Evento: A Tradução Teatral em Questão

Começa, no dia 05 de fevereiro, o I Simpósio de Tradução Teatral, uma parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal do Paraná.

O tema é “A tradução teatral em questão: a diversidade na teoria, nos métodos e na prática”. O evento conta com um encontro semanal, sempre sextas-feiras às 14h30, até o dia 12 de março. A programação, apresentada na íntegra abaixo, conta com várias apresentações sobre traduções de escritores e escritoras austríacos.

O evento será transmitido online no canal da Pós-Graduação em Letras da UFPR.

Convocatória de tradução para o alemão de contos brasileiros

A Embaixada do Brasil na Áustria e a Universidade de Viena estão recebendo projetos de tradução, para o alemão, de contos brasileiros publicados a partir de 1822, por ocasião da publicação de uma antologia bilíngue comemorativa do bicentenário da independência.  

Projetos devem ser enviados às organizadoras do projeto, Alice Leal (alice.leal@univie.ac.at) e Carolina Borges (carolina.borges@univie.ac.at). Dúvidas também podem ser enviadas a esses dois endereços.

O prazo para o envio de projetos é 14 de dezembro de 2020. O texto completo da convocatória encontra-se no anexo

Ernst Herbeck: poeta que nasce no Gugging

por Cristiane Bachmann

Manhã

No outono lá se alinha o
vento das fadas
enquanto na neve as
crinas sacodem.
Melros cantam forte
ao vento e comem.


(Ernst Herbeck. Tradução: Cristiane Bachmann)

Estes versos, os primeiros compostos por Ernst Herbeck, figuravam ao lado de outros 82 poemas que marcaram sua estreia literária, em 1966. De imediato, Herbeck causou forte impressão na cena intelectual de língua alemã, chamando a atenção de escritores como Elfriede Mayröcker, Ernst Jandl, Gerhard Roth, Elfriede Jelinek e W. G. Sebald. No entanto, esses textos iniciais não compunham uma antologia poética, mas sim um estudo na área médica: o livro Schizophrenie und Sprache (“Esquizofrenia e linguagem”), do psiquiatra, psicólogo e antropólogo Leo Navratil.

Ernst Herbeck

Tão impressionante quanto sua poesia foi sua trajetória de vida. Desde a infância, Herbeck (Stockerau, 1920–Gugging 1991) esteve familiarizado com o ambiente hospitalar. Por ter nascido com um caso grave de fissura labiopalatina, ele precisou passar por diversas intervenções cirúrgicas, que nunca chegaram a resolver sua dificuldade de articular a fala.

Na juventude, a catástrofe da Segunda Guerra Mundial impactaria sua vida de modo definitivo. Recrutado pelo exército nazista alemão, Herbeck adoeceu psiquicamente. Ao fim do conflito, vagando desorientado pelos arredores de Viena, ele foi detido pela polícia e depois transferido para o hospital psiquiátrico de Maria Gugging, onde permaneceu internado até o fim da sua vida, sob diagnóstico de esquizofrenia.

Foi ali que Herbeck se tornou poeta, motivado por Leo Navratil (que desenvolveu um método de tratamento envolvendo o estímulo da criatividade de seus pacientes). Sua produção foi intensa, tendo-nos deixado um espólio literário de cerca de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, hoje conservados na Biblioteca Nacional da Áustria. Parte de sua obra foi editada e publicada em várias antologias. O escritor não só teve boa recepção na Áustria, onde mais de 10 mil exemplares de seus livros foram vendidos, como também tem sido objeto de interesse para além das fronteiras de seu país de origem, motivando estudos em múltiplos campos de interesse e em diversos países.

Seus poemas, que já receberam traduções para o inglês, o francês, o holandês, o sueco, o húngaro e o japonês, agora podem ser conhecidos também pelo público brasileiro: em minha dissertação de mestrado, apresento uma análise de sua obra e uma discussão teórica sobre os procedimentos tradutórios que emprego para verter 50 de seus poemas para a língua portuguesa. O trabalho encontra-se disponível aqui: http://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/61889.

Tradução colaborativa

As traduções realizadas no âmbito do Centro Austríaco são colaborativas. Leia aqui um pequeno texto de Daniel Martineschen, tradutor e pesquisador de tradução (UFSC), sobre as características e vantagens desse modelo.

Traduzir é, tradicionalmente, uma atividade solitária. A pessoa que traduz lê o texto dezenas de vezes, consulta dicionários, glossários, anotações, e escreve sozinha – muitas vezes madrugada adentro… Mas será que tem que ser assim mesmo? Muitos dos erros e falhas que existem nas traduções, desde suas primeiras versões até mesmo nas provas finais antes da impressão, ocorrem tanto por distração do tradutor (causada por cansaço, desatenção ou pressa) quanto por falhas de interpretação, ou ainda quando aquela boa sacada, aquela boa solução não vem à mente. Aí, nas fases de cotejo, preparação e revisão muitas vezes é necessário muito trabalho (e retrabalho!) para resolver essas falhas, que muitas vezes são banais.

