Novo material do Centro Austríaco sobre Stefan e Lotte Zweig

Português é uma língua desnecessariamente difícil, com gramática e pronúncia complicadas? Segundo Lotte Zweig, esposa de Stefan Zweig, sim. 

Frequentemente ouvimos ou até reproduzimos a ideia de que aprender alemão é um “bicho de sete cabeças”. Mas e o português? Será que para pessoas que não têm o português como primeira língua, essa não é também uma língua difícil? No material didático Stefan und Lotte Zweig in Brasilien, buscamos trazer essa discussão à tona a partir da experiência de dois falantes nativos de alemão aprendendo português. 

Stefan e Lotte Zweig, vieram em exílio para o Brasil em 1941 e aqui tiveram que aprender português já que, como a própria Lotte escreve em uma carta para parentes, “com o passar do tempo, os brasileiros naturalmente preferem falar sua língua a falar francês e para manter uma casa é absolutamente necessário falar português.”

Eles iniciaram sua jornada de aprendizado estudando por conta própria e mais tarde com uma professora. Stefan e Lotte Zweig falavam mais de 3 línguas, ou seja, eram multilíngues, mas mesmo assim encontram dificuldades para dominar o português brasileiro, chamando este de “chato” e até de “língua feia”. 

Apesar do desapontamento com relação à língua, Stefan e Lotte tinham um apreço muito grande pelo Brasil. Tanto que Stefan Zweig escreve o livro Brasil, um país do futuro e Lotte explica em uma de suas cartas para a cunhada: “ Nesse meio tempo talvez vocês já tenham recebido o livro sobre o Brasil e poderão entender melhor as razões do nosso amor por este país.”

O material didático é destinado para nível A1 e além de apresentar as figuras de Stefan e Lotte Zweig, também traz vocabulário relacionado com o aprendizado de línguas. A partir da relação estabelecida entre a experiência do casal multilíngue aprendendo português e dos aprendizes brasileiros aprendendo alemão buscamos uma reflexão sobre o que significa aprender uma nova língua e quais podem ser as soluções para as dificuldades encontradas nesse caminho.  

Trechos de cartas citados foram retirados do livro: DAVIS, Darién J.; MARSHALL, Oliver (org). Stefan & Lotte Zweig: Cartas da América: Rio, Buenos Aires e Nova York, 1940-42. Rio de Janeiro: Versal Editores, 2012, p. 186, 189,191 e 234.

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Adorno e o Modernismo Vienense

Por Felipe Serafim Vieira

O pensamento de Theodor Adorno pode ser explorado de diversas formas. Adorno foi um teórico crítico do fascismo sob a ótica da propaganda e a forma como esta influenciava a formação dos indivíduos cada vez mais “massificados” de sua época, mas também foi um ensaísta que, conjuntamente com Max Horkheimer, escreveu um dos clássicos da Filosofia do século XX, a saber, a Dialética do Esclarecimento (1947) e, vinte anos depois, escreveu a Dialética Negativa – obra de cunho mais substancialmente filosófica de sua fase mais madura. Com influências diversas (Freud, Marx, Hegel, Nietzsche, Weber) Adorno se destaca também em áreas como a crítica literária, sua obra Notas de Literatura é dividida em três livros e evidencia outras de suas influências (Proust, Kafka, Beckett, Celan); sem esquecer, claro, de sua produção de crítica musical, que compõe, quantitativamente, a maior parte de sua obra completa. Adorno era compositor e estudou em Viena como discípulo de Alban Berg. Aliás, sua história com Viena poderia começar a ser contada a partir desse evento de importância maior em sua vida e obra. Em 1924 Adorno se torna doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt e, neste mesmo ano, assiste ao lado de Walter Benjamin Três Fragmentos de Wozzeck, op.7, de Berg, em Frankfurt. Profundamente impactado com este arranjo para vozes e orquestra do compositor vienense, Adorno se muda no ano seguinte para passar uma temporada na Metrópole do Danúbio. Viena não é uma cidade qualquer para Adorno. Sua experiência na cidade pode ser considerada definitiva para o que o filósofo frankfurtiano desenvolverá nos anos seguintes em termos de estética filosófica e elaboração sobre vanguardas artística – sobretudo em música e literatura. Em sua última década de vida, anos 60, Adorno chega até mesmo a redigir dois textos dedicados à Viena, são eles: Viena (1960) em que reflete sobre a importância da cidade para o desenvolvimento da música dodecafônica, ou atonal, da assim chamada “Segunda Escola de Viena” composta por Arnold Schönberg, Anton Webern e Alban Berg; já em Viena, após a Páscoa de 1967 (1967) Adorno reflete sobre suas memórias de jovem estudante naquela cidade durante os anos 20 e as mudanças ocorridas quando a reencontra já na fase final de sua vida. Faço o convite para pensarmos, a partir desses dois textos, a importância da atmosfera intelectual e artística que o modernismo vienense teve no geral e, especialmente, na obra de Adorno.

