A atualidade da obra de Ingeborg Bachmann discutida numa conferência internacional

Patricia Marie Jasiocha, mestranda do curso de Letras da UFPR

Entre os dia 17 e 19 de junho de 2026 na Literaturhaus Wien, foi realizado o congresso internacional Sagbares und Unsagbares — Werk und Wirkung Ingeborg Bachmanns aus gegenwärtigen Perspektiven, em comemoração ao centenário de nascimento de Ingeborg Bachmann.

O encontro reuniu pesquisadores de diferentes países e áreas disciplinares para discutir aspectos da prosa, da poesia, da correspondência e da recepção internacional da autora austríaca. Ao longo dos três dias, abordagens feministas, estudos de gênero, questões de tradução, história literária e poetologia coexistiram em diálogo.

O local do encontro teve um valor simbólico especial. A Literaturhaus ocupa atualmente o edifício da emissora de rádio em que Bachmann trabalhou no início de sua trajetória profissional, a Rot-Weiß-Rot (RWR), ou seja, trata-se de um espaço diretamente vinculado à história intelectual da autora.

Acesse o relatório completo do evento aqui.

O simbolismo político em O Livro do Xadrez, de Stefan Zweig

Adryan Martins (graduando em Licenciatura em Letras – Português e Alemão)

Em O Livro do Xadrez somos apresentados a Mirko Czentovic, um jovem em ascensão no mundo do xadrez que havia se tornado campeão mundial. O narrador, então, apresenta sua trajetória até alcançar essa posição.

Antes de adentrarmos na história, vale situar brevemente a obra. Trata-se de uma novela de Stefan Zweig, escritor austríaco de origem judaica, escrita durante seu exílio no Brasil e enviada ao editor poucos dias antes de seu suicídio, em Petrópolis, no ano de 1942. É a última obra de ficção do autor e a única em que ele aborda diretamente o nazismo, mesclando elementos autobiográficos ao enredo. Zweig era, à época, um dos escritores mais traduzidos e celebrados da Europa, e a novela acabou se tornando uma de suas obras mais conhecidas, não só pela força literária, mas por ter sido escrita no limiar entre a vida e a morte, enquanto a Europa que ele conhecia desmoronava sob o avanço do fascismo. O texto já rendeu duas adaptações para o cinema, inúmeras montagens teatrais e até uma ópera, o que ilustra bem que essa pequena obra de pouco menos de cem páginas segue sendo lida e relida. Li a tradução de Silvia Bittencourt, publicada pela Editora Fósforo.

O narrador, então, apresenta a trajetória de Czentovic até alcançar a posição de campeão mundial. Czentovic perdeu o pai ainda muito jovem e foi acolhido pelo padre da vila onde vivia. Sob seus cuidados, recebeu ensinamentos básicos, como escrita e matemática. No entanto, mesmo após inúmeras explicações, demonstrava grande dificuldade para compreender conteúdos que pareciam simples. Apesar disso, suas limitações não pareciam estar relacionadas à falta de esforço, pois procurava cumprir as tarefas e ordens que lhe eram dadas. É justamente nesse comportamento que começamos a perceber uma característica marcante de sua personalidade: Czentovic parecia não possuir iniciativa própria, limitando-se a realizar aquilo que lhe era solicitado. Não brincava com as outras crianças e, após terminar suas tarefas, permanecia sentado no quarto, olhando para o vazio, como se simplesmente aguardasse uma nova ordem.

Esse comportamento, aparentemente banal durante sua infância, ganha maior significado quando observamos a maneira como Czentovic se relaciona com o xadrez. Fora do tabuleiro, demonstrava dificuldades para compreender situações que exigiam maior abstração; dentro dele, porém, era capaz de agir com extrema precisão. O jogo oferecia justamente aquilo que parecia faltar em outros aspectos de sua vida: um sistema fechado de regras, posições e movimentos previamente determinados. Assim, sua personalidade e sua maneira de jogar começam a revelar uma relação particular com a ordem e com os limites impostos pelo próprio jogo.

Certa noite, enquanto o padre jogava xadrez com o general, o clérigo teve que sair. No meio de um jogo, deixou o general, o jovem e a mesa de xadrez. O general então convidou Mirko a jogar uma partida com ele e acabou sendo derrotado, resultado impactante devido às capacidades limitadas que o garoto tinha. O padre volta, e, sem acreditar no feito, o desafia também, para no fim ser igualmente derrotado. Era um milagre!

