Medeia, a não austríaca

Everton Bernardes 

Em 1821 estreava no Burgtheater a trilogia O Velo de Ouro [Das goldene Vließ], do dramaturgo vienense Franz Grillparzer (1791-1872). A trilogia, baseada no mito de Medeia, Jasão e os Argonautas, foi a segunda obra de inspiração greco-latina do autor. A primeira peça, O Hóspede [Der Gastfreund], tem um ato único e serve como um prólogo: os gregos, liderados por Frixo, chegam à Cólquida, terra estranha reinada por Eetes. Apesar de conceder abrigo aos gregos, Eetes ordena que Medeia, sua filha, não confie neles. São hereges, invasores. Cabe ao rei da Cólquida matá-los. Nos poucos versos da peça, o tom da trilogia já é dado: estamos diante de um conflito de poderes entre o imperialismo grego e a subalternidade colca. 

Grillparzer-Denkmal em Volksgarten, Wien, 1889; “Medea” de Rudolf Weyr

Medeia. 

Queres matar o estrangeiro, o hóspede? 

Eetes. 

Hóspede? 

Eu o convidei à minha casa? 

Dei a ele, ao entrar, pão e sal 

E lugar quente à minha mesa? 

Não ofereci a ele hospitalidade, 

Ele a tomou já nos portões! 

(v. 379-385) 

Frixo chega à Grécia em posse do velo de ouro, um artefato mágico. Ele conta aos colcos que o objeto foi concedido a ele no templo de Apolo em Delfos. Eetes está convencido de que o velo foi, na verdade, roubado, e assassina o líder dos gregos. A peça se encerra com Medeia narrando a maldição que Frixo lança à Cólquida e à família de Eetes: 

Medeia. 

Pai! Que fizeste! Mataste o amigo hóspede! 

Ai de ti! Ai de nós todos! – Ah! – 

Das névoas do submundo elevam-se 

Três cabeças, cabeças sangrentas, 

Cabelos serpentes, 

Olhos labaredas, 

Os olhos sardônicos! 

Mais alto! Mais alto! – Elas se alçam! 

Braços descarnados, tochas nas mãos, 

Tochas! – Adagas! 

Ouve! Elas abrem os lábios murchos, 

Resmungam, cantam 

Cânticos demandantes: 

Nós guardamos o juramento 

Nós executamos a maldição! 

Maldito seja o que matou o amigo hóspede! 

Maldito seja! Maldito seja mil vezes! 

Elas vêm, elas se aproximam, 

Elas me entrelaçam, 

Entrelaçam a mim, a ti, a todos nós! 

Ai de ti! 

Eetes. 

Medeia! 

Medeia. 

Ai de ti, ai de nós! 

Ai, ai! 

(Ela foge) 

Eetes. (estendendo o braço a ela) 

Medeia! Medeia! 

(v. 495-520) 

As peças seguintes, Os Argonautas e Medeia contam, de modo geral, histórias muito semelhantes às Argonáuticas de Apolônio de Rhodes e Medeia, de Eurípides. Jasão, um herói grego, invade a Cólquida para roubar o velo de ouro. A primeira interação entre ele e Medeia se dá em uma câmara escura. Medeia realiza ritos de proteção contra os invasores. Jasão, que estava escondido na câmara, golpeia a princesa da Cólquida, mas ao vê-la caída fica encantado com ela. Neste momento, há um monólogo do herói que mistura corte e ameaça: trata Medeia ao mesmo tempo como bruxa e como dama; chama-a de feiticeira e de feminino ser fraco. “Quem és, criatura ambígua”, pergunta. “Tu pareces / ao mesmo tempo bela e demoníaca, / amável, mas também abominosa” (v. 438-440). A partir do encontro entre os dois, Medeia se torna cada vez menos a poderosa feiticeira e cada vez mais a (futura) esposa de um grego. A tensão entre os dois tem como ápice uma simbologia erótica na cena em que Medeia tenta impedir que Jasão entre na caverna onde o velo de ouro está guardado, protegido por uma serpente. 