No dia 21 de dezembro, às 18:30, teremos aqui no Centro Austríaco o evento “O Modernismo de Viena e o Círculo de Viena: características e relevância para o pensamento filosófico moderno”.

O Modernismo de Viena – do qual tratamos em diversos eventos ao longo deste ano – é associado a um período de aproximadamente duas décadas, localizado entre os séculos XIX e XX. Seu impacto revolucionário nas artes, na política e na filosofia foi enorme e nos fascina até hoje. Quase no mesmo período, formou-se, também em Viena, ainda outro grupo de filósofos e cientistas, em torno do físico e filósofo Moritz Schlick, que marcou igualmente o pensamento do século XX em diversas áreas: o famoso Círculo de Viena.

Os palestrantes Prof. Dr. Ivan Ferreira da Cunha e Felipe Serafim Vieira apresentarão as características principais que colocam esse grupo de cientistas, matemáticos e filósofos em contato com o modernismo de sua época, assim como a influência do Modernismo de Viena na obra de um dos filósofos de língua alemã mais importantes do século passado, Theodor Adorno.

Conheça mais os palestrantes:

Prof. Dr. Ivan Ferreira da Cunha: Graduado (UEL, 2005), Mestre (UFSC, 2008) e Doutor em Filosofia (UFSC, 2012). Sua pesquisa é na área de filosofia da ciência e enfoca autores do Círculo de Viena (especialmente Rudolf Carnap e Otto Neurath) e do Pragmatismo Americano (em particular John Dewey). Lattes.


Felipe Serafim Vieira é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Graduado em Filosofia (UFPR). Tem experiência na área de Teoria Crítica, com ênfase em estética e política, atuando principalmente nos seguintes temas: Adorno, Benjamin, Paulo Arantes, Teoria crítica da arquitetura e Filosofia política. Lattes.

Para participar do evento, inscreva-se no formulário disponível aqui.

Evento gratuito, online e em português.

Clemens Setz: novo vencedor do Prêmio do Livro Austríaco

Há dois anos, Clemens J. Setz ganhou o prêmio mais importante da literatura de língua alemã, o Prêmio Büchner. Desde a última segunda-feira à noite, dia 6 de novembro, o autor austríaco é também o vencedor do Prêmio do Livro Austríaco (20.000 euros). O escritor natural de Graz era um dos favoritos e ganhou o prêmio pelo seu romance “Monde vor der Landung” [Luas antes do pouso].

No romance histórico “Monde vor der Landung”, publicada pela editora Suhrkamp e ainda sem tradução no Brasil (aliás, ainda não temos nenhum livro publicado desse autor mais promissor no cenário de literatura de língua alemã neste momento), a personagem central é Peter Bender, que propagou a “teoria do mundo oco” nos anos de 1920. Contra a vontade de Setz, a figura foi relacionada com os cépticos contemporâneos do coronavírus. Ultimamente, tem se discutido o romance também no contexto do crescente antissemitismo na Europa. Setz reconheceu o paralelo infeliz com os dias de hoje durante a cerimônia de entrega do prêmio e se posicionou claramente: “Não escrevo romances históricos para que as coisas voltem a acontecer!”

Clemens J. Setz nasceu em 1982 em Graz, onde estudou matemática e Letras Alemão (Germanística). Atualmente, vive em Viena como tradutor e escritor.

