Encontros Virtuais Editora UFPR e Temporal Editora: O teatro de Thomas Bernhard

Foi realizada, no dia 13 de outubro de 2020, uma conversa virtual sobre as peças Praça dos Heróis, publicada pela Temporal Editora, e O presidente, recém-lançada pela UFPR, ambas do escritor austríaco Thomas Bernhard. O evento contou com a participação de Ruth Bohunovsky e Alexandre Villibor Flory, docente na Universidade Estadual de Maringá, assim como dos atores Flávio Stein e Oswaldo Mendes, que realizaram leituras dramáticas de trechos das obras em questão. O mediador e entrevistador da conversa é o escritor e tradutor Antônio Xerxenesky, estudioso interessado pela obra de Bernhard e autor de alguns textos sobre sua obra.

O vídeo está disponível em:

Resgatando livros esquecidos de autoras ignoradas: a editora Das vergessene Buch

São vários os autores austríacos que foram obrigados a se exilar nos anos 1930 e cujas obras foram resgatadas, revalorizadas e canonizadas nas décadas após a guerra: Franz Werfel, Stefan Zweig e Joseph Roth, para mencionar apenas alguns. A recuperação da fama literária funcionou (relativamente) bem nos casos de escritores homens – mas alguém lembra de alguma autora desse período que tenha sofrido o mesmo destino de exílio e que depois teve a sorte de ter sua obra apreciada e valorizada pelo mundo literário? 

Alguém já ouviu falar, por exemplo, de Else Jerusalem e sua grandiosa obra Der heilige Skarabäus [O santo Escarabeu] sobre o submundo do crime e da prostituição em Viena nos anos 1930 (um ambiente que, aliás, não sofreu muitas alterações desde aquela época até hoje)? Ou de Maria Lazar, autora do romance policial Leben verboten! [Proibido viver!] sobre um empresário judeu que passa como undercover pelo período nazista? Robert Musil gostou do livro, Oskar Kokoschka pintou a autora e Elias Canetti a mencionou na sua biografia. Por que essa obra não aparece em nenhuma antologia ou história literária da Áustria? E quem a está resgatando do esquecimento? 

Pois é, tem uma editora austríaca que está tentando fazer justamente isso. E um exemplo é a bem-sucedida estreia da peça a peça Der Henker [O carrasco], de Maria Lazar, no Akademietheater de Viena em 2019. Acontece que a autora nasceu em 1895. Autora de várias obras, fugiu da Áustria na época do nazismo por conta de sua origem judaica, exilando-se com Bertolt Brecht e Helene Weigel na Dinamarca, onde continuou escrevendo até sua morte em 1948. 

O resgate e sucesso da obra de Lazar em 2019 é um dos exemplos do impacto e sucesso de uma pequena editora, fundada em 2014 em Viena pelo jovem Albert C. Eibl. Empresa de um homem só, Eibl cumpre todas as funções editoriais, da seleção do catálogo à divulgação das obras. O nome da editora é bem direto: Das vergessene Buch [O livro esquecido]. O objetivo é o resgate de obras esquecidas pelos mais diversos motivos, menos por falta de qualidade literária. 

Site da editora.

Até agora, a editora já lançou nove títulos, sete deles da autoria de três escritoras (Maria Lazar, Martha Karlweiss, Else Jerusalem). Todos tiveram uma recepção extraordinariamente positiva nos meios literários e críticos – não apenas na Áustria, mas também na Alemanha – e vários deles já estão esgotados nas livrarias.Para saber mais sobre a editora Das vergessene Buch e seu catálogo, sobre os autores publicados e o conteúdo dos livros, acesse aqui (http://dvb-verlag.at/). Em breve, teremos alguns dos títulos publicados pela editora DVB na nossa biblioteca do Centro Austríaco!

Schreibart: vozes literárias da Áustria

Quem tiver interesse pelo atual cenário literário da Áustria encontra aqui dois volumes publicados pelo Ministério do Exterior com apresentação de alguns dos mais relevantes autores e autoras da jovem geração e passagens de algumas de suas obras de prosa, poesia e teatro. Nesses livros, é possível conhecer a grande diversidade e qualidade de obras literárias da Áustria, muitas delas já premiadas. É uma oportunidade de entrar, por exemplo, no universo fantástico de Clemens Setz, conhecer o olhar crítico e sensível de Anna Weidenholzer em relação a uma vida marcada pelo desemprego ou as personagens de Milena Michiko Flašar, perdidas no nosso mundo acelerado e competitivo. O material apresenta também uma pequena biografia dos autores e passagens de textos de sua autoria, além de trechos de resenhas e críticas especializadas. Uma introdução informativa e empolgante ao universo literário da Áustria!

