O fim do mundo ou um novo começo? Conheça a literatura de Karin Peschka

E se, de um dia para o outro, o nosso mundo desabasse? Se, de repente, nos encontrássemos sozinhos, rodeados da nossa cidade em ruínas, da nossa casa destruída e sem nenhum ser conhecido por perto? 

Ou se aquilo que é tido por muitos como o começo do fim da vida, a saída de casa dos filhos e a chegada da aposentadoria, fosse aproveitado como o começo de uma vida nova, longe dos padrões, convenções e medos que tanto nos dominaram até agora?

São questões dessa natureza que levam Karin Peschka, nascida no interior da Áustria em 1967, a escrever. E que tornam sua literatura relevante para os leitores e as leitoras de hoje. 

Para conhecer melhor a autora:

(Em alemão)
(Em alemão)

Em junho, a autora participa de um evento organizado pelo Centro Austríaco como parte da Semana da Língua Alemã 2021.

Nesse evento, a autora vai ler trechos de dois romances de sua autoria, “Autolyse Wien” [Autolise Viena] e “Putzt euch, tanzt, lacht” [Arrumem-se, dancem, riam!]. À leitura em língua alemã segue a apresentação da respectiva versão em língua portuguesa. Assim, temos a possibilidade não apenas de conhecer e conversar com uma das autoras mais populares da Áustria contemporânea, mas também de nos aproximar de seus livros, ainda sem tradução no Brasil. 

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In memoriam Friederike Mayröcker

por Luiz Abdala Jr.

Uma busca rápida pelo nome de Friederike Mayröcker no Google nos releva tratar-se de uma das maiores escritoras do século XX e XXI. Ainda pouco conhecida no Brasil, Mayröcker nasceu em 1924, há quase cem anos, em Viena. Os primeiros anos de vida foram tumultuados: não bastasse a meningite que a deixou seriamente doente na infância, os anos que se seguiram foram marcados pelas dificuldades econômicas do entre-guerras e mais tarde pela própria eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em 1946 publica seus primeiros poemas na revista antinazista Plan. Alguns anos depois, em 1956, publica seu primeiro livro: Larifari: Ein konfuses Buch [Larifari: Um livro confuso]. O título já demonstrava a vontade de transpassar os limites do convencional e do normativo, afinal, Larifari, em alemão, é uma gíria para designar tagarelice sem sentido ou conversa absurda. A estreia passou quase que completamente despercebida, entretanto era o início da obra daquela que viria a se tornar uma das mais profícuas autoras da língua alemã. 

Por esses anos Mayröcker aproxima-se do Grupo de Viena, importante grupo literário formado por escritores interessados nas experiências formais dos movimentos de vanguarda como modo de recriar a linguagem poética após a guerra. A poeta não chega a integrar diretamente o movimento, mas em 1954 encontra Ernst Jandl, um dos seus membros. Jandl e Mayröcker não apenas se tornam companheiros de vida, mas desenvolvem uma verdadeira relação literária, movida pelo amor à linguagem que ambos compartilhavam, por vezes dividindo leituras públicas e divulgando textos um do outro. Com a morte do poeta em 2000, a memória dessa relação foi materializada no livro de 2005 Und ich schüttelte einen Liebling [E eu abanei um amado], homenagem póstuma aos anos vividos com o companheiro e também tocante testemunho de um trabalho de luto. 