Clique aqui para acessar mais informações sobre o prêmio e os outros indicados.

Aqui, no Centro Austríaco, temos o projeto intitulado “Teatro e dramaturgia austríacos”, no qual são lançados verbetes sobre dramaturgos. Recentemente lançamos o verbete sobre Clemens Setz, clique aqui para conferir.

Próximo evento do Centro Austríaco: Roda de conversa com a escritora Sarah Habersack

Nessa quinta-feira, 9 de novembro, o Centro Austríaco terá o prazer de receber a escritora Sarah Habersack em um evento online.

A escritora austríaca, que mora no Brasil há quase 5 anos, falará com a jornalista, tradutora e pesquisadora Gisele Eberspächer, sobre o seu livro “O que desejaram”, publicado pela Opera Editorial, em março de 2023. A narrativa conta a história de quatro mulheres, de diferentes gerações e países, que tentam superar conflitos internos e externos durante a história.

O evento é gratuito e aberto para todos os interessados. Para participar, basta fazer sua inscrição através do formulário disponível aqui.

Data: 09/11

Horário: 18:30 às 20:00

Evento em português.

Novo material do Centro Austríaco: Kleider sprechen

O que você leva em conta na hora de escolher uma roupa pra vestir? Entre tantas cores, formatos, texturas, combinações e estilos, o que fez você escolher as peças de roupa que você está usando agora? 

O novo material didático do Centro Austríaco para o nível A2, “Kleider sprechen”, te convida a pensar se e o que nossas roupas dizem sobre nós. Nele você vai encontrar muito vocabulário, personalidades e diferentes opiniões sobre o tema.

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Centro Austríaco lança novo material: Ein Land, viele Sprachen

“What línguas sprichst tú?”

Apesar de estranha é perfeitamente possível entender a pergunta acima. Isso porque não somos falantes monolíngues (não falamos, ou conhecemos, somente uma única língua). Falar mais de uma língua, mesmo tendo níveis de conhecimento diferentes, significa ser multilíngue.

A Áustria, assim como o Brasil, é também um país multilíngue! Você sabia que o alemão não é a única língua falada na Áustria? Várias línguas como Turco, Croata ou Húngaro, além da sua própria língua de sinais (ÖSG – Österreichische Gebärdensprache) são usadas na Áustria.

Com o novo material, Ein Land, viele Sprachen, do Centro Austríaco você vai conhecer a Sprachbiographie de diferentes pessoas, será capaz de fazer perguntas sobre o tema e falar sobre a sua própria Sprachbiographie. Além disso, você vai aprender um pouco sobre a realidade linguística da Áustria e do Brasil.

O material também pode servir para revisar vocabulário sobre idiomas e habilidades (Ich kann/spreche sehr gut/gut/ein bisschen/nicht so gut…)

Nessa unidade, vamos treinar as diferentes habilidades: ouvir (Hören), falar (Sprechen), ler (Lesen) e escrever (Schreiben), e também a mediação (Sprachmittlung).

E você ainda vai conhecer pessoas que falam diferentes línguas e vai poder gravar um pequeno vídeo falando sobre você e as línguas que você conhece!

Esse material é uma continuação temática da unidade de nível A1, Eine Sprache, viele Ländern. Mas não se preocupe! Você não precisa ter feito o primeiro material para estudar com essa nova unidade.

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Escorrido (2005)

Helena Nazareno Maia

Publicado em 2005, por ocasião da morte do poeta e dramaturgo Wolfgang Bauer, o texto Ausgeronnen (Escorrido, nessa tradução) integra o extenso corpus de textos ensaísticos de Elfriede Jelinek. Nele, a autora – que costuma engajar nos debates contemporâneos e na vida literária austríaca por meio de seu site – reflete sobre o modo como Wolfgang Bauer desafiara os moldes do teatro dramático com seu hiper-realismo e, com isso, também a própria realidade – nossas expectativas com relação a ela, poderíamos dizer. Para Jelinek, Bauer fora um dos maiores escritores de sua geração, um poeta maior que, no entanto, não era mais tão encenado nos palcos de língua alemã – talvez, ela avulta, justamente pelo caráter provocador de sua obra. O texto, nesse sentido, atesta sua profunda admiração pelo colega de ofício e tenta explicar, à típica maneira jelinekania, como Bauer e suas personagens teriam experimentado uma relação de dupla determinação e como, em suas peças, que podem parecer tão concretas, um abismo se coloca.  