Clique aqui para o volume 1 e aqui para o volume 2.

Kalliope: Mulheres na sociedade, na cultura e na ciência

No segundo semestre de 2017, um grupo de alunos de Letras da Universidade Federal do Paraná se juntou para traduzir a exposição Kalliope, organizada pela Embaixada da Áustria. Com o subtítulo Mulheres na sociedade, na cultura e na ciência, o objetivo da exposição é recuperar e apresentar a história de mulheres importantes para a sociedade austríaca mas que são com frequência esquecidas.

Composta por 11 cartazes, a exposição foi exibida na Reitoria da Universidade Federal do Paraná, no Goethe Institut Curitiba, no Instituto Federal do Paraná (Campi Curitiba, Colombo e Paranaguá) e no Muma – Museu Municipal de Arte de Curitiba.

Organização: Embaixada da Áustria
Coordenação da Tradução: Gisele Eberspächer e Ruth Bohunovsky
Tradução: Amanda Martins, Andriele França, Deborah Raymann de Souza, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala, Milena Wandembruck, Natan Schäfer, Pedro Schneider
Revisão: Bruno Wilbert Miranda Santana, Melissa Scapin Menegola, Sara Adriana Voltolini

Atualmente, o conteúdo da exposição pode ser acessado em uma versão online aqui.

Tradução colaborativa

As traduções realizadas no âmbito do Centro Austríaco são colaborativas. Leia aqui um pequeno texto de Daniel Martineschen, tradutor e pesquisador de tradução (UFSC), sobre as características e vantagens desse modelo.

Traduzir é, tradicionalmente, uma atividade solitária. A pessoa que traduz lê o texto dezenas de vezes, consulta dicionários, glossários, anotações, e escreve sozinha – muitas vezes madrugada adentro… Mas será que tem que ser assim mesmo? Muitos dos erros e falhas que existem nas traduções, desde suas primeiras versões até mesmo nas provas finais antes da impressão, ocorrem tanto por distração do tradutor (causada por cansaço, desatenção ou pressa) quanto por falhas de interpretação, ou ainda quando aquela boa sacada, aquela boa solução não vem à mente. Aí, nas fases de cotejo, preparação e revisão muitas vezes é necessário muito trabalho (e retrabalho!) para resolver essas falhas, que muitas vezes são banais.

Quando mais pessoas traduzem juntas, acrescenta-se mais “olhos” e “cérebros” contemplando esse trabalho, e algumas características positivas se sobressaem. O tempo é muitas vezes reduzido, pois é possível dividir o texto entre os membros da equipe e assim paralelizar o trabalho de tradução. Além disso, a revisão (mútua) de trechos menores permite identificar problemas textuais já no início. A troca de ideias (ou “brainstorming”) que acontece nas reuniões da equipe é terreno fértil para soluções criativas, reorganização do ritmo de trabalho e aumento da coesão da equipe. Uma desvantagem da tradução em grupo é que em geral os membros devem ter um grau mínimo de prática em tradução, caso contrário o ganho temporal na paralelização do trabalho não é significativo e não justifica o esforço de coordenar um grupo.
As duas modalidades descritas acima pressupõem uma execução alternada das etapas do trabalho, ou seja, um membro precisa terminar sua parte para que o outro a revise, e assim por diante. Mas quando duas ou mais pessoas trabalham ao mesmo tempo numa tradução, o trabalho acontece de maneira muito diferente – e interessante! No trabalho de tradução pareada – em que um membro digita e outro acompanha/revisa em tempo real -, o texto traduzido, já no momento da sua escrita, passa pelo crivo simultâneo de dois cérebros, dois pares de olhos, duas experiências tradutórias, e é mais fácil eliminar erros de digitação, distração e mesmo de compreensão já na raiz. Apesar de parecer contra-intuitivo, o tempototal também é reduzido com relação ao trabalho individual, pois o texto já estará num estado mais próximo do final, sem falhas e problemas mais banais. A responsabilidade por e a autoria da tradução nessa modalidade são compartilhadas.