A aproximação com os movimentos de vanguarda marcou a linguagem poética de Mayröcker e diversos de seus textos levam essas características, principalmente advindas surrealismo. Porém, não se reduziram a esses princípios. Altamente inventiva, Mayröcker desenvolveu uma das linguagens mais singulares da literatura alemã do século XX, misturando marcas dialetais, línguas estrangeiras, associações livres, gírias e cultura pop. Além disso, é notória a presença da música e do canto como princípios estruturantes em seus poemas, que são marcados pela profusão formal de ecos, rimas inesperadas, repetições, combinações linguísticas, desvios sintáticos e uma verborragia controlada, extremamente precisa em termos de vocabulário e, com frequência, associada às ciências botânicas, agregando à fisicalidade do corpo humano potentes imagens naturais. Mayröcker também utilizou amplamente procedimentos de colagem e montagem, que geravam por vezes a impressão de uma multiplicidade de vozes em suas obras. Artista versátil, também desenhou, compôs libreto de ópera, escreveu histórias infantis e, talvez tão importante quanto a poesia e a prosa, escreveu diversas peças radiofônicas, inclusive em parceria com Jandl.  Sua entrega à escrita foi incansável e resultou numa obra de mais de 80 livros, sendo o último, da ich morgens und moosgrün. Ans Fenster trete (algo próximo de “pois eu de manhã e verde-musgo. Chego à janela”), publicado no ano passado pela editora Suhrkamp. A lista de prêmios ganhos, também, não é de número pequeno, e entre eles estão o Prêmio Peter Huchel e aquele que é, provavelmente, o mais importante prêmio da língua alemã, o Prêmio Georg Büchner. 

Apesar de ser uma lacuna no mercado editorial brasileiro, sua língua circula na nossa ao menos desde 1994, quando o poeta Leonardo Froés traduziu o poema Wird welken wie Gras (na tradução: “Vai secar como a grama”) para uma edição da Revista Poesia Sempre, que pode ser acessada aqui. Todavia, o principal divulgador da poesia de Mayröcker no Brasil é o poeta Ricardo Domeneck, que traduziu e publicou uma seleta de poemas no seu antigo (e muito vivo) blog “modo de usar & co”, que podem ser acessados aqui e aqui. Um viva aos tradutores, que como um dia escreveu Ana Martins Marques sobre um poema, são meus únicos heróis. Também não falta material na internet sobre Mayröcker, como vídeos de algumas de suas leituras, sempre em seus trajes pretos, tal esta aqui, de 2016.

Ontem, no dia 4 de junho de 2021, Friederike Mayröcker faleceu em Viena. A língua teve um dia triste, mas é grata pelo privilégio do amor de uma de suas maiores artífices. Viva, Fritzi!

18 de março marca 80 anos do nascimento de Wolfgang Bauer

O “Bukowski da Estíria” chega ao Brasil: Os microdramas de Wolfgang Bauer em tradução

Também chamado de “Magic Wolfi”, “o Bukowski da Estíria” ou “terror da burguesia”, Wolfgang Bauer foi um dos maiores dramaturgos austríacos da segunda metade do século XX. Elfriede Jelinek o chamou de “maior dramaturgo” da Áustria e destaca, sobretudo, seus microdramas. Peter Handke refere-se a Bauer como único “gênio” entre os jovens literatos austríacos dos anos 1960. Em 18 de março, Bauer faria 80 anos se não tivesse falecido em 2005, em parte em consequência de seu estilo de vida exagerado. No Brasil, o autor continua praticamente desconhecido e pouco traduzido, embora parte de um dos seus romances, Fieberkopf [Cabeça febril] seja ambientado no Brasil. Além desse romance, Bauer escreveu poemas, dramas, manifestos, críticas, ensaios etc.

Foi sobretudo como dramaturgo que seu potencial provocativo, questionador e inovador se mostrou com força, mas as realizações artísticas de Bauer como letrista, romancista e escritor de longas-metragens também são extremamente bem sucedidas e populares, sempre questionando os limites dos gêneros e suas convenções. 

Wolfgang Bauer na cerimônia de entrega do Großen Österreichischen Staatspreises, em 1995.
Fonte: Wolfgang Bauer: Werk – Leben – Nachlass – Wirkung, por Thomas Antonic.

Famigerado nos anos 1960 até 1990 na Europa, Bauer obteve grande sucesso com seus dramas também nos Estados Unidos, graças a traduções e aos esforços de Martin Esslin, que o inclui na sua lista dos representantes do teatro do absurdo (Esslin, O teatro do absurdo, 2018). Depois de uma fase de pouca presença nos palcos, o autor foi redescoberto e ganhou nova fama em 2015, quando foi encontrado um drama seu até então desaparecido: Der Rüssel [A tromba], peça montada com grande sucesso em 2018 no Wiener Akademietheater. Outra peça, recentemente levado ao palco pelo Volkstheater de Viena, é Magic Afternoon, cujo tema é o vazio existencial da juventude numa cidade europeia do século XX. Sua peça Change é a única que já foi traduzida para o português, publicada em 1978 em forma de caderno pelo Instituto Goethe e disponível hoje apenas em algumas bibliotecas dessa mesma instituição.