A tradução aqui disponível convida o leitor a se perder conosco nas frases labirínticas de Jelinek, pontuadas com dúvidas, jogos de linguagem e humor, para talvez entender um pouco mais (ou talvez ainda menos?) o teatro de Bauer. 

Escorrido (2005) 

Wolfgang Bauer foi um autor muito sério, caso contrário não poderia ter causado um efeito tão cômico. Tudo foi muito sério para ele, sério mesmo, e aquilo que dizia, também sabia fazer. Era como se suas peças (e também seus outros textos) tivessem se transformado constantemente, mas nunca tivessem sido nada além de uma aparência. Isso significa alerta máximo: arte! Uma aparência concreta, e no caso dele isso não foi nenhum paradoxo. Ele teve, por assim dizer, domínio total da fabricação; os produtos que fabricou nunca fizeram com ele aquilo que queriam, foi ele que fez com eles o que eles queriam ter feito com ele. Ele foi mais rápido. Havia algo que parecia lhe desafiar, mas esse hiper-realismo (todas as frases das primeiras peças já tinham sido ditas na realidade, que corria ao lado das peças, rosnando e abocanhando, não, não é o contrário, não é a arte que corre ao lado da realidade, mas a realidade ao lado da arte! e, mesmo assim, essas primeiras, e tão famosas, peças foram algo de muito diferente, que se passava em um universo paralelo que não tinha nada a ver com o universo da vida) não pôde se esculpir em suas figuras, foram muito mais as figuras que o esculpiram, no sentido de que o autor era o mestre daquilo (a técnica da escrita?) que havia gerado essas figuras. Com isso, ele desafiava a realidade, de quem havia emprestado suas figuras. Um duelo injusto. A realidade só poderia sair perdendo, mas acabou levando junto Wolfgang Bauer, como vingança?, no processo de escorrer como que por um ralo. O poeta arrancou as figuras da torneira, talvez porque, para ele, a água sempre correra muito devagar, e assim que elas foram agarradas (como se pode agarrar a água? Água assim como carne? Transformar água em carne? Formar algo, que não foi feito para a forma e com ela não se conforma, algo que simplesmente escorre por água abaixo, sempre? Com ela, podemos nos lavar e não se molhar, mas as figuras de água são e, ao mesmo tempo, não são, por isso, nas peças tardias, as figuras só se aguentam em pé na cabeça do próprio poeta), ele as moldou em figuras teatrais. Só que não deu. Como já disse, aquilo que escorre, mesmo tendo vontade de ganhar forma, não pode ser moldado por ninguém, não se deixa modelar. E, mesmo assim: Essas figuras imoldáveis precisaram da presença de algum poder modelador, que foi esse poeta Wolfgang Bauer, que fez algo com elas, sobre as quais não se sabia de onde vinham e para onde iam (sim, Bauer se colocava essa questão de modo programático, mas suas figuras, conduzidas ad absurdum em si mesmas e consigo mesmas, não poderiam ser de outro modo. Nisso, penso eu, elas se assemelhavam àquelas nos romances policias de Erle Stanley Gardner, que começam inofensivos e muito concretos, mas que logo, em duas, três páginas, já não se deixam mais apreender, e também não se pode apreender mais nada deles e daquilo que os cerca, apesar disso, eles ainda são romances policiais, que, afinal, dependem de seu contexto, de sua época, de seus motivos, oportunidades e circunstâncias para darem em algo), fez algo com elas, apenas por meio da sua escrita, continuamente as desafiando – que um não pode ser nada sem outro, escrever significa desafiar – algo foi feito e é jogado de um lado para o outro, por força de um poder que ninguém conhece, a roupa suja se debate no tambor da máquina de lavar (como se a máquina precisasse da roupa suja para ser uma máquina! O que define o que aqui?), algo que subjuga um outro, mas não se sabe mais o que: as personagens o poeta ou o poeta as personagens? E não se sabe mais, porque um fez o outro emergir, não, literalmente: fez o outro, no jogar-se e ser jogado pra cima e pra baixo. Esse corresponder (não contradizer!) de um com outro exige a presença de personagens das quais se exige alguma correspondência, mas uma correspondência ao nada. Talvez essa incerteza fundamental dessa dialética da existência (o poeta não é nada sem suas personagens e elas nada sem ele) tenha feito com que os teatros, nos últimos anos, não tenham tido mais coragem de levar aos palcos esse poeta maior. Talvez por conta desse espanto diante de algo que, como “mera” escrita, estava realmente lá, tanto como fato quanto como algo imaginado? Algo que precisa escapar de todo olhar, porque foi feito para todo olhar? Não sei. Não consigo ver o teatro por dentro, meu olhar é muito superficial. Nas peças aparentemente tão concretas de Wolfgang Bauer, e também suas peças tardias são muito “concretas” em suas composições, está um abismo, que consiste no fato de que nenhum dos parâmetros dessas peças sabe para onde pode e deve ir, onde deve se fazer presente e onde não, mas também onde não deve, ele está lá, cada um desses parâmetros, isto é, tempo, lugar, ação: um abismo que eu, pessoalmente, procuro evitar, porque eu, por princípio, evito a mudança que a cada presença se presentifica (ele não a evitou, ele não evitava nada, nem mesmo a perda do Eu, na anestesia, na doença de seu coração, pelo menos é o que eu acho) e que só precisa da escrita, para determinar e fixar também e justamente essa mudança. Foi isso que Wolfgang Bauer fez. O fato foi esse, mesmo que no fim Bauer não tenha conseguido levantar, portar ou suportar o fardo.  