No dia seguinte, Czentovic foi levado a uma cidade próxima para testar mais as suas capacidades no tabuleiro. Ao enfrentar adversários em um clube de xadrez local, perdeu apenas a primeira partida e durante o resto do dia nenhum enxadrista foi capaz de vencê-lo. Era um grande feito para ele e para aquela pequena cidade, que estava em êxtase por um grande prodígio ter surgido ali, mesmo ele sendo de outro vilarejo. Sendo assim, o jovem foi para Viena aperfeiçoar mais suas habilidades e, após meio ano, já conhecia todas as técnicas do xadrez. Mas uma estranha limitação que ele tinha foi notada pelos diversos especialistas: Czentovic era incapaz de lembrar os lances de partidas passadas e de projetar mentalmente um tabuleiro. Para jogar, tinha que necessariamente ter em sua frente o tabuleiro com 32 peças. Carregava consigo um xadrez de bolso, evidenciando sua falta de imaginação. Porém, mesmo com tal limitação, era conhecido mundialmente e acumulava diversos prêmios, incluindo o título de Campeão Mundial.

Para participar de um campeonato de xadrez, Czentovic zarpara de New York a Buenos Aires, e durante o percurso somos apresentados ao narrador do livro, que compartilha a mesma curiosidade de nós leitores: como é esta personalidade excêntrica a bordo? Após algumas tentativas falhas de aproximação por parte do narrador, nota-se o principal traço do rapaz: trata-se de uma pessoa resoluta, fria e resistente a qualquer abalo. Após alguns dias o nosso narrador e outros cavalheiros conseguem marcar uma partida de xadrez, onde todos jogariam contra Czentovic, o atual campeão. Era nítido qual seria o resultado final: a primeira partida resultou em uma derrota rápida para os enxadristas. Entretanto, algo que poderia ser um banho de água fria revelou ser uma faísca em um barril de pólvora. Todos ali presentes sentiram uma incrível motivação para derrotarem seu oponente, e inicia-se a segunda partida. O jogo encaminhava-se a mais uma derrota quando surpreendentemente surgiu um senhor de cabelos brancos mas com um rosto jovem, que os ajudou a levar a partida ao empate. Era um feito extraordinário, principalmente para uma partida que estava quase perdida contra um campeão. Os enxadristas ficaram extasiados por terem alguém capaz de enfrentar Czentovic. Entretanto, ao ser chamado para outra partida, agora apenas entre o enigmático senhor e o jovem, o primeiro nega, pede perdão por ter se intrometido na disputa e deixa o recinto. Ninguém entende a atitude daquele senhor, e assim como talvez alguns leitores estejam consumidos pela curiosidade desta ação, o narrador também estava.

Sendo assim, ele vai questionar o senhor (que logo descobrirá que se chamava Dr.B) por qual razão teria declinado outra partida, e é surpreendido pela resposta concedida:

“na verdade não sei se sou capaz de jogar corretamente uma partida de xadrez, conforme as regras. Acredite, por favor, não se tratava de modo algum de falsa modéstia quando afirmei que desde os tempos de ginásio, há mais de vinte anos, não tocara em nenhuma peça do jogo. E mesmo naquela época eu era considerado um jogador sem nenhum talento especial.”

A surpresa evidente do narrador motiva Dr.B a contar sua história de como iniciou neste mundo preto e branco. Era advogado da família real na Áustria, encarregado de administrar os bens da família. Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, fora detido e confinado em um minúsculo quarto no hotel Metrópole – Quartel Geral da Gestapo -, com o objetivo de ser interrogado. Seu quarto era extremamente pequeno e sem decoração.

“Ele tinha uma porta, uma mesa, uma cama, uma poltrona, uma bacia, uma janela gradeada.”

E neste ambiente claustrofóbico foi onde ficou por quatro meses. Durante as primeiras semanas, resistiu bem à tortura psicológica, mas logo começou a ceder, pois não havia nenhum estímulo capaz de entretê-lo no cubículo. Contudo, ao ser levado para o corredor onde ficava a sala onde seria interrogado como sempre, notou um casaco na parede. Nele havia um pequeno volume, e quase sem pensar e de maneira instintiva, criou um plano para furtar o livro. Com astúcia e um pouco de sorte, foi capaz de pegar o objeto e escondê-lo na cintura. Chegando ao quarto, o livro revelou ser uma obra que continha 150 partidas de mestres enxadristas. Uma onda de decepção e raiva tomou conta do Sr. B. O único livro ao qual tinha acesso era um do qual ele nada entendia; mas isso não o impediu de aprender.