Neste momento, estão sendo vertidos para o português os 21 microdramas de Wolfgang Bauer, num projeto de tradução do Centro Austríaco, executado por Ruth Bohunovsky e Hugo Simões. Inspirados no teatro de Eugène Ionesco, Wolfgang Bauer escreveu essas miniaturas dramáticas no início dos anos 1960. São peças para serem lidas ou encenadas com grande criatividade (como, por exemplo, essa montagem no teatro Kabinetttheater de Viena, ou ainda essa montagem musical e dramática inspirada por Bauer, que conta com a apresentação de três dos seus microdramas), pois colocam em questão praticamente todas as convenções do gênero dramático. Seus protagonistas são personagens históricas ou míticas conhecidas, de Martinho Lutero até Lucrécia Bórgia, do faraó Ramsés até Joseph Haydn, dos três mosqueteiros até Richard Wagner, mas o público-leitor certamente não encontra narrativas ou representações cénicas que correspondem a suas expectativas tradicionais.

Para saber mais sobre os objetivos e a recepção dos microdramas de Wolfgang Bauer, veja aqui um artigo de Ruth Bohunovsky, ou esse texto do Der Standard (em alemão) sobre a importância da obra de Bauer hoje. Mas, melhor que falar sobre Wolfgang Bauer e seus textos absurdos, cômicos e, ao mesmo tempo, instigantes, é lê-los. Leia aqui “Ramsés”, um dos microdramas, em uma tradução ainda provisória:

Ramsés

(sem intervalo)

Primeiro quadro:

Nas colinas da Irlanda do Norte. Granizo retumbante. Chuva densa. Baleias voam pelo ar. Ramsés, fantasiado de Napoleão, dá uma palestra frente ao clero irlandês. Não dá para ouvir nada, já que as gaivotas estão gritando muito, por causa das baleias voadoras. 

Ramsés: … (O clero, aos risos, se afasta)

Cai o pano.

Segundo quadro:

Um templo em chamas (incêndio total do templo). O teatro está se enchendo de fumaça. Ramsés encontra-se em algum lugar no meio das chamas, não é possível vê-lo. O teatro está tomado pelo cheiro de roupas queimadas. Estalos. Fumaça. Explosão.

Ramsés: (dos bastidores): Socorro! Socorro!

Cai o pano. 

Terceiro quadro:

O palco está cheio de água. Dentro dela, vários tipos de peixe estão nadando. (Tubarões, carpas, polvos, enguias, eventualmente baleias. Por motivos de simplificação, podem ser usadas as baleias do primeiro quadro.) Ramsés está for da água, proferindo uma de suas palestras populares. Está chovendo. Olhando a partir de baixo, é possível ver as gotas caindo na água. Raramente, um remo bate na água. Não é possível ouvir nada da palestra de Ramsés, devido à grande quantidade de água que está entre ele e o público.

Ramsés: …

Cai o pano.

Quarto quadro:

Cairo. O palco oferece um panorama da cidade, absolutamente preciso em termos geográficos. Ramsés encontra-se em algum lugar bem distante, proferindo sua famosa fala de denúncia (mesmo fazendo muitos inimigos…). Não é possível ouvi-lo. Os gritos das feirantes abafam tudo.

Ramses: …

Cai o pano.

Quinto quadro:

Ramsés está deitado na sua cama, morto apunhalado. Um quarto luxuoso. Entra um lacaio …

Lacaio: Salve, Ramsés!

Cai o pano.

Fim.

 

90 anos de Thomas Bernhard

Hoje, Thomas Bernhard faria 90 anos. Em homenagem a esse grande escritor original, provocativo, perturbador e, ao mesmo tempo, um clássico da literatura em língua alemã, republicamos um texto de Cristóvão Tezza sobre o autor austríaco, de cuja obra é fã declarado. As seguintes linhas foram publicadas originalmente na orelha do livro “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard” (Konzett, 2014, editora da UFPR). Segue ainda uma lista de todas as publicações de obras bernhardianas no Brasil até 2020.

