Lançamento: Uma festa para Boris, de Thomas Bernhard, em tradução brasileira

Demorou, mas chegou: mais uma tradução de uma peça de Thomas Bernhard: “Uma festa para Boris”.

Depois de “O presidente”, publicada em 2020 numa tradução de Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco Júnior, a peça que acabou de chegar à livraria da UFPR é a segunda que foi traduzida por membros do Centro Austríaco (Hugo Simões e Luiz Abdala Jr.). Escrita e estreada em Salzburg em 1970, é a primeira grande peça do dramaturgo austríaco, está presente nos palcos europeus até hoje e contém tudo que torna a escrita literária e dramatúrgica do autor polêmico tão inconfundível: une o trágico com o cômico, o grotesco com o filosófico, um humor sombrio e um ritmo único na linguagem, manias monológicas das personagens centrais e relações humanas marcadas pelo cinismo, a crueldade e a incompreensão mútua, mas também pelo absurdo e o medo inerente à existência humana.

Como todas as peças de Thomas Bernhard (que, frequentemente, é comparado com Beckett e Sartre), “Uma festa para Boris” não se destaca pela ação, pelo enredo, mas pelas falas de teor existencialista, pela ironia e pelo olhar satírico e cruel sobre a sociedade contemporânea. A personagem central se chama a Bondosa, mas tudo o que lhe falta é a bondade. A peça apresenta os preparativos e a festa de aniversário que ela organiza para seu marido, Boris – que, assim como sua esposa e os outros 13 moradores do “Asilo de Aleijados”, não tem pernas e se locomove em uma cadeira de rodas. E, como sempre, o final é bernhardiano.

Além da tradução completa da peça, o livro traz um prefácio do encenador teatral, músico e mediador de literatura Flávio Stein, um posfácio de Manfred Mittermayer, especialista na obra de Bernhard e coordenador do Arquivo Literário de Salzburg, além de textos introdutórios de Helmut Galle (USP) e do tradutor e escritor Antônio Xerxenesky.

Com as festividades natalinas chegando, nada melhor do que presentear alguém com um livro que pode render um bom assunto para a ceia de Natal!

Acesse o site da editora clicando aqui.

Centro Austr´íaco lança material sobre escritor Peter Handke

O Centro Austríaco lança um novo material sobre a obra de Peter Handke no Brasil. A pesquisa foi feita pela aluna de Iniciação Científica Helena Nazareno Maia e conta com um levantamento das suas obras publicadas no Brasil e sua recepção em ambientes acadêmicos e midiáticos. Veja mais aqui.

Peter Handke é um romancista, dramaturgo, poeta e roteirista austríaco, premiado com o Nobel da Literatura em 2019. Nascido em Grippen, uma pequena cidade no sul da Áustria, sua carreira literária se iniciou no ano de 1964, quando, estudante de direito em Graz (Áustria), tornou-se membro do grupo literário Grazer Gruppe – do qual Elfriede Jelinek e Wolfgang Bauer também foram integrantes. Apesar do sucesso comercial e crítico nos anos seguintes, sua imagem publica foi abalada quando, na década de noventa, ele se posicionou ao lado do governo sérvio durante a Guerra na Iugoslávia. Hoje o autor vive relativamente isolado das mídias e notícias, residindo em Chaville, na França, desde 1990. A prática de responder às críticas por meio de longos ensaios ou livros continua a ser adotada por ele, que, no entanto, tem-se dedicado a uma poética cada vez mais introspectiva.

A publicação faz parte de um projeto do Centro Austríaco de divulgar e traduzir (integralmente ou pelo menos em parte) textos dramáticos de língua alemã. Nosso objetivo é apresentar dramaturgos (sobretudo) do teatro austríaco (modernos e contemporâneos), com a disponibilização de informações relevantes a respeito de suas vidas e em especial de suas obras dramatúrgicas. Saiba mais sobre o projeto aqui e conheça os demais materiais já publicados: Wolfgang Bauer, Thomas Bernhard e Elfriede Jelinek.

Quem é Elfriede Jelinek? Saiba mais sobre a autora em novo material do Centro Austr´íaco

O Centro Austríaco lança um novo material sobre a obra de Elfriede Jelinek no Brasil. A pesquisa foi feita pelo aluno de Iniciação Científica Alisson Guilherme Ferreira e conta com trechos traduzidos da obra da escritora austríaca, assim como um levantamento das suas obras publicadas no Brasil e sua recepção em ambientes acadêmicos e midiáticos. Veja o material aqui.

Nobel de Literatura de 2004, Jelinek se destaca como um dos grandes pilares do teatro austríaco, com peças inteligentes e provocativas, na mesma medida que sagazes e cômicas, partindo muitas vezes de acontecimentos e tragédias da vida real para gerar reflexão sobre gênero, classe, política etc., em que os temas nunca se esgotam, mas se desdobram num macramê linguístico.