Primeiro, usava migalhas de pão sobre a colcha da cama para reproduzir mecanicamente cada lance do livro. Depois, decorou todas as partidas e passou a visualizar o tabuleiro mentalmente com clareza absoluta. Por fim, com o livro esgotado, precisou jogar contra si mesmo. Para isso, dividiu artificialmente sua consciência em duas personalidades opostas, forçando uma espécie de esquizofrenia voluntária. O preço foi altíssimo. O xadrez tornou-se uma obsessão que o consumiu por inteiro, até que os guardas o encontraram em colapso, movendo peças invisíveis no ar.

Após sua libertação, um médico o proibiu de tocar em um tabuleiro novamente, para não sofrer um novo colapso nervoso.

Apesar do alerta do médico, estando dentro daquele barco, Dr. B. acaba aceitando o convite e finalmente aconteceria a partida que todos os presentes no navio estavam esperando. Czentovic joga devagar e com calma, enquanto Dr.B quase instantaneamente após o movimento do adversário. A partida dura horas, e o senhor começa a ficar extremamente irritado. O jovem, por sua vez, notando isso, atrasa suas jogadas propositalmente. O ápice da partida ocorre quando Dr. B anuncia um xeque que não existia no tabuleiro real. Sua mente divagava em uma partida imaginária, e se dividiu entre a realidade e as partidas fantasmas de sua antiga prisão. O jogo que um dia o salvara tornou-se sua ruína.

Após compreender este livro e observar Czentovic e Dr. B., podemos perceber um contraste entre suas personalidades. Enquanto Czentovic representa a rigidez e a frieza, Dr. B. simboliza a resistência e a imaginação, permitindo relacioná-los às transformações políticas e sociais da Europa durante a ascensão do fascismo. Czentovic também pode ser interpretado como uma representação alegórica da lógica fascista que avançava sobre a Europa.

Nessa perspectiva, o tabuleiro pode ser compreendido como uma representação de uma ordem autoritária, na qual cada peça possui uma função determinada e os movimentos obedecem a regras inflexíveis. Czentovic não precisa compreender o mundo para dominá-lo, basta-lhe conhecer perfeitamente as regras do sistema no qual está inserido. Sua força não está na imaginação ou na reflexão, mas na repetição, na disciplina e na eficiência mecânica. Essa característica permite aproximá-lo simbolicamente do funcionamento dos regimes fascistas, que buscavam submeter o indivíduo a uma estrutura rígida de poder, reduzindo a autonomia e o pensamento crítico.

Sua ascensão no xadrez também pode ser interpretada como uma alegoria da ruptura da antiga ordem europeia. Czentovic surge de uma posição marginal e passa a derrotar sucessivamente jogadores que representam uma tradição consolidada do xadrez, até alcançar o título de campeão mundial. Assim, sua vitória sobre os grandes mestres pode simbolizar, metaforicamente, a vitória de uma nova força política autoritária sobre a velha Europa, marcada por suas tradições culturais, intelectuais e políticas. Não se trata de afirmar que cada personagem corresponde diretamente a uma figura histórica específica, mas de observar como a trajetória de Czentovic permite representar a ascensão de uma força que parecia banal e rudimentar, porém extremamente eficiente em destruir ou dominar estruturas tradicionais.

Essa interpretação torna-se ainda mais significativa quando Czentovic é colocado em contraste com Dr. B. Enquanto Czentovic representa uma inteligência mecânica, dependente das regras concretas do tabuleiro, Dr. B desenvolve a capacidade de reconstruir mentalmente o jogo durante seu confinamento. O contraste entre os dois pode ser compreendido como o confronto entre a força rígida e exterior de um sistema autoritário e a resistência interior do indivíduo. Dr. B, antigo advogado da família real austríaca, pertence justamente a uma ordem europeia que estava sendo destruída pela violência política da Segunda Guerra Mundial. Dessa maneira, o confronto no tabuleiro deixa de ser apenas uma disputa de xadrez e passa a carregar uma dimensão histórica e ideológica: de um lado, a força mecânica de uma nova ordem, do outro, a inteligência e a memória de uma Europa que estava sendo destruída.

Stefan Zweig no País do Futuro

Já ouviu falar de Stefan Zweig? Mesmo que não, a hora é agora. O Centro Austriaco da UFPR, em colaboração com o Stefan Zweig Zentrum Salzburg e o gentil financiamento da Embaixada da Áustria, convida você para um encontro dedicado à vida e à obra de Stefan Zweig no exílio.