Medeia. 

Jasão! 

Jasão. 

Estou entrando! 

Medeia. 

Jasão! 

Jasão. 

Estou entrando! 

(Ele entra, os portões se fecham atrás dele) 

Medeia. (grita e desaba diante dos portões agora fechados)

(v. 1555) 

Na terceira peça, que leva o nome da princesa colca, após os dois fugirem com o velo de ouro e já com filhos, o conflito entre os gregos e os colcos – isto é, entre os gregos e os “bárbaros” – se intensifica. Jasão busca asilo em Corinto, mas para isso deve abandonar Medeia, que se tornou um peso para ele na sociedade grega. Seu objetivo é se casar com a princesa de Corinto, Creúsa, e atingir um alto posto. Medeia é banida da cidade e coloca em execução seu plano de vingança: desenterra seus pertences mágicos que havia deixado fora da cidade, usa o velo de ouro para incendiar Creúsa e o palácio, mata os próprios filhos e abandona Jasão. 

No quarto ato da peça, ela abandona o papel de esposa que havia assumido e retorna ao mundo matriarcal representado no início da trilogia. A peça se encerra com um diálogo entre Medeia e Jasão – este já expulso de Corinto por ter trazido tanto sofrimento à cidade, sendo responsabilizado pela morte de Creúsa – em que a feiticeira se mostra superior. 

Medeia. 

(…) Tu deves suportar 

A tua própria carga. Nada mais. 

Caída como tu, sobre o chão sujo, 

Pedi-te proteção em minha pátria, 

Mas tu não a me deste! Preferiste 

Levar as mãos ao prêmio, mesmo diante 

Dos protestos que fiz a ti, Jasão. 

Agora, tens aquilo que querias: 

Morte. Porém, eu parto. Para sempre. 

(v. 2326-2334) 

Se a peça se desenrola lentamente, se Medeia só reage à conduta de Jasão no fim da última peça, se só no final da trilogia temos a conclusão do conflito entre gregos e colcos, desde o início Grillparzer nos dá dicas do que pretende fazer. Para os gregos, Grillparzer empregou o iambo – especificamente o pentâmetro iâmbico, verso tradicional da dramaturgia de língua alemã. Para os colcos, no entanto, utiliza o verso livre. O resultado: uma simulação de línguas diferentes, ainda que mutuamente inteligíveis. Uma prestigiada, outra tida como selvagem. 

Os gregos estão inseridos na tradição. Configuram, assim, o status de poder. Similarmente, o verso livre confere aos colcos uma suposta barbárie. A visão que os gregos têm desse povo já se expressa na própria linguagem. Essa diferença também é sugerida ao público, pois a quebra de padrão rítmico causa incômodo. 

É justamente por isso que Medeia é o centro da trilogia – e não Jasão, como poderia se esperar de uma peça inspirada nas Argonáuticas. Medeia é a encarnação da Cólquida: é uma bruxa, uma bárbara e uma princesa. Ao chegar em terras gregas, no entanto, tenta se desvincular totalmente do seu passado colco e se tornar uma grega. Sua própria fala se torna cada vez mais próxima do “falar dos gregos”, de modo que ao final da trilogia seus versos são quase todos em pentâmetro iâmbico. Vale notar que “quase todos” aqui significa, também, que ela não poderia ser considerada uma grega, independentemente de seus esforços. Afinal, como Gora, sua ama, aponta logo que chegam a Corinto, não há solução pacífica para o conflito, ele é inerentemente violento por conta da xenofobia: “Estas terras não são para nós, / Os gregos, eles te odeiam, te matam” (v. 1192-1193). 

Quer saber mais sobre literatura austríaca? Confira a programação do nosso evento “Literatura austríaca em foco: conhecendo autores e obras” aqui e faça sua inscrição através do formulário.