A publicação faz parte de um projeto do Centro Austríaco de divulgar e traduzir (integralmente ou pelo menos em parte) textos dramáticos de língua alemã. Nosso objetivo é apresentar dramaturgos (sobretudo) do teatro austríaco (modernos e contemporâneos), com a disponibilização de informações relevantes a respeito de suas vidas e em especial de suas obras dramatúrgicas. Saiba mais sobre o projeto aqui e conheça os demais materiais já publicados: Wolfgang Bauer e Thomas Bernhard.

Centro Austríaco lança material sobre Thomas Bernhard

O Centro Austríaco lança um novo material sobre a obra de Thomas Bernhard no Brasil. A pesquisa foi feita pela aluna de Iniciação Científica Helena Nazareno Maia e conta com trechos traduzidos da obra do escritor austríaco, assim como um levantamento das obras do autor publicadas no Brasil e sua recepção em ambientes acadêmicos e midiáticos. Veja o material aqui.

Dramaturgo, romancista e ensaísta, Thomas Bernhard ficou conhecido como uma espécie de destruidor na literatura austríaca, pela voz dura e sempre pessimista, carregada de hipérboles violentas e estruturas repetitivas – certas vezes, de efeito cômico – que emulam a estrutura de obsessões e não deixam espaço para qualquer perspectiva redentora do mundo. Na obra bernhardiana, o diálogo íntimo com os problemas da nação chegou cedo, desde a publicação de seu primeiro trabalho em prosa, o romance “anti-patriótico” ou “anti-pátria” (Anti-Heimat-RomanGeada [Frost] de 1963. A ele se seguiriam anos de intensa produção literária, marcados por constantes controversas com a crítica e o público.

A publicação faz parte de um projeto do Centro Austríaco de divulgar e traduzir (integralmente ou pelo menos em parte) textos dramáticos de língua alemã. Nosso objetivo é apresentar dramaturgos (sobretudo) do teatro austríaco (modernos e contemporâneos), com a disponibilização de informações relevantes a respeito de suas vidas e em especial de suas obras dramatúrgicas. Saiba mais sobre o projeto aqui e conheça o material já publicado sobre Wolfgang Bauer aqui.

Teatro austríaco: inovação, provocação e riso

por Alisson Guilherme Ferreira

Burgtheater, em Viena.

O teatro é, sem sombra de dúvidas, um ponto alto nas culturas e nas literaturas de expressão alemã, e é certo que a Áustria viu toda uma tradição teatral florescer após o fim da Segunda Guerra Mundial, dando continuidade a uma forte presença e relevância do teatro na vida cultural do país, acima de tudo em Viena. Surgiu uma pletora de dramaturgos (mulheres, homens e everything in between), que, com certeza, tinham e têm muito a dizer e encontraram no teatro, cada um à sua maneira, a forma (ou uma das formas) para (se) exprimir no que concerne não somente aos efeitos do pós-guerra para a Áustria e para o mundo, como no que concerne àquilo de mais íntimo do ser humano e às questões que sempre estiveram presentes nas sociedades. Além disso, não é nada incomum que, multifacetados como foram ou são, os muitos autores teatrais que vieram nessa onda enveredem por outros gêneros, afora o teatro, e obtenham também neles sucesso.

No entanto, por mais que possuam reconhecimento internacional pelas suas contribuições artísticas, com a atribuição de homenagens e prêmios importantes a eles, estes autores são, via de regra, pouco conhecidos, senão completos desconhecidos, do público brasileiro em geral. Isto se deve em boa medida ao fato de que são raras as traduções e publicações de suas obras como um todo disponíveis em língua portuguesa no país.

E, tendo em vista tanto a falta de publicação de textos dramáticos traduzidos quanto o status do teatro no Brasil, onde os recursos são escassos e onde, querendo ou não, ele não é tão prestigiado quanto poderia e deveria ser — até mesmo porque não alcança todas as classes sociais, configurando, ainda nos tempos atuais, um programa bastante elitizado —, essa escassez se reflete na falta de montagens e/ou encenações e/ou leituras dramáticas produzidas a partir das peças de dramaturgos austríacos. É claro, alguns deles desfrutam de uma maior visibilidade no círculo literário-teatral nacional, mas mesmo estes possuem um vasto acervo a ser descoberto e explorado.