Ao longo de três blocos, teremos palestras com convidados especiais (em partes vindo diretamente da Áustria), conversas sobre textos selecionados do autor e uma oficina colaborativa voltada à criação de materiais didáticos. Será uma oportunidade para ouvir, trocar ideias e redescobrir Zweig a partir de perspectivas atuais sobre o exílio, a cultura e suas impressões sobre o Brasil. Pois foi no Brasil, mais especificamente na cidade de Petrópolis – RJ, em que o autor austríaco viveu com sua segunda esposa até o ano de 1942, quando cometeu suicídio.

As atividades contarão com momentos em alemão, acompanhados de apoio em português. Para as palestras e discussões, recomenda-se um nível mínimo de alemão, mas a participação de todos é muito bem-vinda! O evento acontecerá de modo presencial no campus Reitoria da UFPR nos dias 05/10 e 06/10, com participação ativa de Martina Wörgötter e Klemens Renoldner, do Stefan Zweig Zentrum Salzburg, além de nomes da UFPR, como Ruth Bohunovsky, Gisele Eberspächer, Angélica Neri e Catarina Portinho-Nauiack. Mais informações você pode conferir no nosso post do instagram e no próprio link de inscrição.

Para além disso, a Livraria Arte e Letra, no Centro de Curitiba, será local de um evento relacionado ao mesmo tema, já no dia 03/10. Participarão também os dois convidados da Áustria, além de Ruth Bohunovsky e Gisele Eberspächer.

Estamos muito empolgadas e esperamos nos ver por lá!

Casa Stefan Zweig em Petrópolis, RJ

Um laboratório criativo de conteúdos didáticos

Professores de idiomas e estudantes de Letras: venham participar e pensar fora da caixa!

O Centro Austríaco da UFPR, em parceria com o LABEL (Laboratório de Ensino de Línguas), convida você para uma edição inédita do nosso curso Laboratório Criativo de Conteúdo Didático. Mais do que um curso de extensão, esta iniciativa foi concebida como um espaço de reflexão, diálogo e formação sobre os fundamentos teóricos e metodológicos que orientam a produção de materiais para o ensino de línguas.

Ao longo dos encontros, discutiremos conceitos, abordagens, conteúdos e práticas que servirão de base para uma etapa muito especial: o desenvolvimento de materiais didáticos previsto para 2027.

Se você se interessa por ensino de idiomas, inovação pedagógica e elaboração de recursos didáticos, esta é uma oportunidade de ampliar seu repertório e participar de uma construção coletiva que poderá impactar futuras práticas de ensino e aprendizagem.

A participação no curso será virtual, tendo início no dia 19 de agosto desse ano e estendendo-se até novembro, com um encontro por mês, a fim de comportar também aqueles participantes com pouco tempo livre. Cada aula acontecerá das 15h às 17h e, participando-se em ao menos 75% dos encontros, renderá um certificado de 10 horas. Entre as ministrantes já definidas estão Ruth Bohunovsky, professora na UFPR, tradutora e coordenadora do Centro Austríaco, e Catarina Portinho-Nauiack, também professora na mesma universidade e pesquisadora de materiais didáticos do alemão desde 2009.

 As inscrições podem ser feitas através do link https://forms.gle/gRnAB6c5TqVr5p4e7, que também se encontra na bio do instagram do Centro Austríaco, @centroaustriaco (aproveite para dar uma olhada lá, há muito conteúdo legal!). Esperamos vê-lo no curso!

Um autorretrato de Stefan Zweig e de seus tempos vividos

Susi Horn

Ler o livro Die Welt von Gestern: Erinnerungen eines Europäers (O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu) não só proporciona ao leitor uma imagem íntima de Stefan Zweig, como também um panorama histórico — mesmo que subjetivo — de sua época de vida.

Stefan Zweig nasceu no final de 1881, na capital do então Império Austro-Húngaro, Viena. Sua progressão no mundo literário foi aos poucos, mas ele teve a sorte, desejada por muitos autores, de encontrar sucesso ainda durante sua vida. Na verdade, seu sucesso foi tanto que, com a chegada ao poder de um certo homem de bigode perigosamente estreito no país vizinho, os livros de Zweig lá foram proibidos e queimados em praça pública.