Thomas.Bernhard.jpg: Thomas Bernhard Nachlaßverwaltungderivative work: Hic et nunc, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Sobre a literatura de Thomas Bernhard
por Cristovão Tezza

Para quem acredita que a infelicidade produz boa literatura, o caso Thomas Bernhard é exemplar. Filho de mãe solteira na Áustria conservadora dos anos 1930, prestes a ser invadida por Hitler, estudou num internato nazista de Salzburg, sobrevivendo aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Quando o retrato do Führer foi substituído pelo do Papa, o jovem Thomas não sentiu “nenhuma mudança visível”. Aos 18 anos, passou mais de um ano internado, sofrendo de uma doença pulmonar que o acompanharia como um fantasma até sua morte, em 1989. Depois de escrever alguns poemas juvenis que ainda reverberavam uma imagem idílica da antiga Áustria, Thomas Bernhard explodiu nos anos 1960 com o livro “Geada” (ainda sem tradução no Brasil), seguido de uma sequência impactante de romances e peças. Sua ficção revelava um escritor agressivo, espetacular e performático, alguém que se tornaria simultaneamente o mais odiado e mais amado artista austríaco de seu tempo.

O eixo principal de suas provocações de gênio, na literatura e na dramaturgia, está na lembrança obsessiva e obstinada de que a Áustria havia abraçado prazerosamente o nazismo, durante os sete anos em que esteve sob dominação alemã, numa cooptação que o país esqueceria em seguida, criando uma fantasia moral de seu próprio passado. Contra esta amnésia coletiva, Bernhard dedicou quase que cada uma das linhas que escreveu. Mas, o que poderia ter sido apenas uma arte panfletária politicamente localizada, nas suas mãos se tornou uma voz literária incontornável, de um pessimismo transcendente e transnacional.

Sua linguagem é, frase a frase, uma constatação instantânea, repetitiva e permanente de um desastre avassalador e irredimível, numa espécie terrível de profecia circular que se autorrealiza. Ao mesmo tempo, seu texto é irresistível, desafiando os limites do cômico e do trágico sem jamais se entregar ao conforto do relativismo pós-moderno.

Em: Konzett, Matthias (org.). O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard. Tradução por Ruth Bohunovsky. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

Publicações de Bernhard no Brasil

Prosa:
Árvores Abatidas (Holzfällen) (1991), tradução de Lya Luft
O sobrinho de Wittgenstein (Wittgensteins Neffe) (1992), tradução de Ana Maria Scherer
O náufrago (Der Untergeher) (1996, segunda edição 2006), tradução de Sergio Tellaroli
Perturbação (Verstörung) (1999), tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo
Extinção (Auslöschung) (2000), tradução de José M. M. de Macedo
O imitador de vozes (Der Stimmenimitator) (2009), tradução de Sergio Tellaroli
Meus Prêmios (Meine Preise) (2011), tradução de Sergio Tellaroli
Origem (Autobiographische Bände) (2006), tradução de Sergio Tellaroli

Teatro (peças publicadas):
O fazedor de teatro (Der Theatermacher) (2017), tradução de Samir Signeu
O presidente (Der Präsident) (2020), tradução de Gisele Eberspächer, Paulo R. Pacheco Jr.,
Ruth Bohunovsky
Praça dos Heróis (Heldenplatz) (2020), tradução de Christine Röhrig

Obra redescoberta: Friderike Maria Zweig

Talvez você já tenha ouvido aquele dizer antigo de que atrás de todo grande homem existe uma mulher. Bom, atrás do escritor austríaco Stefan Zweig existia uma grande mulher, com história e carreira encobertas pela fama do marido. Mas felizmente a vida e os textos de Friderike Maria Zweig (1882-1971), primeira esposa do autor, estão sendo redescobertos em 2021. 

Uma das primeiras mulheres a serem aceitas na Universidade de Viena, deixou uma obra composta por contos, romances, trabalhos biográficos e traduções do francês para o alemão, além de ter sido professora, ter ajudado Zweig com sua obra de inúmeras maneiras e ter tido um papel importante na disseminação da cultura austríaca.