Assim, o projeto do Centro Austríaco de divulgar e traduzir (integralmente ou pelo menos em parte) textos dramáticos de língua alemã se insere no referido contexto. Nosso objetivo é apresentar dramaturgos (sobretudo) do teatro austríaco (modernos e contemporâneos), com a disponibilização de informações relevantes a respeito de suas vidas e em especial de suas obras dramatúrgicas, assim como o acesso a trechos de algumas delas em tradução para o português e, por fim, um inventário, cujo conteúdo visa divulgar aquilo que foi produzido no Brasil sobre eles, a nível acadêmico, jornalístico, ensaístico e literário. Desse modo, o público interessado encontrará no nosso site informações e passagens de obras selecionadas de diversos dramaturgos austríacos que, no nosso entender, têm potencial para entrar num diálogo criativo, performático ou literário, com leitores(as), diretores(as), atrizes e atores, produtores(as) teatrais no Brasil.

O projeto dá conta, neste primeiro momento, dos seguintes autores: George Tabori, Thomas Bernhard, Wolfgang Bauer, Peter Handke e Elfriede Jelinek. E se encontram em fase de elaboração verbetes sobre Clemens Setz e Arthur Schnitzler.

Conheça mais sobre o projeto aqui.

Conversa com a autora Melanie Laibl já está disponível no YouTube do Centro Austríaco

Já está disponível no YouTube do Centro Austríaco a conversa “Kinderliteratur: Lust auf Sprache wecken”, com Melanie Laibl. Durante a conversa, a autora austríaca de livros infantis nos conta como combinar imaginação e conhecimento de forma a despertar o interesse das crianças em aprender alemão e conhecer o mundo. Ela também fala sobre seu trabalho como escritora. Seus contos de linguagem lúdica já receberam diversos prêmios, incluindo o Prêmio de Literatura Infantil da Cidade de Viena e o Prêmio do Livro de Ciências na categoria Conhecimento Júnior. É possível ver mais informações sobre a autora e seus contos em seu site clicando aqui.

Deutscher Buch Preis 2022

O Deutscher Buch Preis é um prêmio renomado concedido anualmente ao melhor romance em língua alemã do ano. Os 20 indicados para o prêmio de 2022 foram anunciados essa semana – a lista completa pode ser conferida no site do prêmio. (https://www.deutscher-buchpreis.de) Entre eles, se encontram alguns autores austríacos: 

Marie Gamillscheg concorre ao prêmio com o seu segundo romance, “Aufruhr der Meerestiere” (A Rebelião dos Animais Marítimos, em tradução livre). O livro é sobre uma mulher chamada Luise que volta a morar em Graz, sua cidade natal (assim como a autora), mas para isso precisa rever seu pai enfermo e reatar a relação entre os dois. O livro busca explorar os laços entre homem e natureza e os laços familiares, trazendo tais sentimentos à tona para o leitor. 

Reinhard Kaiser-Mühlecker, nascido em Hallwang, também traz um drama familiar com o livro “Wilderer” (Caçador), explorando como os aspectos filosóficos do existencialismo e do mundo contemporâneo podem afetar o psicológico de todos, até mesmo de Jacob, um pai e marido antes feliz com sua vida serena, mas que agora luta contra sentimentos de raiva que a um tempo não sentia.

Anna Kim nasceu na Coréia do Sul, mas se mudou para a Áustria poucos anos depois. Laureada austríaca do prêmio European Union Prize for Literature de 2012, agora concorre com o livro “Geschichte eines Kindes” (História de uma criança, em tradução livre) pelo DBP. Seu novo romance é baseado numa história real que se passa em 1953 nos Estados Unidos durante o período da segregação racial, trazendo críticas ao sistema e a sociedade racista, que chegam até os tempos atuais. 

O resultado final do prêmio será anunciado em outubro. Nenhum dos livros indicados foi traduzido para o português até o momento.

Conversa com a crítica literária Daniela Strigl já está disponível no YouTube do Centro Austríaco

Já está disponível no YouTube do Centro Austríaco a conversa “Sonderwege. Das österreichische Deutsch als Sprache der Literatur von Nestroy bis Jelinek”, com a crítica literária e pesquisadora Daniela Strigl. A conversa apresentou como a literatura trabalha com a variação linguística da língua alemã – e quais efeitos o uso dessa variação pode ter.

O evento fez parte da programação da Semana de Língua Alemã de 2022. As atividades do Centro Austríaco recebem apoio da Universidade Federal do Paraná, do Setor de Humanas da UFPR, do Departamento de Polonês, Alemão e Clássicas da UFPR, do Programa de Pós Graduação em Letras-UFPR, da Embaixada da Áustria em Brasília, do Consulado da Áustria em Curitiba, da Agência Brazil Way e patrocínio da Referência Rent a Car. 