O austríaco foi, além de romancista, biógrafo, dramaturgo, jornalista e libretista, também tradutor, atividade essa com a qual se distinguiu principalmente no início de sua carreira. A partir de 1919, no pós-guerra, se mudou para Salzburg, onde havia adquirido uma casa durante a Grande Guerra. De lá somente saiu em 1934, para a Inglaterra, devido também ao início de novas tensões na Europa, e, em 1941, emigrou para o Brasil em conjunto com sua segunda esposa, Lotte. Foi onde, em Petrópolis, deprimidos com o avanço de Hitler na Europa, ambos se suicidaram apenas um ano depois.

O livro Die Welt von Gestern dá conta de trazer sensações sobre o tempo que um simples livro de história não consegue suscitar. Isso, é claro, não significa que se deve substituir um pelo outro, mas que, Devido à forma descritiva e sensorial de Zweig escrever, uma pessoa — como a autora que vos fala — que em geral não tem na história seu maior interesse e capacidade de memória, consegue apreender coisas que normalmente não apreenderia. Ademais, para quem é apaixonado por observar e dar atenção a detalhes, a descrição que Zweig fornece de figuras que teve o prazer de conhecer é, na sua riqueza e personalidade, mágica. Ainda que Richard Strauss, Freud, Rilke, Joyce, Gorkij, Wells, Shaw, Rathenau, entre tantos outros, são obviamente descritos pelos olhos do autor, a leitura de suas descrições já é inspiradora pelo simples modo como foram escritas, fazendo surgir imagens fortes com o uso das palavras-chave cuidadosamente escolhidas. Estranho foi que, tendo casado duas vezes, Zweig não deu nem de longe igual atenção às esposas em seu livro. Exemplo para tal foi a confusão sentida durante a leitura de um trecho já mais avançado do livro, onde o autor conta como foi se mudar para Salzburg e repetidas vezes fala em “nós” ao tratar dos acontecimentos ali vividos. Fui descobrir apenas mais tarde que esse “nós” incluía sua esposa, à qual ele também só se refere com essa palavra, de modo que o leitor apenas descobre quem ela foi ao pesquisar por ela exteriormente ao livro. 

Por fim, voltamos a um aspecto admirável em Stefan Zweig: sua capacidade de ver verdades e humanidade em todos os homens, contrastando com o pensamento em preto e branco e a dominância das paixões que provavelmente desde sempre marcam os tempos políticos mais difíceis de uma era. Deixo aqui, numa tradução livre, um trecho do livro que pode fazer-te refletir, principalmente nos tempos polarizados que nem mesmo o século XXI nos fez superar. No contexto do trecho, Zweig contava como se envolveu em todo tipo de discussões anti-guerra quando passou pela Suíça durante a Grande Guerra, discutindo até tarde da noite com pessoas de todos os tipos, mas como começou a se entediar aos poucos até com aqueles mais confiáveis entre os parceiros:

“Mas até nos mais confiáveis me entediava o caráter infrutífero das discussões sem fim e o obstinado encaixotamento em grupos radicais, liberais, anarquistas, bolchevistas e apolíticos; pela primeira vez eu aprendi a observar o eterno tipo do revolucionário profissional que, pelo caráter meramente oposicional do seu cargo, se sente elevado em sua insignificância e se prende ao dogmático, porque em si ele não possui ao que se prender. Manter-se nessa bagunça faladeira significaria confundir-se, cultivar afinidades perigosas e comprometer sua própria convicção em sua segurança moral. […] De fato, nenhum desses faladores se atreveu a um complô, nenhum desses improvisados políticos mundiais soube fazer política quando ela foi verdadeiramente necessária. Assim que começou-se a reconstrução após a guerra, eles se mantiveram em sua negatividade ranzinza e resmungadora […].”

Bem, assim é Stefan Zweig, que descreve de modo conciso e surpreendentemente filosófico. Afinal, não é à toa considerado um dos maiores escritores do século passado. Fica aqui a recomendação de suas obras, a começar por essa, que lhes dará a oportunidade de começar a entender quem foi esse homem. E fica também a recomendação de sermos mais como ele no seu pensar crítico, não nos deixando levar por paixões passageiras e radicalismos que apelam a essas mesmas paixões. 

Bons dias!

O Jovem Törless de Musil: um espelho dos cantos escuros da alma

Adryan Martins

Robert Musil (1880-1942) foi um escritor e filósofo austríaco considerado um dos maiores escritores do século XX ao lado de nomes como Kafka. Nascido em Klagenfurt, no então Império Austro-Húngaro, sua trajetória foi um tanto incomum. Musil se formou em engenharia mecânica, mas logo se voltou para a filosofia, psicologia e matemática, concluindo seu doutorado em 1908. Tal formação híbrida, que conciliava o rigor científico com a especulação filosófica, marcaria profundamente sua literatura.