Antes de seu casamento com Zweig, Friderike foi casada com Felix von Winternitz, com quem teve duas filhas. Ela conheceu Zweig em 1912 e, depois de se divorciar do primeiro marido, começou a morar com o autor em um lindo casarão em Salzburg (Paschinger Schlössl), a partir de 1919. Friderike deixa de se dedicar ao seu próprio trabalho e se torna a “guardiã da tranquilidade” do marido – garantindo assim um contexto em que ele conseguisse elaborar sua grande obra. Em 1937, se divorcia de Zweig, que se casa com sua secretária Lotte (com quem se muda para o Brasil e se suicida em 1942). 

No ano que marca o aniversário de 50 anos da morte de Friderike, o Stefan Zweig Zentrum Salzburg publicou um caderno com uma apresentação sobre a autora, como um “primeiro passo” para a redescoberta de sua obra. Os artigos do material apresentam os diários escritos pela autora durante a guerra, assim como seu trabalho em prol da paz e da liberdade. Além disso, durante o ano de 2021, acontecem vários eventos sobre Friderike, organizados pelo Stefan Zweig Zentrum em Salzburgo (sob o título “Friderike ‘Zweig’ e a intelectualidade feminina no começo do século XX”), assim como a edição da correspondência entre Stefan Zweig e Friderike e uma exposição sobre a autora.  

KALLIOPE: Trude Fleischmann

Saiba mais sobre a fotógrafa vienense que, fugindo do nazismo, se estabeleceu em Nova York, onde fez retratos de grandes pessoas do seu tempo. Veja o documentário na íntegra aqui.

A exibição dos documentários é parte de uma parceria entre o Centro Austríaco e a Embaixada da Áustria.

Clique aqui para conhecer a exposição Kalliope – Mulheres na Sociedade, na Cultura e na Ciência. A seguir, veja a programação completa de exibição de documentários:

Autores austríacos publicados no Brasil para conhecer em 2021

Não é necessário comentar que 2020 foi um ano desafiador. Por isso, indicamos três autores austríacos que, apesar de terem suas obras publicadas há algum tempo, podem nos ajudar a pensar os tempos de hoje. 

O mundo insone, Stefan Zweig

(Zweig, Stefan. O mundo insone e outros ensaios. Trad. Kristina Michahelles. Rio de Janeiro: Zahar, 2013). 

Nesta coletânea de ensaios, Stefan Zweig (1881-1942) passa por muitos temas: da questão judaica à arte, de Montaigne a Freud, passando por Hesse e Roth. Mas é justamente no ensaio que dá título ao livro, O mundo insone, que lemos o sentimento de Zweig perante às tragédias do mundo – nesse caso, o começo da Primeira Guerra Mundial. 

“Há menos sono no mundo agora, as noites são mais longas e mais longos os dias. Em cada país da infinita Europa, em cada cidade, cada ruela, cada casa, cada aposento, a respiração tranquila do sono tornou-se curta e febril, e o tempo ardente abrasa as noites e confunde os sentidos, tal qual uma noite de verão abafada e sufocante”, relata Zweig.

O conflito cresce e o sono desaparece. Com a experiência de alguém que passou por uma quantidade considerável de conflitos para uma vida, Zweig narra as mudanças da sua idealizada Viena enquanto vê seus ideais ruírem. O ensaio descreve um período de ansiedade e incertezas crescentes e se tornando cada vez mais comuns na vida de todos.

O tempo adiado e outros poemas, Ingeborg Bachmann

(Bachmann, Ingeborg. O tempo adiado e outros poemas. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Todavia, 2020). 

Ingeborg Bachmann (1926-1973) fez parte da geração de escritores que produziram logo depois da Segunda Guerra Mundial, e pensaram uma linguagem e uma literatura capazes de descrever e lidar com os acontecimentos e sentimentos dos anos anteriores. 

Nesse contexto, Bachmann dedica muitos dos seus poemas a um espaço interno, dando atenção ao sentimento do indivíduo diante do mundo, trazendo poesia e lirismo a tempos de pouca esperança. 

