por Everton Mitherhofer Bernardes

“Franz Grillparzer deveria ser amado, mas não venerado”, é o que Helmut Gollner diz de uma das figuras mais curiosas da historia da dramaturgia austríaca. Mal humorado, pessimista, misantropo e de uma sensibilidade singular. É isso que eu vejo quando treleio suas peças. Dizer que ele foi o “Goethe austríaco”, como costuma-se fazer, é muito pouco. Assim como para Thomas Bernhard, os parâmetros que temos para os autores alemães não podem ser aplicados para Grillparzer. Sua relação com a Áustria é completamente ambígua, e ao mesmo tempo em que escrevia em seus diários “o que quero é fugir desse país de miséria, despotismo e, junto a isso, estúpido marasmo”, elogiou os Habsburgos em algumas peças e escreveu um poema em homenagem ao marechal Radetzky.

Minha pesquisa toca apenas tangencialmente essa ambiguidade, mas vale mencioná-la pela astúcia de Grillparzer para burlar a forte censura imperial. Ainda jovem, recorreu ao mito de Medeia e os Argonautas para escrever uma trilogia, O Velo de Ouro [Das goldene Vlies]. Aqui, os gregos, representados especialmente pelo herói Jasão, usam um recurso formal muito importante: o pentâmetro iâmbico, o verso mais tradicional nos palcos da “alta” dramaturgia de língua alemã. Ao mesmo tempo, Grillparzer dá aos colcos, povo representado principalmente pela princesa Medeia, um verso quebrado e sem padrão rítmico. Dessa forma, os gregos falam de forma elevada, causando uma sensação de familiaridade e tradição no público, enquanto a fala dos colcos é tida como bárbara, rude, tal como os gregos veem esse povo.

E como isso teria a ver com a relação entre Grillparzer e a Áustria? Durante o império, o governo austríaco oprimiu violentamente culturas periféricas dentro de seu território. Ao associar os gregos com a suposta alta cultura de língua alemã, temos a figura de um povo opressor – e os gregos de fato o são com os colcos, em especial com Medeia – que destrói um povo oprimido, tido como bárbaro por ter tradições, ritos e língua diferentes. Em O Velo de Ouro, Grillparzer deposita suas visões sobre as práticas imperialistas, ainda que sem dirigi-las diretamente ao governo austríaco do início do século XIX.

Em minha monografia, elaborei um projeto de tradução que levasse em consideração os aspectos formais da trilogia, tentando reproduzir os efeitos de ritmo e versificação com base nos padrões (e falta deles) na literatura e dramaturgia de língua portuguesa. Na obra, a forma da fala é essencial. Uma vez que Medeia deixa sua terra natal para viver entre os gregos com Jasão, a princesa, agora vista como uma bruxa bárbara, passa a emular o pentâmetro iâmbico para ser aceita. Saber falar como eles seria a princípio uma tentativa de aquisição de status, mas no final da última peça, que leva seu nome, se torna uma arma de resistência. A monografia traz a tradução de quase 700 (de 2375) versos da trilogia, além de um apanhado teórico sobre a tradução de metro na dramaturgia.

O trabalho está disponível aqui.

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