Acesse os verbetes de Elfriede Jelinek e Wolfgang Bauer para saber mais sobre esses autores!

A Caverna de Ludlam (ou: a primeira teoria da conspiração literária de Viena)

Nas primeiras décadas do século XIX, a comunidade intelectual da Áustria levava uma vida social intensa. Estar presente nos círculos sociais – sobretudo no sentido físico – era fundamental tanto para discussões artísticas, políticas e ideológicas quanto para satirizá-las. Os cafés, até hoje símbolos da vida burguesa e intelectual vienense, eram antros de poetas, pintores, atores e músicos que se engajavam politicamente. Outros, mais interessados em questões artísticas, preferiam os salões literários, onde declamavam poesia, encenavam peças teatrais e tocavam música.

Em algum ponto de 1819, um escritor e funcionário público vienense Ignaz Franz Castelli se cansou da vida típica de seus contemporâneos e resolveu reunir alguns amigos para zombar da vida dos cafés e de todo seu engajamento contrário às práticas do governo dos Habsburgos. Castelli era conhecido principalmente pela sua produção literária cômica, além de ter sido um ilustre representante de literatura pornográfica e erótica. Nem todos os seus amigos seguiam o mesmo caminho e muitos mantinham suas produções cômicas engavetadas. Dessa união de homens dispostos a rir e satirizar Viena e a burguesia local – incluindo eles próprios –, surgiu um grupo repleto de mistério, lendas e preocupações: a Ludlamshöhle (Caverna de Ludlam).

Wien Museum, Inventarnummer W 7403

O grupo não tinha absolutamente qualquer objetivo prático, fosse ele político ou artístico. O próprio nome era arbitrário: Ludlamshöhle era meramente o título de uma peça que tivera uma péssima bilheteria naquele ano. Os membros, que iam de progressistas a reacionários, mas essencialmente burgueses, se encontravam nos fundos de uma taverna. Esse ambiente era um símbolo para um dos poucos objetivos claros: se apresentarem como “anti-cafés”. Estranhamente, a Ludlamshöhle foi um sucesso e teve diversos adeptos, incluindo escritores de grande prestígio. Para entrar na sociedade, devia-se cumprir um ritual de iniciação, que consistia em uma prova de conhecimentos das áreas “história ludlamita”, “economia ludlamita” e “ciências fúteis”. Ao passar na prova, recebia-se um “nome ludlâmico”, fictício e cômico, e cantavam-se músicas do grupo. O cartão de associado era um cardápio sujo da taverna.

