Três vezes em que a Áustria esteve presente na história do Brasil

Texto de Giselle Pereira Maia, aluna da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR. 

Apesar da distância e das diferenças culturais, o Brasil e a Áustria compartilham momentos históricos importantes. Por trás de diversos elementos do nosso cotidiano há heranças austríacas que muitos brasileiros nem imaginam. Veja três delas:

O amarelo da bandeira nacional

Ao contrário do que muitos aprendem na escola, a cor amarela na bandeira do Brasil não significa apenas o ouro do país. A cor foi escolhida como homenagem à Casa de Habsburgo, família austríaca de Maria Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil e esposa de Dom Pedro I.

Quer saber mais sobre Maria Leopoldina? O Centro Austríaco desenvolveu um material para alunos de alemão de nível A1 sobre a imperatriz. Conheça aqui.

As primeiras grandes pinturas do Rio de Janeiro

A chegada de Maria Leopoldina ao Rio de Janeiro, em 1817, mudou a ciência no país. A arquiduquesa tinha uma enorme paixão por botânica e mineralogia, e trouxe consigo muitos cientistas, médicos e pintores europeus. Durante anos, eles exploraram o território brasileiro, registraram a fauna e a flora e criaram as mais famosas pinturas das paisagens do Rio de Janeiro daquele século.

Pintura de Thomas Ender (Vista do Rio de Janeiro, 1837): acervo da Galeria de Pinturas da Academia de Belas Artes de Viena, Áustria

A origem da expressão “Brasil, país do futuro

Stefan Zweig foi um escritor austríaco de grande influência da década de 20. Por ser judeu, ele precisou fugir da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e abrigar-se no Brasil. Durante a sua estadia, escreveu sobre o país e nomeou-o como “Brasil, país do futuro”, essa expressão fez tanto sucesso na época que é possível ouvi-la até os dias de hoje, como na música “Perfeição” da banda Legião Urbana.

O Centro Austríaco também já fez um material didático sobre o período que Stefan Zweig e sua esposa, Lotte Zweig, passaram no Brasil. Veja mais aqui.

Esses fatos, que são pouco conhecidos, demonstram que é muito importante conhecer a história de outros países para entender o nosso, afinal, o Brasil foi formado por uma mistura de etnias e culturas. Logo, a Áustria deixou diversas marcas na nossa arte, literatura e até mesmo na nossa bandeira nacional.

Anton Zeilinger, o “Papa Quântico”

Susi Horn

Anton Zeilinger, nascido em 1945 em Ried im Innkreis, é um dos mais renomados físicos quânticos da atualidade e, requisito básico para receber um blog por aqui, austríaco. Em 2022, recebeu o Prêmio Nobel de Física por seus experimentos com fótons emaranhados, em conjunto com seus colegas Alain Aspect e John Clauser. Esse e outros experimentos seus confirmaram que o entrelaçamento quântico está certo, o que pavimenta o caminho para computadores quânticos, redes quânticas e comunicação criptografada quântica.

Mas, afinal, o que é essa tal de física quântica? A palavra “quântico” se ouve por aí vez ou outra, principalmente quando alguém quer deixar um certo tema mais interessante e complexo. Na física, no entanto, ela tem um significado muito específico, então convido-os a um breve episódio de Physics for Dummies (e entre esses dummies encontra-se também a autora que vos fala).

De acordo com uma pesquisa muito séria no modo IA do Google, a palavra vem do latim quantum, significando “quanto” ou “qual a quantidade”, ou seja, no próprio nome desse ramo da física, os físicos já mostram que nem eles sabem do que se trata. Mas, brincadeiras à parte, pesquisas em páginas mais confiáveis dizem que esse ramo da física estuda aquilo que acontece em escala extremamente pequena, trabalhando nas escalas de partículas até mesmo subatômicas. Assim, estuda-se o comportamento das partículas fundamentais, aquelas que formam tudo o que há no mundo. Essa física lida muito mais com probabilidades do que com leis determinísticas tal qual a física clássica.

A título de curiosidade, alguns dos fenômenos que a física quântica ajuda a iluminar ou ajudou a inventar/descobrir, onde a clássica newtoniana não deu conta, são a física nuclear, o laser, os computadores quânticos, o decaimento radioativo, a espectroscopia atômica (seja o que for isso), entre outros. Além disso, ainda pode-se mencionar alguns nomes importantes da área, como o de Max Planck, conhecido como o pai da física quântica, Albert Einstein, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, também austríaco.