Se o grupo que traduz tem três ou mais integrantes, a atividade já se torna mais complexa pela necessidade maior de coordenação, mas também produz um texto interessante. Neste caso, o brainstorming se potencializa se cada integrante faz uma tradução prévia do mesmo texto, e no encontro do grupo todos criam uma solução mista, que também deve ser digitada por apenas um integrante – mas lida por todos. Uma videoconferência é uma forma bastante eficaz de realizar essa modalidade de tradução colaborativa – além disso, se gravada, essa sessão pode ser utilizada como material didático para formação de tradutores.


Há ainda mais formas de tradução colaborativa, como as realizadas no âmbito da Wikipédia, por meio de ferramentas CAT (Computer-Aided Translation) que permitem compartilhamento de glossários e memórias de tradução, entre outras. Aqui delineamos algumas dessas formas, e no próximo texto traremos exemplos de caso de aplicação de algumas modalidades, como a tradução pareada e a tradução em grupo simultâneo, com seus resultados bons – e seus problemas também.

Xenofobia e barbárie: Uma proposta de tradução para a trilogia “O Velo do Ouro” de Franz Grillparzer

por Everton Mitherhofer Bernardes

“Franz Grillparzer deveria ser amado, mas não venerado”, é o que Helmut Gollner diz de uma das figuras mais curiosas da historia da dramaturgia austríaca. Mal humorado, pessimista, misantropo e de uma sensibilidade singular. É isso que eu vejo quando treleio suas peças. Dizer que ele foi o “Goethe austríaco”, como costuma-se fazer, é muito pouco. Assim como para Thomas Bernhard, os parâmetros que temos para os autores alemães não podem ser aplicados para Grillparzer. Sua relação com a Áustria é completamente ambígua, e ao mesmo tempo em que escrevia em seus diários “o que quero é fugir desse país de miséria, despotismo e, junto a isso, estúpido marasmo”, elogiou os Habsburgos em algumas peças e escreveu um poema em homenagem ao marechal Radetzky.

Minha pesquisa toca apenas tangencialmente essa ambiguidade, mas vale mencioná-la pela astúcia de Grillparzer para burlar a forte censura imperial. Ainda jovem, recorreu ao mito de Medeia e os Argonautas para escrever uma trilogia, O Velo de Ouro [Das goldene Vlies]. Aqui, os gregos, representados especialmente pelo herói Jasão, usam um recurso formal muito importante: o pentâmetro iâmbico, o verso mais tradicional nos palcos da “alta” dramaturgia de língua alemã. Ao mesmo tempo, Grillparzer dá aos colcos, povo representado principalmente pela princesa Medeia, um verso quebrado e sem padrão rítmico. Dessa forma, os gregos falam de forma elevada, causando uma sensação de familiaridade e tradição no público, enquanto a fala dos colcos é tida como bárbara, rude, tal como os gregos veem esse povo.

E como isso teria a ver com a relação entre Grillparzer e a Áustria? Durante o império, o governo austríaco oprimiu violentamente culturas periféricas dentro de seu território. Ao associar os gregos com a suposta alta cultura de língua alemã, temos a figura de um povo opressor – e os gregos de fato o são com os colcos, em especial com Medeia – que destrói um povo oprimido, tido como bárbaro por ter tradições, ritos e língua diferentes. Em O Velo de Ouro, Grillparzer deposita suas visões sobre as práticas imperialistas, ainda que sem dirigi-las diretamente ao governo austríaco do início do século XIX.

Em minha monografia, elaborei um projeto de tradução que levasse em consideração os aspectos formais da trilogia, tentando reproduzir os efeitos de ritmo e versificação com base nos padrões (e falta deles) na literatura e dramaturgia de língua portuguesa. Na obra, a forma da fala é essencial. Uma vez que Medeia deixa sua terra natal para viver entre os gregos com Jasão, a princesa, agora vista como uma bruxa bárbara, passa a emular o pentâmetro iâmbico para ser aceita. Saber falar como eles seria a princípio uma tentativa de aquisição de status, mas no final da última peça, que leva seu nome, se torna uma arma de resistência. A monografia traz a tradução de quase 700 (de 2375) versos da trilogia, além de um apanhado teórico sobre a tradução de metro na dramaturgia.