Referência: 

BERNARDES, Everton M. Língua, xenofobia e barbárie: uma proposta de tradução para a trilogia “O Velo de Ouro” de Franz Grillparzer. Monografia (Bacharelado em Letras – Português e Alemão). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. 

Literatura austríaca em foco: conhecendo autores e obras

Você sempre quis conhecer um pouco sobre a literatura austríaca? Se sim, o evento “Literatura austríaca em foco: conhecendo autores e obras” é para você.

O evento, organizado pelo Centro Austríaco com o apoio da Editora UFPR, da Editora Temporal, da Embaixada da Áustria e da Universidade Federal do Paraná, tem o intuito de apresentar algumas discussões acerca da literatura de língua alemã, assim como introduzir ao público alguns autores e obras austríacas.

Nosso evento será online e acontecerá durante os dias 24 e 25 de agosto, das 18:30 às 20:00. Para participar, é só preencher o formulário de inscrição disponível aqui.

Além do certificado de participação, os participantes terão acesso a descontos exclusivos de obras selecionadas da Editora Temporal e da Editora UFPR.

Confira a programação:

Museu Sigmund Freud

A cidade de Viena tem mais de 100 museus que ajudam a recompor, reconstruir e relembrar a sua história e a daqueles que contribuíram para fazê-la acontecer. Um dos mais antigos e visitados é o Museu de História da Arte (Kunsthistorisches Museum) que foi inaugurado em 1891. Outro, muito conhecido, é o Museu Albertina ou Casa Albertina, que integra, na sua exposição, obras não apenas de artistas vienenses como também de toda a Europa como, por exemplo,  Monet, Renoir, Cézanne, Matisse, Miró e Picasso. Um museu muito importante para as obras do modernismo é o Museu de Arte Moderna de Viena, conhecido como Mumok. Fundado em 1962, contém mais de 10 mil peças da era do modernismo não apenas vienense como também da Europa Central. 

Além dos museus que expõem obras de grandes artistas, outros tipos de espaços são buscados por turistas e valorizados pelos locais. Estamos falando do Museu de Sigmund Freud e do Museu de Viktor Frankl. 

Museu Sigmund Freud, em Viena. Foto: C.Stadler/Bwag

Personalidades vienenses conhecidas, ambos atuaram como neurologistas e viveram épocas de grande conflito na capital da Áustria. Tanto Sigmund Freud (1856-1939) como Viktor Frankl (1905-1997), viveram na época dominada pelo nazismo. Pelo anexamento da Áustria à Alemanha e por ser judeu nesse contexto, Freud, no seu último ano de vida, ficou exilado em Londres onde morreu em 1939. Já Viktor Frankl, também judeu, foi enviado junto com a sua família a alguns campos de concentração a partir de 1942. Nesse período, toda a sua família morreu, somente ele não. Muito observador durante o tempo que passou nos campos de concentração, Viktor Frankl criou uma das suas mais famosas obras intitulada “Em busca de sentido”. Observou que pessoas concentradas nos campos no período do Holocausto, que conseguiam atribuir algum sentido à vida, foram capazes de atravessar aquele momento de maneira mais significativa. Tanto Freud como Frankl foram homenageados com museus na Áustria. 

Sala de espera do consultório de Sigmund Freud, em Viena. Foto: C.Stadler/Bwag

O Museu de Freud fica no seu antigo consultório, localizado na Rua Berggasse número 19, onde atendeu seus pacientes por 47 anos. Foi fundado em 1971 e expandido em 2020. Nele são exibidos os quartos da sua família, os lugares onde ele e a sua filha mais nova, Anna Freud, atuavam e atendiam os seus pacientes, a sua biblioteca particular, objetos pessoais, manuscritos históricos e fotografias. O museu normalmente funciona de quarta-feira a domingo, das 10h às 17h. No entanto, no verão, ele abre na segunda-feira também. A exibição é comentada não apenas em alemão ou inglês como também em francês, italiano, espanhol, turco, croata e português, através do escaneamento de um QR code disponibilizado no local. Já o Museu de Viktor Frankl foi inaugurado no dia 26 de março de 2015,  data em que foi comemorado seu 110º aniversário. Ele está localizado na rua Mariannengasse 1/13, 1090 e abre na segunda, quarta e sexta-feira, das 09h às 13h. Lá, pode-se conhecer a vida e obra do neurologista e fundador da logoterapia, corrente da psicologia que estuda e se debruça sobre o sentido da vida. Esse local abrigava a III Escola de Psicoterapia de Viena e é uma iniciativa do Centro Vienense Viktor Frankl.