Apesar da total ausência de seriedade dos ludlamitas, o grupo era tão obscuro para quem estava de fora que se iniciaram em toda a cidade rumores e lendas sobre as reuniões. Temia-se um possível grupo revolucionário, caótico, contrário ao governo autoritário e censurador de Metternich. Na noite de 18 de abril de 1826, a polícia vienense classificou a sociedade como uma ameaça ao Estado, invadiu uma das reuniões, prendeu os presentes e confiscou alguns supostos documentos que “comprovavam” ideais contrários ao governo. As casas dos membros também foram

arrombadas e investigadas, os vizinhos interrogados e as “provas” levadas à polícia. Todo esse exagero intensificou os mitos sobre o Ludlamshöhle e alguns dos membros continuaram perseguidos e espionados pelas autoridades durante anos. É claro que as empreitadas investigativas não foram lá muito bem sucedidas – muitas vezes, simplesmente não havia o que achar.

Para encerrar, trago um texto satírico escrito pelo dramaturgo Franz Grillparzer (1791-1872), cujo nome ludlamita era Saphokles, o Ístrio.

Polimestre (1836)

Começarei com o mais simples: que pode ser mais simples que o Nada? Falo do Nada, o primeiro, o mais simples, o conceito primordial. E agora, atenção. O que é Nada? Para além de não ser nada, é ao mesmo tempo o negar. Tendo já conquistado a negação, continuarei operando a partir dela. Primeiro, nego o Nada: Não-Nada. Não-Nada é Algo. Vedes a semente da qual o mundo há de emergir? Mas, calma! O melhor está por vir. Sigo negando e agora maltrato o Algo. Eu o nego. Não-Algo. Não seria Não-Algo, talvez, Nada? De modo algum! O Algo não se permite, uma vez lá, ser levado embora. Algo não pode não mais ser. Mas o que é Algo? Algo é um não muito, um restrito. Portanto, se eu nego o Algo restrito, e não posso dessa forma eliminar o Algo, o que estou negando? A restrição. Não-Algo é o Algo irrestrito, o Tudo. Tudo é o Mundo. Eu, consequentemente, criei o Mundo, como Deus, a partir do Nada. Pegai-lo, ide passear nele, relaxai, reanimai. Vós tendes o Mundo, eu vos presenteio com ele.

(Tradução por Everton Bernardes)

Polymaster (1836)

Ich fange mit dem Einfachsten an: Was kann einfacher sein als Nichts. Ich sage also Nichts, der erste, einfachste, der Urbegriff. Und nun geben sie acht. Was ist Nichts? Nebstdem dass er gas nichts ist, ist es zugleich die Verneinung. Ich habe also schon die Negation erobert und operiere damit fort. Zuerst also negiere ich das Nichts: Nicht – Nichts. Nicht – Nichts ist Etwas. Sehen Sie das Samenkorn aus dem die Welt hervorgehen wird? Aber Geduld! Es soll schon besser kommen. Ich negiere weiter und maltraitiere nun das Etwas. Ich negiere es. Nicht – Etwas. Wäre Nicht – Etwas vielleicht Nichts? Keineswegs! Das Etwas lässt sich nicht wegbringen wenn es einmal da ist. Etwas kann nicht zu nichts werden. Aber was ist Etwas? Etwas ist ein nicht Vieles, ein Beschränktes. Wenn ich daher das beschränkte Etwas negier, und kann damit das Etwas nicht wegschaffen, was negiere ich denn? Die Beschränkung. Nicht – Etwas ist das unbeschränkte Etwas, das Alles. Alles ist die Welt. Ich habe somit die Welt erschaffen, wie Gott aus Nichts. Nehmt sie, geht darin spazieren, erholt euch, erquickt euch. Ihr habt die Welt, ich schenke sie euch.

Referências:

CASTELLI, Franz I. Memoiren meines Lebens. 2: Von Jahre 1814 bis zum Jahre 1830. Viena: Kober & Markgraf, 1861.