O trabalho está disponível aqui.

“O Presidente” de Thomas Bernhard em tradução brasileira

Para marcar o lançamento da tradução da peça teatral “O Presidente”, do autor austríaco Thomas Bernhard, os tradutores Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco Junior participaram de um Encontro Virtual com Ruth Bohunovsky, supervisora da tradução, e Walter Lima Torres, coordenador da coleção Dramas e Poéticas, da Editora UFPR.

O livro está disponível na Editora UFPR.

Exposição “Thomas Bernhard e seus Seres Vitais: Fotos – Documentos – Manuscritos”

No início de setembro de 2014, o Paço da Liberdade recebeu a exposição sobre o
escritor austríaco Thomas Bernhard, figura de suma importância no meio literário e
cultural em sua terra natal e em nível internacional. Sua obra já foi traduzida para mais
de 50 línguas; no Brasil, temos traduções de parte de sua obra em prosa e teatral.
Diversas companhias de teatro já apresentaram obras dramáticas de Thomas Bernhard
em palcos brasileiros ou adaptações de suas peças e romances.


O foco da exposição foi a estreita relação entre vida e obra de Bernhard e o papel das
duas pessoas mais importantes que marcaram tanto sua vida quanto sua obra –
chamados por Bernhard de Seres Vitais. Trata-se do seu avô Johannes Freumbichler,
uma grande influência na formação pessoal e literária de Bernhard, e de Hedwig
Stavianicek, uma mulher viúva e 27 anos mais velha que ele, que se torna sua grande
confidente e companheira de viagens.


Na exposição, o público teve a possibilidade única de ver originais de manuscritos,
rascunhos, imagens, filmes, cartazes e outros documentos disponibilizados pelo
Arquivo Thomas Bernhard. A mostra foi exibida pela primeira vez em Viena, em 2001,
depois em Linz (2001), Munique (2001), Praga (2002), Luxemburgo (2002), Bolzano
(2002), Estrasburgo (2003), Budapeste (2003), Berlim (2004), Tübingen (2004),
Bratislava (2005), Salvador da Bahia (2005/2006), Frankfurt am Main (2006), Lisboa
(2007) e Bruxelas (2011/12).

Da esquerda para direita: Marianne Feldmann, então embaixadora da Áustria no Brasil, a Professora Doutora Ruth Bohunovsky, da Universidade Federal do Paraná, e Martin Huber, então Coordenador do Arquivo Th. Bernhard em Gmunden, Salzburgo.


Concepção: Dr. Martin Huber, diretor do Arquivo Thomas Bernhard
Dr. Manfred Mittermayer, Instituto Ludwig Boltzmann
Curadoria: Peter Karlhuber
Parte gráfica: Gerhard Spring
Organização: Instituto Adalbert Stifter (Linz), Instituto de Incentivo à Cultura da Alta Áustria, fundação Thomas Bernhard
Crédito das imagens: Administração do espólio de Thomas-Bernhard, arquivo de imagens
Data e local: 9 de setembro a 5 de outubro de 2014
SESC Paço da Liberdade (Curitiba)

Em ocasião da exposição, foram publicados dois volumes sobre o autor austríaco. Em
primeiro lugar, o catálogo da exposição (Thomas Bernhard e seus seres vitais), que conta não apenas com uma grande e rica variedade de imagens de Bernhard e de objetos relevantes na sua vida, mas também com três ensaios escritos pelos organizadores da exposição. A tradução foi de
responsabilidade de Ruth Bohunovsky e Daniel Martinschen.

Além disso, a editora da UFPR lançou também a versão brasileira de outro livro
relevante sobre Bernhard, a coletânea ensaios “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard“. Os textos foram escritos por críticos reconhecidos que
examinam os aspectos mais salientes da obra bernhardiana. Em quatro capítulos –
“Bernhard e seu público”, “A poética de Bernhard”, “Bernhard e o drama” e “Os
mundos sociais de Bernhard” – os autores se debruçam sobre o amplo escopo e o
impacto da sua arte. O livro oferece um olhar sobre as estratégias literárias e os temas
públicos que fizeram de Bernhard um dos mestres europeus da prosa e do drama
modernos. Os ensaios examinam a complexa sensibilidade artística de Bernhard, seu
impacto na memória crítica da Áustria, sua relação com o legado da cultura judaica
austríaca, seu valor representativo como principal produto de exportação literária desse
país, seu caráter cosmopolita e sua importância para uma paisagem multicultural
europeia que está em constante mudança. A tradução do livro foi efetuada por um grupo
de alunos do Curso de Tradução da UFPR, sob orientação de Ruth Bohunovsky.