Ferdinand Schmutzer, Sigmund Freud, 1926.  Ruth Bohunovsky, CC BY-SA, https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/

Acesse os sites oficiais do Museu de Sigmund Freud e do Museu de Viktor Frankl para saber mais.

Gravação do evento de lançamento de “O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades”

No mês de abril, o Centro Austríaco junto com a Embaixada Austríaca e os institutos Goethe de São Paulo, Brasília e Curitiba, promoveu eventos de lançamento de O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades, de Elfriede Jelinek. 

Para quem não conseguiu comparecer ao evento, a editora Temporal disponibilizou, em seu canal do YouTube, a gravação da mesa com Bettina Hering. Dramaturgista e diretora teatral do renomado Festival de Salzburgo, Hering compartilhou com o público informações sobre Henrik Ibsen e Elfriede Jelinek e aspectos de suas obras. 

Confira o vídeo completo aqui:

O texto, traduzido por Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr. e Ruth Bohunovsky, apresenta um dos traços fundamentais da escrita de Elfriede Jelinek: a intertextualidade – principalmente com as peças Uma Casa de Bonecas e Pilares da Sociedade, de Henrik Ibsen, mas conversa também com textos de diversas áreas (como política, feminismo, cultura pop etc.)

Após o fim da peça Uma Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, Nora passa a ser uma mulher emancipada, que sai em busca da sua liberdade. Como forma de tematizar questões sociais complexas, Elfriede Jelinek retrata as diferentes estruturas de submissão da mulher na sociedade. No caso de Nora, seja pela sua condição de operária de fábrica, seja em seu novo casamento com o Cônsul Weygang – personagem que ela emprestou de outra peça de Ibsen, “Pilares da Sociedade” – ela se vê submissa diante de todas as estruturas que a reprimem – mas também contribui, contrariando suas próprias intenções no começo da peça, para que essas estruturas não se alterem.

Você ainda pode conferir o artigo Henrik Ibsen, criador de “Uma Casa de Bonecas” e outras peças, de Bettina Hering, publicado no blog da editora temporal.

O livro pode ser adquirido no site da editora temporal.

Red Bull: a gigante austríaca

De velocidades que chegam a mais de 200 km/h até estádios de futebol lotados, a gigante Red Bull não parece diminuir o ritmo quando o assunto é negócios no mundo esportivo. Nos últimos anos o nome Red Bull se tornou um sinônimo de esportes radicais e projetos extremos (um salto da estratosfera é um feito difícil de superar), porém suas empreitadas não param aí. Atualmente dona de duas equipes na Fórmula 1, oito times de futebol, e patrocinando cerca de 700 atletas em diversas áreas, o sucesso da empresa austríaca neste ramo é inegável.

Sucesso este que se mantém quando pensamos os projetos individualmente. O Red Bull Racing e seus pilotos prodigiosos Max Verstappen e Sergio Perez estão atualmente em uma temporada absolutamente dominante de GPs. No que tange o futebol a compra do Bragantino de São Paulo parece ter surtido o efeito desejado, o time, atualmente Red Bull Bragantino, saiu da série B e agora segue firme na disputa para a primeira página da série A do Brasileirão. Mais forte ainda segue o Red Bull Leipzig, oficialmente RasenBall Leipzig devido a leis alemãs referentes a patrocínios, muito próximo de encerrar a Bundesliga em terceiro lugar e garantindo seu lugar na próxima Liga dos Campeões.