O conflito entre o pensamento racional e as forças irracionais já se anuncia em seu romance de estreia, O Jovem Törless (1906). A obra é em grande medida um reflexo de sua própria biografia. Na adolescência, Musil foi enviado pelos pais para um rigoroso internato militar, experiência que o marcou profundamente. Embora Musil mais tarde tenha negado qualquer relação autobiográfica, o livro aproveita diretamente desse ambiente opressor, transformando a memória em uma investigação psicológica e moralmente impiedosa. Mais do que um simples “romance de formação” (Bildungsroman1), a obra de Musil utiliza o ambiente do internato para mostrar o despertar da sexualidade, a mecânica do poder e a fragilidade da ética, antecipando com uma lucidez perturbadora as sombras que em breve pairariam sobre a Europa.

Não é apenas um texto sobre a própria juventude, pois a escrita de Musil em O Jovem Törless revela um olhar curioso e ao mesmo tempo perturbador sobre o que se passa nos cantos escuros da alma. Ele não se contenta em narrar os fatos, prefere analisar as contradições que habitam o peito de Törless, a excitação que vem junto com o nojo, o impulso de proteger que se confunde com o desejo de destruir. O internato, com seus corredores vazios e regras rígidas, serve como uma lente de aumento para essas tensões e Musil conduz o leitor não por explicações prontas, mas por uma atmosfera de desconforto e estranhamento, como quem aponta para o que a razão insiste em ignorar, a fragilidade dos limites entre o certo e o errado quando os instintos torna-se a principal linha de raciocínio.

  1. Segundo consta na Wikipedia, o termo Bildungsroman é usado para o tipo de romance em que é exposto, de forma minuciosa, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.

Existe um austríaco típico? E um alemão típico? 

Raíza Custódio, aluna da disciplina de Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR 

Muitas vezes, quando começamos a aprender uma língua, já temos várias impressões formadas sobre como um povo é. Alemães são sempre diretos e pontuais – nada de fazer sala. Austríacos são frios e introvertidos. Mas será que é assim mesmo? 

A instrutora Mala Ullal, que trabalha como formadora intelectual na Alemanha, ajudando estrangeiros a se adequarem ao país, conta em uma entrevista para o site deutschland.de que, apesar da comunicação ser sim mais direta do que em vários outros países, as interações têm muitas outras nuances que dependem de região e experiências pessoais. 

Pensando justamente em abordar essas complexidades sobre o que é um austríaco típico, o jornal Der Standard fez uma série de quatro vídeos trabalhando o tema, passando por temas como comida, hobbies e organização. Veja o primeiro a seguir:

Recomendação de leitura: Wittgenstein e a filosofia austríaca – Questões de Rudolf Haller

Texto escrito por Felipe dos Santos Tassini, aluno da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR

A filosofia no século XX costuma ser dividida em duas grandes correntes opostas: a tradição continental e a vertente analítica. Esta última, ainda extremamente dominante nos países anglófonos, tem sua história intimamente ligada à apropriação dos resultados da lógica formal contemporânea pelos pensamentos filosóficos de Gottlob Frege e Bertrand Russell, bem como às críticas ao idealismo britânico formuladas por este último em parceria com G. E. Moore. Entretanto, a filosofia analítica só alcançará o caráter de um novo paradigma especulativo — e seu impacto verdadeiramente transformador — a partir dos resultados obtidos por Ludwig Wittgenstein em sua juventude.

Foi Wittgenstein quem, com a publicação do Tractatus Logico-Philosophicus em 1921, operou um salto qualitativo na utilização da análise das condições lógicas da linguagem como método de esclarecimento e dissolução de aporias filosóficas, já presentes nos projetos de Russell e Frege. Porém, mesmo sendo majoritariamente influenciado pelos seus pares fundadores da perspectiva analítica — como reconhecido por ele mesmo no prólogo de sua primeira obra —, suas inspirações vão muito além dessas figuras.

Como um vienense proveniente de uma família muito abastada — seu pai, Karl Wittgenstein, foi um empreendedor tcheco de sucesso cujos negócios na indústria de ferro e aço o alçaram à condição de um dos homens mais ricos do Império Austro-Húngaro —, Wittgenstein teve um acesso privilegiado ao cenário intelectual da Áustria de sua época.