Mas para onde iremos
don’t worry, don’t worry
quando escurecer e esfriar

Praça dos heróis, Thomas Bernhard

(Bernhard, Thomas. Praça dos Heróis. Trad. Christine Röhrig. São Paulo: Temporal, 2020). 

Thomas Bernhard (1931-1989) é uma das grandes vozes críticas de seu tempo. Nessa peça, que se passa em um 1989 que lembra muito 1938, ano da anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, o autor reflete sobre um passado que não se encerra e não se digere, com ideias voltando ciclicamente para o espaço público e encontrando eco em uma nova geração. 

Eu não posso deixar o apartamento
só porque você ouve essa gritaria da Praça dos Heróis
ele sempre repetia
significaria que pela segunda vez esse Hitler
me expulsou do meu apartamento

Uma retrospectiva da literatura austríaca em 2020

Em 2019, Peter Handke ganhou o Prêmio Nobel de Literatura – uma notícia divulgada no mundo todo. Mas na própria Áustria há também uma série de prêmios literários que são outorgados para homenagear autores renomados, estimular jovens talentos ou dar visibilidade a obras de destaque. A seguir, juntamos informações e curiosidades sobre alguns desses prêmios e seus vencedores do ano de 2020, oferecendo assim uma pequena retrospectiva sobre o cenário literário austríaco nesse ano distante de qualquer normalidade.

Clemens Setz. By Lesekreis – Own work, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22763817

Começamos com o escritor que, no entender de muitos (“As evil as Nabokov, as virtuosic as David Foster Wallace“, Welt am Sonntag; “One of the highest hopes of German literature“. Frankfurter Allgemeine Zeitung), é o autor mais promissor no cenário da literatura austríaca atual: Clemens Setz, nascido em 1982 e autor de diversos livros; entre eles, Die Stunde zwischen Frau und Gitarre [A hora entre mulher e violão, em tradução livre], um romance de aprox.. 1000 páginas que trata de um stalker, de raiva e vingança e dos abismos cotidianos. Já ganhou vários prêmios para literatura; em 2020, foram dois prêmios alemães: O Jakob-Wassermann-Literaturpreis e o importante Prêmio Kleist. Setz é também tradutor, além de autor de prosa e textos teatrais. Após sair, em 2019, uma coletânea de contos, com personagens que sempre se encontram na fronteira entre a “normalidade” e algum “desvio psíquico” (Der Trost runder Dinger [O consolo das coisas redondas]), publicou recentemente um livro não ficcional sobre línguas planejadas (Die Bienen und das Unsichtbare [As abelhas e o invisível, em tradução livre]). Veja aqui mais informações e alguns trechos de O consolo das coisas redondas em português.

Drago Jančar por By Michal Klajban – Own work, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9566724

O Prêmio Nacional da Áustria para Literatura Europeia foi outorgado este ano ao escritor esloveno Drago Jančar. Além do presidente austríaco Alexander van der Bellen, estava presente na premiação o escritor Peter Handke, contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2019 e que atua também como tradutor do francês e do esloveno.

Xaver Bayer por By Manfred Werner – Tsui – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4821919

O Prêmio Austríaco do Livro (Österreichischer Buchpreis) de 2020 foi concedido ao escritor Xaver Bayer, para seu livro Geschichten mit Marianne [Histórias com Marianne, em tradução livre]. Um livro nada convencional, de humor ácido e grande comicidade que começa com as seguintes palavras; “Hoje, Marianne parecer ter planos especiais para mim. Percebo isso assim que ela me acorda, um tanto rude, com vários tapas na cara”. São vinte contos que tratam das
“brincadeiras”, nem sempre inocente e bem-intencionadas, de um casal. A competição lúdica em que os dois entram é muito mais perigosa do que aparenta, as reviravoltas são as piores possível e o fim trágico. A júri responsável pela atribuição do prêmio defendeu que “Xaver Bayer ilumina os espaços do medo dos nossos tempos com um humor raivoso e muitas vezes melancólico”. Mais sobre Xaver Bayer aqui, num artigo do jornal Der Standard em ocasião de sua premiação.