Assim, Zeilinger não só conseguiu o feito de “desemaranhar” esse ramo da física, mas de fazer o mesmo com os seus fótons emaranhados.

Desde criança, ele gostava de entender como as coisas funcionam, indicando isso já ao desmontar as pobres bonecas de sua irmã. Após completar o ensino médio, entre 1963 e 1971 o jovem estudou física e matemática na Universidade de Viena. Depois de formado, foi professor visitante em diversas universidades fora da Áustria, como nos EUA, na Alemanha, na Grã-Bretanha e na França — um talento nato como professor, ele foi um docente que, com muito carisma, também ensinou a física ao público amplo. Até se tornar professor emérito em 2013, Zeilinger lecionou na Universidade de Viena, onde também foi decano da faculdade de física e participou do conselho do Instituto para Física Experimental. Além do prêmio Nobel, que não lhe foi concedido à toa, Zeilinger pela primeira vez teve sucesso com a teletransporte quântico de partículas de luz, em 1997, criptografou a primeira transação bancária pelo emaranhamento quântico em 2007 e ganhou diversos outros prêmios pelos seus trabalhos na física.

Numa entrevista publicada pelo canal de YouTube da Universidade de Viena, lhe fazem a pergunta “qual foi sua descoberta científica mais importante?”. Anton Zeilinger reponde, de modo muito simples, que essa descoberta seria o fato de a informação ser a base da ciência, e não a investigação de uma realidade material. Essa afirmação ganha cada vez mais defensores em meio aos físicos modernos: a informação seria o ingrediente básico da qual todo o resto — partículas, campos, forças, tempo, espaço — emerge. Por exemplo, a dureza de um diamante é apenas uma informação de como os átomos dele estão ligados; a cor de um pôr do sol, então? Informação sobre a frequência das ondas de luz. 

E, para finalizar com algo mais leve e compreensível, o cientista ainda dá um conselho aos recém-ingressados na universidade: façam aquilo pelo que se interessam, não o que os seus avós ou pais querem de vocês. Parece uma dica óbvia, mas não é tão óbvia assim quando se observa os jovens nos ambientes universitários, dos quais tantos seguem desejos alheios nas suas escolhas acadêmicas, e não os próprios. Imaginem só se um gênio como Zeilinger tivesse seguido qualquer área menos a que é sua paixão, imaginem os descobrimentos que se teria adiado por isso! Dito isso, sigam o que acende sua curiosidade, de onde podem surgir as maiores e melhores descobertas.

Bons dias. 

Relato de aprendizagem: Influências linguísticas e fonológicas entre alemão, português e espanhol

Texto de Carlos Alejandro Peña Suárez (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

A aprendizagem de uma nova língua não é influenciada apenas pela gramática e pelo vocabulário, mas também pelas estruturas linguísticas que o aprendiz já conhece. Pesquisas na área de aquisição de segunda e terceira língua demonstram que a língua materna e outras línguas previamente aprendidas influenciam diretamente a pronúncia, a percepção auditiva e a compreensão de novos padrões linguísticos.

Como falante nativo de espanhol e estudante de português e alemão, é interessante observar como essas três línguas interagem entre si. Principalmente no nível fonológico, surgem vantagens e dificuldades específicas.

O alemão pertence à família germânica, enquanto o português e o espanhol fazem parte das línguas românicas. Apesar dessas diferenças, estudos sobre “cross-linguistic influence” mostram que até mesmo línguas tipologicamente distantes podem compartilhar características que influenciam o processo de aprendizagem.

Aprender alemão sendo falante de português ou espanhol

Para falantes de português e espanhol, o alemão costuma parecer difícil inicialmente devido aos casos gramaticais, à ordem das palavras e às palavras compostas longas. O sistema de nominativo, acusativo, dativo e genitivo não existe da mesma forma no português e no espanhol.

No entanto, no campo da fonologia aparecem diferenças interessantes entre lusófonos e hispanofalantes. Pesquisas sobre interferência fonológica mostram que hábitos articulatórios da língua materna influenciam diretamente a produção de novos sons.

O português brasileiro apresenta sons mais guturais e posteriores do que o espanhol em alguns contextos fonéticos. Isso pode facilitar para falantes de português a percepção e a reprodução de certos sons do alemão, como o “ch” e determinados sons fortes de “r”. Já falantes de espanhol costumam possuir um sistema vocálico mais estável e regular. Isso pode favorecer a pronúncia clara de vogais alemãs. Por outro lado, sons guturais e algumas combinações consonantais do alemão podem representar maior dificuldade.