Rudolf Haller (1929–2014), filósofo austríaco e professor catedrático de pesquisa fundamental em filosofia na Universidade de Graz, pretendeu em seu livro de 1988, Wittgenstein e a filosofia austríaca: Questões, abordar essa relação entre o pensamento de Wittgenstein e a filosofia austríaca, procurando tanto construir uma história intelectual da Áustria desde Johann Friedrich Herbart (1776–1841) e Bernard Bolzano (1781–1848) quanto realizar análises comparativas entre os temas centrais do Tractatus e as ideias de autores como Fritz Mauthner, Otto Weininger e Oswald Spengler.

A tese que percorre os nove ensaios reunidos no volume é a de que existe uma tradição filosófica especificamente austríaca, cujos traços distintivos — empirismo, proximidade com as ciências, crítica da linguagem e rejeição da metafísica grandiosa — não apenas antecederam o surgimento da filosofia analítica, como ajudaram a moldá-la de maneira decisiva. Para Haller, Wittgenstein não é simplesmente um herdeiro de Frege e Russell que por acaso nasceu em Viena; ele é, antes, um pensador situado no cruzamento de duas tradições, alguém que levou para Cambridge uma sensibilidade filosófica forjada no ambiente intelectual austríaco e que, ao mesmo tempo, transformou essa herança ao submetê-la ao rigor da lógica formal.

Com isso, Haller nos oferece uma chave de leitura duplamente reveladora. Por um lado, ele ilumina facetas do pensamento de Wittgenstein que a historiografia convencional costuma deixar na sombra — como sua dívida para com a Sprachkritik de Mauthner ou sua admiração pelo rigor ético de Weininger. Por outro, ele reconstrói uma genealogia alternativa da filosofia contemporânea, na qual a Áustria deixa de figurar como mera coadjuvante e passa a ocupar o centro do palco. O resultado é um livro que, mais de três décadas após sua publicação, continua sendo leitura obrigatória para quem deseja compreender não apenas Wittgenstein e a tradição austríaca, mas o próprio desenvolvimento da filosofia no século XX.

Três vezes em que a Áustria esteve presente na história do Brasil

Texto de Giselle Pereira Maia, aluna da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR. 

Apesar da distância e das diferenças culturais, o Brasil e a Áustria compartilham momentos históricos importantes. Por trás de diversos elementos do nosso cotidiano há heranças austríacas que muitos brasileiros nem imaginam. Veja três delas:

O amarelo da bandeira nacional

Ao contrário do que muitos aprendem na escola, a cor amarela na bandeira do Brasil não significa apenas o ouro do país. A cor foi escolhida como homenagem à Casa de Habsburgo, família austríaca de Maria Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil e esposa de Dom Pedro I.

Quer saber mais sobre Maria Leopoldina? O Centro Austríaco desenvolveu um material para alunos de alemão de nível A1 sobre a imperatriz. Conheça aqui.

As primeiras grandes pinturas do Rio de Janeiro

A chegada de Maria Leopoldina ao Rio de Janeiro, em 1817, mudou a ciência no país. A arquiduquesa tinha uma enorme paixão por botânica e mineralogia, e trouxe consigo muitos cientistas, médicos e pintores europeus. Durante anos, eles exploraram o território brasileiro, registraram a fauna e a flora e criaram as mais famosas pinturas das paisagens do Rio de Janeiro daquele século.

Pintura de Thomas Ender (Vista do Rio de Janeiro, 1837): acervo da Galeria de Pinturas da Academia de Belas Artes de Viena, Áustria

A origem da expressão “Brasil, país do futuro

Stefan Zweig foi um escritor austríaco de grande influência da década de 20. Por ser judeu, ele precisou fugir da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e abrigar-se no Brasil. Durante a sua estadia, escreveu sobre o país e nomeou-o como “Brasil, país do futuro”, essa expressão fez tanto sucesso na época que é possível ouvi-la até os dias de hoje, como na música “Perfeição” da banda Legião Urbana.

O Centro Austríaco também já fez um material didático sobre o período que Stefan Zweig e sua esposa, Lotte Zweig, passaram no Brasil. Veja mais aqui.

Esses fatos, que são pouco conhecidos, demonstram que é muito importante conhecer a história de outros países para entender o nosso, afinal, o Brasil foi formado por uma mistura de etnias e culturas. Logo, a Áustria deixou diversas marcas na nossa arte, literatura e até mesmo na nossa bandeira nacional.