Uma empresa com este tipo de sucesso, a terceira maior dos “soft drinks” e a maior dos energéticos, só poderia ter uma história de origem digna de se conhecer um pouco. Em 1982, o empresário austríaco Dietrich Mateschitz viajou para a Tailândia e se encontrou com Chaleo Yoovidhya, proprietário da T.C Pharmaceutical. Durante a visita, Mateschitz percebeu que a bebida “Krating Daeng” de Chaleo o ajudou significantemente com a fadiga causada pela diferença de fuso horário. Então em 1984, Mateschitz fundou a Red Bull GmbH em parecia com Chaleo Yoovidhya e a transformou em uma marca internacional. Os dois proprietários então repartiram a empresa em 49% para cada, com os 2% restantes ficando para o filho de Yoovidhya, porém ficou acordado que Mateschitz é que comandaria a empresa. O primeiro Red Bull viria a ser lançado em 1987 na Áustria.

Atualmente a Red Bull GmbH é sediada na cidadezinha de Fuschl am See na Áustria, perto de Salzburg. Comandada pela família Yoovidhya após a morte de Mateschitz em 2022, que lutava há anos contra uma doença.

Bolsa de pós-doutorado NOMIS

O Programa de Bolsas NOMIS no Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria (ISTA) oferece a pesquisadores de pós-doutorado a liberdade de trabalhar em questões na interseção de duas ou mais disciplinas científicas em um ambiente científico único, ao mesmo tempo em que oferece a segurança de orientação científica excepcional de profissionais que são referências em suas respectivas áreas. Uma proposta de projeto interdisciplinar, a ser coorientada por dois representantes de grupos de diferentes disciplinas, identifica projetos e bolsistas que demonstram grande flexibilidade, criatividade e colaboração.

Todos os campos de pesquisa apoiados pelo ISTA serão elegíveis (consulte aqui). Caso a especialização interdisciplinar específica necessária para a pesquisa proposta não esteja disponível no ISTA, um supervisor secundário externo pode ser proposto.

NOMIS e ISTA concederão duas bolsas NOMIS anualmente, após um processo de inscrição em duas etapas (incluindo entrevista).

Benefícios de uma bolsa NOMIS:

Recursos de ponta e de última geração: unidades de serviço científico, fundos de pesquisa e viagens
Liberdade para explorar conceitos de alto risco; posição totalmente financiada por três anos (salário mínimo de 60.500 EUR (bruto) anualmente)
Ambiente de pesquisa aberto, colaborativo e interdisciplinar
Capacitação para o desenvolvimento de habilidades interdisciplinares; orientação dupla
O ensino no ISTA é incentivado (mas não obrigatório), com o objetivo de criar o ambiente mais propício para a criação e transferência de conhecimento
Integridade científica e treinamento de liderança, bem como suporte ao desenvolvimento de carreira
Contato com às redes globais da ISTA e da Fundação NOMIS de pesquisadores excepcionais e pioneiros


Requisitos de elegibilidade:

No momento do recrutamento (ou seja, no prazo de 8 meses após o prazo de candidatura), os candidatos devem ter obtido o seu doutorado e, de preferência, ter adquirido a sua primeira experiência de pós-doutorado e/ou formação interdisciplinar. No entanto, o Painel de Seleção de Bolsas NOMIS também considerará candidatos excepcionalmente promissores que não se enquadrem nos critérios acima.
Idealmente, os candidatos terão experiência inicial de pós-doutorado (ou interdisciplinar significativa). No entanto, o júri de seleção do NOMIS considerará todos os candidatos pendentes.
Os candidatos devem ter uma afiliação existente a uma instituição acadêmica/de pesquisa (nota: os candidatos internos não devem ter trabalhado no ISTA por mais de 12 meses na data limite de inscrição).
Após a rodada de avaliação inicial, os candidatos com melhor classificação devem estar disponíveis para uma entrevista remota após, aproximadamente, 4 a 6 semanas do prazo de envio.
No momento do recrutamento, os candidatos aprovados já devem ter obtido seu doutorado.
Se for bem-sucedido, a bolsa NOMIS deve começar dentro de seis meses a partir da notificação.
Consulte o guia do candidato, as perguntas frequentes e o formulário de auto avaliação de ética antes de se inscrever.

