefan Zweig Zentrum em Salzburgo (sob o título “Friderike ‘Zweig’ e a intelectualidade feminina no começo do século XX”), assim como a edição da correspondência entre Stefan Zweig e Friderike e uma exposição sobre a autora.  

Evento: A Tradução Teatral em Questão

Começa, no dia 05 de fevereiro, o I Simpósio de Tradução Teatral, uma parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal do Paraná.

O tema é “A tradução teatral em questão: a diversidade na teoria, nos métodos e na prática”. O evento conta com um encontro semanal, sempre sextas-feiras às 14h30, até o dia 12 de março. A programação, apresentada na íntegra abaixo, conta com várias apresentações sobre traduções de escritores e escritoras austríacos.

O evento será transmitido online no canal da Pós-Graduação em Letras da UFPR.

KALLIOPE: Trude Fleischmann

Saiba mais sobre a fotógrafa vienense que, fugindo do nazismo, se estabeleceu em Nova York, onde fez retratos de grandes pessoas do seu tempo. Veja o documentário na íntegra aqui.

A exibição dos documentários é parte de uma parceria entre o Centro Austríaco e a Embaixada da Áustria.

Clique aqui para conhecer a exposição Kalliope – Mulheres na Sociedade, na Cultura e na Ciência. A seguir, veja a programação completa de exibição de documentários:

Autores austríacos publicados no Brasil para conhecer em 2021

Não é necessário comentar que 2020 foi um ano desafiador. Por isso, indicamos três autores austríacos que, apesar de terem suas obras publicadas há algum tempo, podem nos ajudar a pensar os tempos de hoje. 

O mundo insone, Stefan Zweig

(Zweig, Stefan. O mundo insone e outros ensaios. Trad. Kristina Michahelles. Rio de Janeiro: Zahar, 2013). 

Nesta coletânea de ensaios, Stefan Zweig (1881-1942) passa por muitos temas: da questão judaica à arte, de Montaigne a Freud, passando por Hesse e Roth. Mas é justamente no ensaio que dá título ao livro, O mundo insone, que lemos o sentimento de Zweig perante às tragédias do mundo – nesse caso, o começo da Primeira Guerra Mundial. 

“Há menos sono no mundo agora, as noites são mais longas e mais longos os dias. Em cada país da infinita Europa, em cada cidade, cada ruela, cada casa, cada aposento, a respiração tranquila do sono tornou-se curta e febril, e o tempo ardente abrasa as noites e confunde os sentidos, tal qual uma noite de verão abafada e sufocante”, relata Zweig.

O conflito cresce e o sono desaparece. Com a experiência de alguém que passou por uma quantidade considerável de conflitos para uma vida, Zweig narra as mudanças da sua idealizada Viena enquanto vê seus ideais ruírem. O ensaio descreve um período de ansiedade e incertezas crescentes e se tornando cada vez mais comuns na vida de todos.

O tempo adiado e outros poemas, Ingeborg Bachmann

(Bachmann, Ingeborg. O tempo adiado e outros poemas. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Todavia, 2020). 

Ingeborg Bachmann (1926-1973) fez parte da geração de escritores que produziram logo depois da Segunda Guerra Mundial, e pensaram uma linguagem e uma literatura capazes de descrever e lidar com os acontecimentos e sentimentos dos anos anteriores. 

Nesse contexto, Bachmann dedica muitos dos seus poemas a um espaço interno, dando atenção ao sentimento do indivíduo diante do mundo, trazendo poesia e lirismo a tempos de pouca esperança. 

Mas para onde iremos
don’t worry, don’t worry
quando escurecer e esfriar

Praça dos heróis, Thomas Bernhard

(Bernhard, Thomas. Praça dos Heróis. Trad. Christine Röhrig. São Paulo: Temporal, 2020). 

Thomas Bernhard (1931-1989) é uma das grandes vozes críticas de seu tempo. Nessa peça, que se passa em um 1989 que lembra muito 1938, ano da anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, o autor reflete sobre um passado que não se encerra e não se digere, com ideias voltando ciclicamente para o espaço público e encontrando eco em uma nova geração. 

Eu não posso deixar o apartamento
só porque você ouve essa gritaria da Praça dos Heróis
ele sempre repetia
significaria que pela segunda vez esse Hitler
me expulsou do meu apartamento