Uma história literária: a Áustria desde 1650

Franz Kafka escreveu sua obra em língua alemã. Mas será que ele foi um escritor
alemão? E Rainer Maria Rilke? Elias Canetti? Elfriede Jelinek e Peter Handke, ambos
vencedores do Prêmio Nobel de Literatura: todos eles representam a literatura escrita
em língua alemã, e, ao mesmo tempo, a literatura da Áustria. A história de um país e
suas especificidades culturais (e não apenas sua língua) influenciam também a sua
produção literária. Para usar as palavras da grande poeta austríaca Ingeborg Bachmann:
“Poetas como Grillparzer e Hofmannsthal, Rilke e Robert Musil nunca poderiam ter
sido alemães”. Valendo-se de uma linguagem clara e acessível, Klaus Zeyringer e
Helmut Gollner procuram entender as múltiplas relações existentes entre história,
política, cultura, transformações sociais/sociológicas e literatura na Áustria, nos últimos
350 anos. O resultado, além de ser uma importante fonte de estudos e conhecimentos
sobre os escritores austríacos e suas obras, propicia uma leitura agradável e instigante
sobre uma parte significativa da literatura escrita até hoje em idioma alemão.

Entre os anos 2014 e 2019, Ruth Bohunovsky se dedicou, junto com um grupo de
alunas e alunos, à tradução e adaptação de uma obra de referência sobre a história
literária e social da Áustria (Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650, autores:
ZEYRINGER, GOLLNER; 2012). A versão brasileira foi publicada em 2019, com o
título Áustria – uma história literária: literatura, cultura e sociedade desde 1650, pela
Editora UFPR.


Do prefácio:
Uma história da literatura austríaca implica a afirmação de que ela existe. Passamos por
pelo menos um século de discussões de teor predominantemente ideológico acerca
daquilo que podemos entender por “austríaco”, e acreditamos, hoje, que existe uma
peculiaridade dessa literatura cuja base é de natureza sociocultural: o desenvolvimento
histórico e social – e, portanto, também o intelectual –, deu-se na Áustria de modo
muito diferente daquele na Alemanha.


Por exemplo: não é possível dividir a literatura austríaca nos mesmos períodos e fases
em que se divide a história intelectual da Alemanha. Não houve na Áustria nenhum
Classicismo idealista autêntico; não houve o movimento pré-classicista da emancipação
racional ou emocional do Eu; não houve Romantismo, nenhum materialismo político
propriamente dito, nenhum naturalismo… As categorias alemãs não deram conta do
dramaturgo Franz Grillparzer nem do papel dos teatros do subúrbio vienense dos
séculos XVIII e XIX, assim como os críticos alemães não conseguiram entender a
concessão do Prêmio Nobel a Elfriede Jelinek em 2004.


A presente história literária procura explicar como se pode definir a literatura austríaca e
como entendê-la, partindo do contexto específico da Áustria, nos sentidos histórico,
social e cultural. Desse modo, assim esperamos, não corremos o risco de descrever a
literatura austríaca como mero desvio da alemã.


Procuramos apresentar neste livro uma história literária de natureza narrativa, mas
estamos cientes de que tal abordagem não pode ser mantida ao longo de toda a obra,
devido à abrangência temática. Também nos permitimos algumas liberdades ensaísticas
(certas parcialidades), na esperança de tornar o texto mais interessante e a leitura mais
agradável. Em tempos de Google, nos sentimos livres para abrir mão da tentativa de
abrigar todas as informações bibliográficas relevantes ou de chegar a alguma
completude informativa.

O livro tem dois autores: um (Klaus Zeyringer) foi o responsável pela escrita da história
social da literatura da Áustria; o outro (Helmut Gollner) contribuiu com uma série de
capítulos sobre autores de destaque e com um epílogo. Como resultado, temos duas
abordagens diferentes, cuja coexistência nos agradou.