Aprender português ou espanhol sendo falante de alemão

Falantes de alemão encontram inicialmente elementos familiares no português e no espanhol, como o alfabeto latino e diversas palavras internacionais. Entretanto, novas dificuldades surgem especialmente no aspecto fonológico.

No português brasileiro, as vogais nasais possuem grande importância. Palavras como “não”, “mãe” e “pão” apresentam nasalização, característica ausente no alemão. Pesquisas sobre percepção fonológica indicam que sons inexistentes na língua materna tendem a ser mais difíceis de reproduzir corretamente.

Além disso, o ritmo da fala em português difere bastante do alemão. O português brasileiro apresenta uma entonação mais fluida e musical, enquanto o alemão costuma ser percebido como mais segmentado ritmicamente.
No espanhol, a relação entre escrita e pronúncia costuma ser mais regular. Mesmo assim, a velocidade da fala e a variedade de formas verbais podem representar desafios para falantes de alemão.

Interferência linguística e multilinguismo

Pesquisas sobre multilinguismo demonstram que, ao aprender uma terceira língua, não apenas a língua materna exerce influência, mas também outras línguas previamente aprendidas. Esse processo é conhecido como “cross-linguistic influence”.

Entre português e espanhol ocorre frequentemente interferência lexical e fonológica. Devido à proximidade entre essas línguas, aparecem falsos cognatos, misturas gramaticais e influências na pronúncia.

Ao mesmo tempo, a proximidade linguística pode acelerar o processo de aprendizagem. Entretanto, estudos indicam que o excesso de semelhança também pode gerar simplificações excessivas e erros fossilizados.

Conclusão

A aprendizagem de alemão, português e espanhol mostra como língua, fonologia e experiência cultural estão profundamente conectadas. A língua materna influencia não apenas a gramática, mas também a percepção e a produção de novos sons.

Falantes de português podem apresentar vantagens em determinados sons guturais do alemão, enquanto falantes de alemão frequentemente encontram dificuldades com a nasalização do português. Já falantes de espanhol podem se beneficiar de um sistema vocálico mais estável, embora enfrentem outros desafios fonológicos.

Aprender diferentes línguas, portanto, não é apenas um processo linguístico, mas também cultural e cognitivo.

Referências e fontes de pesquisa
Odlin, Terence. Language Transfer: Cross-Linguistic Influence in Language Learning.
Cambridge University Press.
Ellis, Rod. Understanding Second Language Acquisition. Oxford University Press.
Cenoz, Jasone; Hufeisen, Britta; Jessner, Ulrike. Cross-linguistic Influence in Third Language
Acquisition.
Estudos sobre interferência fonológica e aquisição multilíngue:
Cambridge University Press – Cross-linguistic Influence in Multilingual Development.
Pesquisas sobre percepção fonológica e transferência articulatória em aquisição de L2 e L3.
Estudos comparativos sobre fonologia do português brasileiro, espanhol e alemão.
Conceitos gerais de fonética articulatória, fonologia e multilinguismo aplicados ao ensino de
línguas.
Observações pessoais desenvolvidas a partir do estudo acadêmico de português e alemão.

Conheça a banda austríaca “Sanguis et Cinis”

Joe Silva (como parte da extensão da disciplina Alemão I dos alunos do curso de Letras Alemão da UFPR)

Sanguis et Cinis: Biografia e Legado

Fundada em 1994 após o encontro entre Eve Evangel e Ashley Dayour, a banda austríaca Sanguis et Cinis consolidou-se como um dos nomes fundamentais da cena darkwave europeia. Seus primeiros passos foram marcados pela demo Requiem 1791, que trazia faixas emblemáticas como “Schicksalswölfe” e “Gedankensplitter”.

Trajetória

Em 1996, o lançamento do álbum de estreia, Schicksal, atraiu a atenção da gravadora MOS Records. Com o tempo, a formação passou por mudanças estratégicas: Eve buscou uma nova identidade visual para o grupo, integrando Celine Cecila Angel. Após a saída de Ashley Dayour e a passagem de membros como Arthur e Richard, a banda estabilizou-se como um trio.