Anton Zeilinger, o “Papa Quântico”

Susi Horn

Anton Zeilinger, nascido em 1945 em Ried im Innkreis, é um dos mais renomados físicos quânticos da atualidade e, requisito básico para receber um blog por aqui, austríaco. Em 2022, recebeu o Prêmio Nobel de Física por seus experimentos com fótons emaranhados, em conjunto com seus colegas Alain Aspect e John Clauser. Esse e outros experimentos seus confirmaram que o entrelaçamento quântico está certo, o que pavimenta o caminho para computadores quânticos, redes quânticas e comunicação criptografada quântica.

Mas, afinal, o que é essa tal de física quântica? A palavra “quântico” se ouve por aí vez ou outra, principalmente quando alguém quer deixar um certo tema mais interessante e complexo. Na física, no entanto, ela tem um significado muito específico, então convido-os a um breve episódio de Physics for Dummies (e entre esses dummies encontra-se também a autora que vos fala).

De acordo com uma pesquisa muito séria no modo IA do Google, a palavra vem do latim quantum, significando “quanto” ou “qual a quantidade”, ou seja, no próprio nome desse ramo da física, os físicos já mostram que nem eles sabem do que se trata. Mas, brincadeiras à parte, pesquisas em páginas mais confiáveis dizem que esse ramo da física estuda aquilo que acontece em escala extremamente pequena, trabalhando nas escalas de partículas até mesmo subatômicas. Assim, estuda-se o comportamento das partículas fundamentais, aquelas que formam tudo o que há no mundo. Essa física lida muito mais com probabilidades do que com leis determinísticas tal qual a física clássica.

A título de curiosidade, alguns dos fenômenos que a física quântica ajuda a iluminar ou ajudou a inventar/descobrir, onde a clássica newtoniana não deu conta, são a física nuclear, o laser, os computadores quânticos, o decaimento radioativo, a espectroscopia atômica (seja o que for isso), entre outros. Além disso, ainda pode-se mencionar alguns nomes importantes da área, como o de Max Planck, conhecido como o pai da física quântica, Albert Einstein, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, também austríaco.

Assim, Zeilinger não só conseguiu o feito de “desemaranhar” esse ramo da física, mas de fazer o mesmo com os seus fótons emaranhados.

Desde criança, ele gostava de entender como as coisas funcionam, indicando isso já ao desmontar as pobres bonecas de sua irmã. Após completar o ensino médio, entre 1963 e 1971 o jovem estudou física e matemática na Universidade de Viena. Depois de formado, foi professor visitante em diversas universidades fora da Áustria, como nos EUA, na Alemanha, na Grã-Bretanha e na França — um talento nato como professor, ele foi um docente que, com muito carisma, também ensinou a física ao público amplo. Até se tornar professor emérito em 2013, Zeilinger lecionou na Universidade de Viena, onde também foi decano da faculdade de física e participou do conselho do Instituto para Física Experimental. Além do prêmio Nobel, que não lhe foi concedido à toa, Zeilinger pela primeira vez teve sucesso com a teletransporte quântico de partículas de luz, em 1997, criptografou a primeira transação bancária pelo emaranhamento quântico em 2007 e ganhou diversos outros prêmios pelos seus trabalhos na física.

Numa entrevista publicada pelo canal de YouTube da Universidade de Viena, lhe fazem a pergunta “qual foi sua descoberta científica mais importante?”. Anton Zeilinger reponde, de modo muito simples, que essa descoberta seria o fato de a informação ser a base da ciência, e não a investigação de uma realidade material. Essa afirmação ganha cada vez mais defensores em meio aos físicos modernos: a informação seria o ingrediente básico da qual todo o resto — partículas, campos, forças, tempo, espaço — emerge. Por exemplo, a dureza de um diamante é apenas uma informação de como os átomos dele estão ligados; a cor de um pôr do sol, então? Informação sobre a frequência das ondas de luz. 

E, para finalizar com algo mais leve e compreensível, o cientista ainda dá um conselho aos recém-ingressados na universidade: façam aquilo pelo que se interessam, não o que os seus avós ou pais querem de vocês. Parece uma dica óbvia, mas não é tão óbvia assim quando se observa os jovens nos ambientes universitários, dos quais tantos seguem desejos alheios nas suas escolhas acadêmicas, e não os próprios. Imaginem só se um gênio como Zeilinger tivesse seguido qualquer área menos a que é sua paixão, imaginem os descobrimentos que se teria adiado por isso! Dito isso, sigam o que acende sua curiosidade, de onde podem surgir as maiores e melhores descobertas.

Bons dias.