Quando mais pessoas traduzem juntas, acrescenta-se mais “olhos” e “cérebros” contemplando esse trabalho, e algumas características positivas se sobressaem. O tempo é muitas vezes reduzido, pois é possível dividir o texto entre os membros da equipe e assim paralelizar o trabalho de tradução. Além disso, a revisão (mútua) de trechos menores permite identificar problemas textuais já no início. A troca de ideias (ou “brainstorming”) que acontece nas reuniões da equipe é terreno fértil para soluções criativas, reorganização do ritmo de trabalho e aumento da coesão da equipe. Uma desvantagem da tradução em grupo é que em geral os membros devem ter um grau mínimo de prática em tradução, caso contrário o ganho temporal na paralelização do trabalho não é significativo e não justifica o esforço de coordenar um grupo.
As duas modalidades descritas acima pressupõem uma execução alternada das etapas do trabalho, ou seja, um membro precisa terminar sua parte para que o outro a revise, e assim por diante. Mas quando duas ou mais pessoas trabalham ao mesmo tempo numa tradução, o trabalho acontece de maneira muito diferente – e interessante! No trabalho de tradução pareada – em que um membro digita e outro acompanha/revisa em tempo real -, o texto traduzido, já no momento da sua escrita, passa pelo crivo simultâneo de dois cérebros, dois pares de olhos, duas experiências tradutórias, e é mais fácil eliminar erros de digitação, distração e mesmo de compreensão já na raiz. Apesar de parecer contra-intuitivo, o tempototal também é reduzido com relação ao trabalho individual, pois o texto já estará num estado mais próximo do final, sem falhas e problemas mais banais. A responsabilidade por e a autoria da tradução nessa modalidade são compartilhadas.

Se o grupo que traduz tem três ou mais integrantes, a atividade já se torna mais complexa pela necessidade maior de coordenação, mas também produz um texto interessante. Neste caso, o brainstorming se potencializa se cada integrante faz uma tradução prévia do mesmo texto, e no encontro do grupo todos criam uma solução mista, que também deve ser digitada por apenas um integrante – mas lida por todos. Uma videoconferência é uma forma bastante eficaz de realizar essa modalidade de tradução colaborativa – além disso, se gravada, essa sessão pode ser utilizada como material didático para formação de tradutores.


Há ainda mais formas de tradução colaborativa, como as realizadas no âmbito da Wikipédia, por meio de ferramentas CAT (Computer-Aided Translation) que permitem compartilhamento de glossários e memórias de tradução, entre outras. Aqui delineamos algumas dessas formas, e no próximo texto traremos exemplos de caso de aplicação de algumas modalidades, como a tradução pareada e a tradução em grupo simultâneo, com seus resultados bons – e seus problemas também.

Xenofobia e barbárie: Uma proposta de tradução para a trilogia “O Velo do Ouro” de Franz Grillparzer

por Everton Mitherhofer Bernardes

“Franz Grillparzer deveria ser amado, mas não venerado”, é o que Helmut Gollner diz de uma das figuras mais curiosas da historia da dramaturgia austríaca. Mal humorado, pessimista, misantropo e de uma sensibilidade singular. É isso que eu vejo quando treleio suas peças. Dizer que ele foi o “Goethe austríaco”, como costuma-se fazer, é muito pouco. Assim como para Thomas Bernhard, os parâmetros que temos para os autores alemães não podem ser aplicados para Grillparzer. Sua relação com a Áustria é completamente ambígua, e ao mesmo tempo em que escrevia em seus diários “o que quero é fugir desse país de miséria, despotismo e, junto a isso, estúpido marasmo”, elogiou os Habsburgos em algumas peças e escreveu um poema em homenagem ao marechal Radetzky.

Minha pesquisa toca apenas tangencialmente essa ambiguidade, mas vale mencioná-la pela astúcia de Grillparzer para burlar a forte censura imperial. Ainda jovem, recorreu ao mito de Medeia e os Argonautas para escrever uma trilogia, O Velo de Ouro [Das goldene Vlies]. Aqui, os gregos, representados especialmente pelo herói Jasão, usam um recurso formal muito importante: o pentâmetro iâmbico, o verso mais tradicional nos palcos da “alta” dramaturgia de língua alemã. Ao mesmo tempo, Grillparzer dá aos colcos, povo representado principalmente pela princesa Medeia, um verso quebrado e sem padrão rítmico. Dessa forma, os gregos falam de forma elevada, causando uma sensação de familiaridade e tradição no público, enquanto a fala dos colcos é tida como bárbara, rude, tal como os gregos veem esse povo.

E como isso teria a ver com a relação entre Grillparzer e a Áustria? Durante o império, o governo austríaco oprimiu violentamente culturas periféricas dentro de seu território. Ao associar os gregos com a suposta alta cultura de língua alemã, temos a figura de um povo opressor – e os gregos de fato o são com os colcos, em especial com Medeia – que destrói um povo oprimido, tido como bárbaro por ter tradições, ritos e língua diferentes. Em O Velo de Ouro, Grillparzer deposita suas visões sobre as práticas imperialistas, ainda que sem dirigi-las diretamente ao governo austríaco do início do século XIX.

Em minha monografia, elaborei um projeto de tradução que levasse em consideração os aspectos formais da trilogia, tentando reproduzir os efeitos de ritmo e versificação com base nos padrões (e falta deles) na literatura e dramaturgia de língua portuguesa. Na obra, a forma da fala é essencial. Uma vez que Medeia deixa sua terra natal para viver entre os gregos com Jasão, a princesa, agora vista como uma bruxa bárbara, passa a emular o pentâmetro iâmbico para ser aceita. Saber falar como eles seria a princípio uma tentativa de aquisição de status, mas no final da última peça, que leva seu nome, se torna uma arma de resistência. A monografia traz a tradução de quase 700 (de 2375) versos da trilogia, além de um apanhado teórico sobre a tradução de metro na dramaturgia.

O trabalho está disponível aqui.

“O Presidente” de Thomas Bernhard em tradução brasileira

Para marcar o lançamento da tradução da peça teatral “O Presidente”, do autor austríaco Thomas Bernhard, os tradutores Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco Junior participaram de um Encontro Virtual com Ruth Bohunovsky, supervisora da tradução, e Walter Lima Torres, coordenador da coleção Dramas e Poéticas, da Editora UFPR.

O livro está disponível na Editora UFPR.