Kathrin Röggla por By Amrei-Marie. – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18574983

Na categoria Literatura, o Prêmio Austríaco para as Artes foi concedido em 2020 para Kathrin Röggla. Autora austríaca de prosa, drama, ensaios, instalações artísticas e peças radiofônicas, ela mora em Berlim e é bastante ativa no mundo literário e artístico da Alemanha. Seu último livro de prosa saiu em 2017, Nachtsendung: unheimliche Geschichten [Programa noturno: histórias infamiliares, em tradução livre]: Um congressista que desaparece. Um avião que não decola. Uma ilha que se extingue. Uma criança instaura uma ditadura. A violência que eclode. São as pequenos absurdos e rupturas no cotidiano que dominam a literatura de Röggla.

O Prêmio Veza-Canetti, outorgado pela prefeitura de Viena, foi criado em 2014, em homenagem à esposa do famoso Elias Canetti e no intuito de valorizar e dar visibilidade a escritoras que são de ou moram em Viena. Veza era amiga de Karl Kraus, tradutora e escritora, além de “conselheira literária” de seu marido. Durante toda sua vida e nas décadas posteriores, ficou na sombra de seu renomado companheiro, não publicou nada enquanto vivia e não há nenhuma menção sobre sua atividade literária na autobiografia de Elias Canetti. Veza morreu em 1963 e foi apenas em 1990 que Elias Canetti autorizou que fossem publicados alguns escritos da esposa (veja aqui informações em inglês sobre uma biografia dessa autora recém “descoberta”). No Brasil, saiu em 1992 A rua amarela, de autoria de Veza. Em 2020, a vencedora do prêmio Veza-Canetti foi Elisabeth Reichart, autora de textos feministas de diversos gêneros e que tratam, entre outros assuntos, sobre o passado nazista de seu país.

Elfriede Jelinek. By The original uploader was Ghuengsberg at English Wikipedia. – Transferred from en.wikipedia to Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3698206

O Prêmio Nestroy é concedido todo ano em várias categorias do mundo teatral, desde a melhor peça até a melhor produção alternativa. Em 2020, um ano extremamente difícil para os teatros – que ficaram, durante muitos meses, de portas fechadas –, o prêmio para a melhor peça foi para Schwarzwasser [Água de esgoto, em tradução livre], de Elfriede Jelinek. A obra leva ao palco o maior escândalo político da Áustria dos últimos anos, responsável pela dissolução do governo em 2019: o “caso Ibiza”. Além disso, em 2020, foi criada uma categoria nova do Prêmio Nestroy: Prêmio Especial Corona. Foram premiadas produções em formatos inovadores e experimentais: uma performance interativa em forma de filme, uma peça de teatro via ZOOM; leituras online que saem da sala de estar dos atores/das atrizes e chegam nas salas de estar dos espectadores; vídeos com monólogos escritos por autores austríacos em 2020 e lidos por atores do grande Burgtheater. Para mais informações: https://www.nestroypreis.at/

Paul Celan: Poeta entre línguas

Hugo Simões apresenta sua pesquisa de mestrado, intitulada “A tradução do que se cala: Paul Celan entre genocídios”, disponível em https://www.academia.edu/36877647/SIM… , com participação da Dr. Irene Giner-Reichl, embaixadora austríaca no Brasil, e do pianista Jonathan Silva, que executa as seguintes peças:

  • Ponteio No. 49 — C. Guarnieri
  • Ponteio No. 1 — C. Guarnieri
  • Ponteio No. 17 — C. Guarnieri

Hölderlin Vanguarda: Desejo de Elfriede Jelinek

Palestra de Uta Degner da Universidade de Salzburg sobre “Hölderlin Vanguarda: Desejo de Elfriede Jelinek”, no âmbito de um ciclo de palestras sobre Hegel e Hölderlin, organizada pela UFRGS (Centro de Estudos Europeus e Alemães). Na sua fala, Degner aborda um dos aspectos mais características da obra de Jelinek, sua intertextualidade criativa (aqui, com foco na poesia de Hölderlin). Depois, discute com especialistas brasileiras sobre a obra da escritora e dramaturga austríaca, inclusive sobre aspectos e problemas da tradução. A palestra é em alemão, mas acompanhada por tradução em língua portuguesa e boa parte da conversa acontece também em português. Em breve, todo o vídeo será legendada.