Enquanto isso, envie qualquer dúvida que possa ter sobre o programa para nomis-fellowship@ista.ac.at

Mais informações aqui

Prazo de inscrição: 15 de junho de 2023

Elfriede Jelinek e Peter Handke, dois ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura

Desde o começo deste milênio, uma escritora e um escritor austríacos ganharam o Prêmio Nobel de Literatura: em 2004, foi Elfriede Jelinek quem ganhou a cobiçada condecoração “por seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em romances e dramas que, com extraordinário zelo linguístico, revelam o absurdo dos clichés da sociedade e seu poder de subjugo”. Em 2019, Peter Handke. Na ocasião, o comitê justificou a escolha com as palavras de que o autor mereceria o prêmio “por sua obra influente que explorou, com engenho linguístico, as áreas marginais e a peculiaridade da experiência humana“. 

As frases citadas sobre os motivos da entrega da distinção já apontam que estamos lidando com obras bastante diversas: enquanto Jelinek está interessada, através de sua literatura, em abordar, criticar e revelar contradições da sociedade em que vivemos e tratar de seus mecanismos de poder e discriminação, a obra de Handke se dedica em grande parte a questões de âmbito mais subjetivo ou a relação entre linguagem e a nossa percepção da realidade. 

Vejamos dois exemplos: num dos seus primeiros romances, As amantes [Die Liebhaberinnen], ainda sem tradução no Brasil, Jelinek trata da vida familiar, da construção de famílias e dos imaginários acerca dessa instituição no meio rural. Em vez de histórias de amor romântico com final feliz, a autora apresenta os esforços das duas protagonistas femininas para formar uma família como uma luta em que cada uma tenta eliminar as concorrentes mais fortes, mais atrativas e/ou mais ricas, para se casar com o homem que mais parece prometer uma ascensão social. A possibilidade de uma vida independentemente, também em termos econômicos, existe, mas são as próprias mulheres que optam pelo caminho do casamento para subir na vida. As mulheres, apesar de vítimas das estruturas patriarcais, contribuem assim para a manutenção dessas estruturas que as mantêm num lugar de segunda categoria. Mais que qualquer outro autor ou outra autora, Jelinek analisa e expõe fria e cruelmente o mundo das pequenas mentiras que nos contamos no dia a dia para manter em pé o nosso imaginário acerca da própria felicidade e do nosso sucesso.  

Já Peter Handke, embora às vezes também se manifesta sobre questões políticos (lembrando aqui as polêmicas em que se envolveu no que diz respeito à Sérvia durante a Guerra dos Balcãs), se debruça com grande intensidade sobre questões de âmbito subjetivo e o processo de escrita literária, a relação entre realidade e palavra. Citamos aqui um trecho do texto de orelha de uma das últimas traduções de sua obra aqui no Brasil, A segunda espada – uma história de maio (Tradução de Luis S. Krausz; Estação Liberdade, 2022): “Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício. Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor de seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias. Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo. Qualquer semelhança com os road movies de Wim Wenders em seus melhores tempos não será coincidência: um se alimenta do outro.” 

A palavra “introspecção” talvez seja uma chave possível para comparar, mesmo que de modo bastante superficial, as obras de Jelinek e Handke, pois enquanto o termo é bastante útil para se referir à literatura de Handke, a de Jelinek não combina bem com esse termo, pois a escritora faz algo bem diferente, coloca o mundo, a sociedade, o patriarcado, o capitalismo, o racismo – para citar apenas alguns exemplos – na sua mira e abaixo de seu microscópio literário. 