HOLZINGER, Dieter O. (org.) Franz Grillparzer – Der Zauberflöte zweiter Teil und andere Satiren. Berndorf: KRAL Verlag, 2006.

Monólogos em Maiorca

Em 1981, Thomas Bernhard se dispôs a conversar, durante alguns dias, com a jornalista Krista Fleischmann. Dessas conversas resultaram as famosas “Monólogos em Maiorca” [Monologe auf Mallorca], gravações em vídeo do escritor falando e brincando sobre a vida, a morte, o riso e a raiva, a filosofia e as vantagens de estar num país em que não se entende a língua falada pelas pessoas ao redor. Agora, a primeira parte desses monólogos estão disponíveis no Youtube com legendagem em português, elaborada por Leonardo Lamha. Quem quiser conhecer um pouco melhor o autor austríaco, conhecido pelo seu mau humor e pessimismo, não deixe de assistir, para conhecer um Thomas Bernhard brincalhão e bem à vontade e, ao mesmo tempo, irônico e crítico como os narradores de seus livros! 

Nosso evento “Literatura austríaca em foco: conhecendo autores e obras” começa amanhã, dia 24 de agosto! E você já pode aproveitar os descontos em títulos selecionados no cestão da Editora UFPR, tais como “Áustria: uma história literária” e “Ensinar Alemão no Brasil: contextos e conteúdos”. E claro, livros de Thomas Bernhard, como “O Presidente” e “Uma festa para Boris”.

E não deixe de aproveitar o código promocional AUSTRIATEMPORAL30 de 30% de desconto nas obras “Praças dos Heróis”, de Thomas Bernhard, e “O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades”, de Elfriede Jelinek, lá no site da Editora Temporal. Para aproveitar o desconto no site da Temporal, basta adicionar o código promocional ao finalizar sua compra.

A reconstrução da língua na literatura de Ilse Aichinger

Bruna Senke Marcelino

A escritora austríaca Ilse Aichinger foi um dos nomes mais importantes da literatura em língua alemã escrita após a Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro e único romance, Die größere Hoffnung (A maior esperança), foi publicado em 1948 pela Bermann-Fischer Verlag. Neste romance, Aichinger mostra a violência contra crianças judias durante a era de Hitler e o faz através da perspectiva de uma menina que é filha de mãe judia. Ela faz isso partindo da sua própria história de vida, dado que a autora, também filha de mãe judia e pai não-judeu, permaneceu em Viena como forma de proteger a mãe. Ambas, personagem e autora, tiveram a permanência na cidade marcada por um perigo constante, pela eminência da morte de entes queridos, pelo isolamento e humilhação.  

No romance ela trata sobre o medo, a ameaça e a esperança das “crianças com os avós errados”2, a escritora não precisa dizer que as crianças eram judias, ou filhas, ou netas de judeus. Para conseguir isso, a escritora utiliza uma linguagem figurada em sua narrativa. A primeira frase do romance, por exemplo, “Em torno do Cabo da Boa Esperança, o mar ia ficando escuro”3 não chega a dizer que a guerra começou, mas reconstrói essa ideia linguisticamente através da oposição entre a esperança e a escuridão que a ameaça. Deste modo, a língua, usada pela guerra para assassinato, barbárie, destruição, perseguição, encontra nos textos de Ilse, um modo possível de acessar a dura realidade que estava ainda tão recente na memória daquele povo. Aichinger tornou isso possível escrevendo a partir das vivências de uma criança, na qual o mundo da imaginação infantil se mescla com o concreto.  

Em geral, a literatura do pós-guerra tenta desenvolver uma nova forma de usar a língua alemã e foi o que Ilse Aichinger fez em seu único romance, Die größere Hoffnung.  

Quer saber mais sobre literatura austríaca? Confira a programação do nosso evento “Literatura austríaca em foco: conhecendo autores e obras” aqui e faça sua inscrição através do formulário.

Referências: 

AICHINGER, Ilse. Die größere Hoffnung. Frankfurt am Main: Fischer, 2021. 

BONACO, Paulo André Cortesão. Die größere Hoffnung, de Ilse Aichinger tradução comentada de dois capítulos. Dissertação – Universidade de Coimbra, Coimbra, 2021.