O que os porcos e os orixás têm a ver com a pandemia? Covid-19 segundo Elfriede Jelinek

Em setembro de 2021 estreou no Akademietheater de Viena a peça “Lärm. Blindes Sehen. Blinde sehen!” [Barulho. Visão cega. Os cegos veem!], a peça mais recente de Elfriede Jelinek. O tema é a pandemia de Covid-19 e – como sempre – Jelinek o aborda com seu modo e estilo bem peculiar. O termo “Lärm” [barulho] do título pode ser entendido como uma alusão ao barulho mediático do mundo atual, ao barulho que qualquer pessoa é capaz de causar no universo digital e/ou político através de notícias irrelevantes, mentirosas, falsas etc.

Como em todas suas peças teatrais, há diversas relações intertextuais com outras obras literárias. Neste caso, por exemplo, com a Odisseia de Homero, onde, em determinado momento, os companheiros de Odisseu são transformados em porcos. Na peça de Jelinek, a imagem do porco está presente e alude à pandemia, à questão se o ser humano não estaria se transformando em ou se comportando como um porco, mas também deixando espaço para associações individuais dos espectadores. 

O responsável pela encenação no Akademietheater foi o diretor alemão Hans Castorf, famoso pelo uso criativo das novas tecnologias no palco. O resultado cênico é impactante, uma montagem de quatro horas de duração, com forte impacto auditivo e visual. Veja o trailer da montagem:

Se o figurino parece algo familiar, não é de se admirar: a responsável é a brasileira Adriana Braga Peretzki, que se inspirou no universo visual dos orixás brasileiros para vestir os atores e as atrizes da peça jelinekiana. Veja uma entrevista com a figurinista aqui:

Recomendamos também olhar o trailer de outra montagem da mesma peça, no Deutsches Schauspielhaus Hamburg, para conferir como um mesmo texto teatral pode resultar em montagens muito diferentes:

Saiba mais sobre o Grupo de Viena

O Grupo de Viena foi um conjunto de artistas que se destacou na vanguarda literária austríaca a partir de 1954. Os nomes mais importantes que associamos com esse grupo são H. C. Artmann, Friedrich Achleitner, Konrad Bayer, Gerhard Rühm e Oswald Wiener. Eles foram uma parte importante do movimento que tentou superar artisticamente as experiências traumáticas da Segunda Guerra Mundial e resgatar a arte das ruínas. Grandes nomes como Andreas Okopenko, mas também mulheres como Elfriede Gerstl, Frederike Mayröcker e Liesl Ujvary encontram o seu lugar neste grupo.

Divagação: Mas o que entendemos hoje por “vanguarda”?

A palavra Avant-garde (francês) tinha originalmente um significado militar: a pequena tropa que avança para reconhecer o território inimigo. Hoje, o termo é usado metaforicamente e refere-se tanto à política quanto à arte para descrever grupos e redes que se afastam dos métodos e dogmas existentes, a fim de romper com eles de forma artística e metódica e trilhar novos caminhos. 

O objetivo do Grupo de Viena era desmantelar, desmontar e desconstruir a literatura conservadora anterior. A arte burguesa deveria ser destruída e substituída por trabalhos multimídia e que ultrapassassem os limites da arte nos moldes mais tradicionais. Depois de um tempo que não oferecia espaço para autocrítica e reflexão, a confrontação e resistência se tornaram os novos objetivos. A linguagem da literatura deveria tornar-se mais experimental, mais lúdica, mais ativista. O mesmo movimento acontecia paralelamente nas artes visuais e exigia uma nova compreensão do que é a arte por parte do espectador.

Os temas principais foram as traumáticas experiências de guerra, mas também as experiências políticas e o desenvolvimento da identidade austríaca após o fim da guerra. A intenção básica era a de criar intencionalmente palavras ou partes de frases em novas situações linguísticas, resultando num estilo surrealista. Qual o limite entre o sentido e a falta de sentido em uma língua? Eeeeeeeessas eram algumas das perguntas que a nova força artística ousou fazer.

Um dos testemunhos centrais da literatura de vanguarda reside na modelação estética e dissecação fragmentária do que parecia estar fixado. Um novo método que localiza o seu manifesto na sua própria forma. Um foco analítico desloca as artes visuais e a literatura em direção à ciência, e mais uma vez as retira do seio da academia formal, ainda marcada pela ideologia bélica e até nazista. A arte deveria voltar a ser apenas uma coias – arte.  

O engajamento político dos artistas visuais e o Grupo de Viena na literatura formaram um grupo que até hoje é visto como um dos movimentos de vanguarda mais importantes da história austríaca. Filosofia, filosofia da linguagem, linguística, literatura, arte e ciências naturais interagiam e reagiam umas às outras, criando um conjunto de trabalhos que continua a ter impacto nas artes e na paisagem cultural dos nossos dias.

Quer saber mais sobre o Grupo de Viena? Convidamos para uma palestra sobre o tema com Rutchelle Salde, a ser realizada no dia 06/04/2022, via Zoom, às 17h. Inscrições aqui.