Para leitores e leitoras interessadas nas obras de Jelinek e Handke, seguem aqui ainda algumas indicações de traduções brasileiras. De Elfriede Jelinek, temos 2 romances traduzidos (A pianista, 2011, Tordesilhas, tradução de Luis S. Krausz; Desejo, 2013, Tordesilhas, tradução de Marcelo Rodinelli). Há poucas semanas, saiu também o texto teatral O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades (2023, Temporal, trad. Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr., Ruth Bohunovsky).  

Já de Peter Handke, há mais traduções disponíveis. Textos em prosa: A mulher canhota & Breve carta para um longo adeus (1985, Brasiliense, trad. Lya Luft); O medo do goleiro diante o pênalti & Bem-aventurada infelicidade (1988, Brasiliense, trad. Zé Pedro Antunes); A repetição (1988, Rocco, trad. Betty Kunz); A ausência (1989, Rocco, trad. Lya Luft); História de uma infância (1990, Companhia das Letras, trad. Nicolino Simone Neto); A tarde de um escritor (1993, Rocco, Reinaldo Guarany); Don Juan – Narrado por ele mesmo (Estação Liberdade, 2003, trad. Simone Homem de Mello); A perda da imagem: ou através da Sierra dos Gredos (2009, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); Ensaio sobre o louco por cogumelos: uma história em si (2019, Estação Liberdade, trad. Augusto Rodrigues); Ensaio sobre a jukebox (2019, Estação Liberdade, trad. Luis S. Krausz); Ensaio sobre o cansaço (2020, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); Ensaio sobre o dia exitoso: sonho de um dia de inverno (2020, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); A segunda espada (2022, Estação Liberdade, trad. Luis S. Krausz). Ainda temos a coletânea de textos teatrais Peças faladas (2015, Perspectiva, trad. Samir Signeu). 

Estudar e trabalhar na Áustria – noções básicas legais e recursos da Uniport

A Uniport, Serviço de Carreira Universidade de Viena, informou em uma palestra online sobre estudar e trabalhar na Áustria como nacional de um país terceiro. Compartilhamos aqui o resumo dos assuntos mais importantes.

Noções básicas legais:

Permissão de Residência – Estudante/ Aufenthaltsbewilligung – Student

• Para nacionais de países terceiros que tenham sido admitidos a estudar no ensino superior em uma instituição da Áustria. 

• Normalmente será emitido por um período de 12 meses, podendo ser renovado posteriormente. 

• Prova de aproveitamento escolar: 16 créditos ECTS por ano letivo. 

• Você deve levar sua “Permissão de Residência – Estudante” em todos os momentos para provar seu direito a residência na Áustria (especialmente durante uma viagem!) 

Trabalhando enquanto estuda…. importante saber

• Acesso ao mercado de trabalho: 20 horas/semana 

• Observação: comece a trabalhar apenas com uma autorização de trabalho válida/”Beschäftigungsbewilligung” 

• Não há alteração no número de horas permitidas (20 horas/semana) durante o intervalo do semestre ou feriados. 

Estágios profissionais (Berufspraktikum) e não remunerados (Volontariat) 

• Estágios profissionais: a autorização para fazer um estágio depende do fato de o estágio ser ou não um requisito obrigatório pelo currículo da sua licenciatura. 

• Estágios não remunerados: até três meses por ano civil com o único objetivo de adquirir conhecimentos práticos e habilidades sem compromisso com o trabalho e sem qualquer direito a remuneração. 

E depois da formatura? 

• Renovação da autorização de residência por mais 12 meses para procura de emprego ou constituição de empresa. 

• Cartão Vermelho-Branco-Vermelho 

O que é o Cartão Vermelho-Branco-Vermelho para graduados universitários/ Rot-Weiß-Rot-Karte für Studienabsolvent*innen?  

Com o Cartão Vermelho-Branco-Vermelho, a Áustria oferece uma autorização de residência para nacionais de países terceiros que desejam trabalhar como trabalhadores qualificados na Áustria e desejam permanecer na Áustria permanentemente. 

O que é preciso para obter o cartão?