A banda conquistou palcos internacionais, realizando shows memoráveis na Alemanha, Portugal, Itália e Áustria, além de turnês por locais tão distintos quanto México, África do Sul, Rússia e Estados Unidos. Dividiram festivais com ícones como Diva Destruction, Noctivagus e Within Temptation. Em 2003, o prestígio do grupo foi selado com a capa da revista alemã Orkus.

Nos anos 90, o grupo era um dos principais expoentes do Neue Deutsche Todeskunst, movimento que introduziu o idioma alemão na sonoridade darkwave. Com o tempo, sua estética evoluiu para uma fusão de Rock Alternativo e Rock Gótico.

Recomendações: O Som em Alemão Austríaco

Para quem deseja explorar a fase mais autêntica da banda, os álbuns abaixo são essenciais. Eles trazem letras inteiramente em alemão, mesclando sintetizadores atmosféricos com guitarras de timbres bem característicos:

  • Wie der unberührte Traum einer Jungfrau (Como o sonho intocado de uma virgem)
  • Schicksal (Destino)

Onde Escutar
Mergulhe na discografia oficial através das plataformas de streaming:

Capa do primeiro álbum lançado pela banda



Vaca austríaca impressiona pesquisadores por uso de ferramentas

Uma vaca austríaca simpática chamada Veronika viralizou nas redes sociais e impressionou biólogos, tudo isso porque usa uma vassoura para se coçar. Até aí, tudo bem: vários animais são capazes de usar ferramentas. O que chama atenção no caso de Veronika, porém, é o uso complexo que faz do objeto. Ela consegue usar a vassoura para se coçar e a ponta do cabo para se cutucar. O grupo de animais capazes do feito é bem mais seleto, e envolve chimpazés e humanos.

Veja a seguir um vídeo sobre Veronika feito pelo jornal Der Standard:

Além das muitas visualizações, o tema gerou também um debate sobre a relação entre humanos e animais e principalmente como vemos e pesquisamos outras espécies. Para ver mais sobre isso, recomendamos o texto de Eva Stanza no Wiener Zeitung (em alemão).

Para pessoas que ensinam ou aprendem alemão, a Deutsche Welle preparou um áudio e exercícios de compreensão sobre o tema. O material é indicado a partir do nível B1.

Exibição do Documentário: Schladming Misteriosa – a conexão dos Habsburgos com o Brasil

Herança da Áustria Schladming misteriosa – a conexão dos Habsburgos com o Brasil
O diretor Alexander Frohner e o autor Günter Fuhrmann desvendam o mistério de Schladming a partir daqui, viajando até o Brasil no rastro dos descendentes da arquiduquesa austríaca Leopoldina, que se casou lá.
Um de seus herdeiros, August Leopold, mais tarde fez de Schladming sua residência principal. O nativo de Coburg com raízes brasileiras atraiu a aristocracia internacional e artistas de toda a monarquia do Danúbio para a cidade alpina.

O documentário que mostra algumas das raízes austríacas no Brasil será exibido em Curitiba exclusivamente aos alunos da UFPR (por conta de direitos autorais) no dia 4 de junho, às 9:40.

Não perca!

O teatro do século XVIII ainda faz sentido hoje?

Você prefere encenações clássicas ou releituras provocativas? A peça Ifigênia em Táuris, de Goethe, é um exemplo perfeito para refletir sobre isso.

Inspirada na tragédia de Eurípides e escrita em 1779, a peça coloca Ifigênia em um dilema moral entre lealdade e liberdade, destacando o poder da razão e do diálogo. Ifigênia, sacerdotisa do templo de Diana na terra dos Táurios, luta para manter sua integridade moral em meio a um povo bárbaro. Quando seu irmão Orestes e seu amigo Pílades chegam à ilha em busca da estátua de Diana para expiar a culpa de Orestes, Ifigênia precisa escolher entre a lealdade à sua nova pátria e o desejo de retornar à Grécia. Diferente da versão trágica de Eurípides, Goethe enfatiza o poder da razão, da verdade e do humanismo, permitindo que o conflito seja resolvido sem violência, apenas pelo diálogo e pela honestidade de Ifigênia.

Na Áustria, duas montagens atuais interpretam essa história de formas bastante distintas, mas ambas dialogando com a realidade que estamos vivendo fora dos teatros:

Akademietheater (Viena) – Dirigida por Ulrich Rasche, a produção transforma o palco em uma experiência hipnótica: cenários monumentais, ritmos mecânicos, percussão intensa e atores em esforço físico constante. A peça vira um espetáculo visual e sonoro sobre poder, violência e resistência feminina. Assista um trecho:

Stadttheater Klagenfurt – Com direção de Ana Stepiani, essa versão foca na autossuficiência de Ifigênia como um manifesto pela desobediência e o empoderamento feminino. Em vez de uma tragédia distante, temos uma peça que questiona normas sociais e dá voz à luta pela liberdade.

Duas abordagens, um mesmo texto – e um convite à reflexão! E você, qual estilo prefere? Tradicional ou reinterpretado? 

Qual é a diferença entre encenar uma peça de teatro e um romance?

Nos teatros de Viena, é bastante comum vermos adaptações cênicas de romances, que não foram escritos para serem montados num palco. Entre eles, por exemplo, A montanha mágica, de Thomas Mann ou Metamorfose, de Franz Kafka – ambas as montagens podem ser vistas no Burgtheater. Mas transformar um romance numa obra cênica não é nada fácil e é bastante instigante pensar e observar tudo que acontece quando um romance (para cuja leitura precisamos vários dias ou semanas) se transforma numa apresentação teatral de uma, duas ou três horas. 

Outro exemplo, atualmente em cartaz no Volkstheater de Viena, é Malina, de Ingeborg Bachmann, um marco do movimento feminista pós-guerra: um romance icônico, mas pouco lido fora do círculo acadêmico. A encenadora Claudia Bauer – conhecida também pela aclamada montagem de humanistää, de Ernst Jandl – dá nova vida a essa obra, transformando-a em peça teatral. No palco, os muitos “Eus” da narradora são interpretados por sete atrizes diferentesque, em alguns momentos, dividem o palco simultaneamente, representando o turbilhão de vozes na cabeça da protagonista do romance. Malina se transforma assim em um espetáculo contemporâneo: dinâmico, cômico, divertido e em diálogo com as questões do nosso tempo. A peça tem lotado o teatro e conquistado novos públicos.

Publicado em 1971 – apenas um ano antes da morte trágica da autora –, Malina é um texto introspectivo que mergulha na complexidade da psique feminina. Fragmentado e inovador, o romance retrata a luta da protagonista sem nome para encontrar sua identidade em uma sociedade patriarcal. Entrelaçando sonhos, reflexões, cartas, telefonemas e versos poéticos, a história aborda sua convivência com Ivan, o amante ausente, e Malina, símbolo de estabilidade racional.

E vem mais por aí! Em janeiro de 2025, Claudia Bauer estreia no mesmo Volkstheater Krankheit oder Moderne Frauen(Doença ou mulheres modernas), de Elfriede Jelinek. Fique de olho, porque vamos trazer as novidades e críticas por aqui! 

Stefan Zweig e sua novela Xadrez (Schachnovelle) no Burgtheater

Está fazendo enorme sucesso no Burgtheater de Viena uma adaptação musical do famoso livro Xadrez, escrito por Stefan Zweig durante seu exílio no Brasil e considerada uma de suas obras-primas. O texto, uma narrativa em prosa, é ambientada em um navio que faz a travessia entre Nova York e Buenos Aires, onde se desenrola um confronto simbólico entre diferentes mundos e psicologias.

As personagens centrais são Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez, retratado
como um homem de poucas palavras, simples e intelectualmente limitado fora do tabuleiro, mas um gênio estratégico no jogo, e Dr. B., um enigmático passageiro que revela ter desenvolvido suas habilidades no xadrez de maneira peculiar e traumática.

Na montagem no Burgtheater, o encenador, ator e músico Nils Strunk parodia todos os personagens da trama, canta, atua e dança. O resultado é uma performance de ritmo acelerado, dançante, envolvente e com bastante suspense. O público adorou, está lotando todas as apresentações e ainda pede bis. Vale a pena dar uma espiada no trailer:

Ernst Jandl na floresta vienense – o Theater Dschungel Wien

Sabia que existe um teatro-floresta no centro de Viena, bem no meio do complexo arquitetônico MUSEUMSQUARTIER? O MQ é um centro cultural inaugurado em 2001, mas foi construído já no século XVIII, quando abrigava as cavalariças imperiais de Viena (Kaiserliche Hofstallungen).

O teatro Dschungel Wien apresenta apenas produções para o público infanto-juvenil. Este mês, entre outras peças, apresenta uma montagem de “Ottos Mops”, inspirado no famoso poema sonoro de Ernst Jandl em que usa apenas a vogal “o”. Leia, escute e assiste a leitura do poema aqui.