Prova de oferta de emprego adequado: 

• O trabalho deve ser correspondente às preferências do candidato, 

• ser pago, e 

• cumprir os critérios especiais de elegibilidade. 

Para um cartão RWR (Rot-Weiß-Rot-Karte ) para graduados universitários, estes são, em particular, os pré-requisitos: 

• Conclusão de um programa de bacharel, pelo menos a segunda etapa de um tradicional programa de diplomas  (“Diplomstudium”), um programa completo de mestrado ou um programa de doutorado/doutorado numa instituição de ensino superior austríaca 

• Contrato de trabalho/contrato preliminar para um emprego correspondente ao seu nível de educação e com um salário mínimo local para trabalho profissional e experiência.

O que deve conter em um curriculum vitae? 

¬ Disposição e estrutura 

¬ Foto (profissional e atualizada) 

¬ Conteúdo 

⎫ Dados pessoais 

⎫ Experiência profissional/estágios/outras experiências profissionais 

⎫ Educação 

⎫ Formação contínua/qualificações adicionais 

⎫ Estudar / ficar no exterior 

⎫ Idiomas, habilidades de TI e outras habilidades relevantes 

⎫ Voluntariado, interesses e hobbies (opcional) 

Outros recursos on-line 

• Informação do Serviço Nacional de Emprego / Arbeitsmarktservice (AMS) sobre emprego de estrangeiros: aqui.

• Site oficial do governo sobre migração: informações sobre autorizações de residência, autorizações de trabalho,  etc.: aqui.

• Informações extensas e específicas do grupo-alvo sobre entrada e residência para estudantes e investigador, compilado por OEAD (Österreichischer Austauschdienst) aqui.

Todas as informações também disponíveis em inglês aqui.

• ABA – Austrian Business Agency: Ampla informação sobre o processo de imigração aqui.

• Aconselhamento profissional multilíngue e apoio em questões de reconhecimento. Auxílio na busca de „cursos intermediários“/formação contínua e seu financiamento aqui.

• Infos des Arbeitsmarktservices (AMS) zu den Themen Ausländer*innenbeschäftigung aqui.

• Brutto-Netto-Rechner der Arbeiterkammer – Calculadora online gratuita para calcular o seu salário antes e depois dos impostos, e/ou convertendo o salário anual em mensal e vice-versa aqui.

• Vienna Business Agency (Informações para pessoas que planejam iniciar seu próprio negócio) disponível aqui.

Meaoiswiamia

O título enigmático deste artigo é, também, o lema da participação da Áustria na renomada Feira do Livro que está acontecendo nestes dias, em Leipzig (de 27 a 30 de abril). A Áustria é o país convidado deste ano, ou seja, sua produção literária ganha destaque especial no evento. Isso traz à tona, mais uma vez, a velha pergunta: existe uma literatura austríaca? E: fazer essa pergunta é relevante?  

A revista Die Zeit pediu a algumas pessoas, poetas e estudiosos, a completarem a frase “Literatura austríaca é…”. O que recebeu foram definições, reflexões e argumentações bem diversas. O escritor Thomas Stangl lembra que nem todo escritor ou toda escritora austríaca nasceu nesse país ou tem o alemão (austríaco) como primeira língua. Maja Haderlap, Florjan Lipuš ou Fiston Mwanza Mujila são exemplos de autores e autoras que vêm de outros contextos linguísticos e, hoje, são parte importante da literatura da Áustria. As margens, o excluído ou os limites borrados são, muitas vezes, as regiões onde se escreve a literatura mais interessante, mais urgente. E as fronteiras nacionais, quando vistas de perto, nunca parecem tão claras e definidas como quando vistas de longe. 

Também o cantor da famosa banda de música pop Wanda, Marco Wanda, tentou completar a frase acima mencionada, mas o resultado apenas mostra que ele está com mais dúvidas que certezas: “Não existe uma literatura austríaca”, diz Wanda, para logo depois listar vários nomes e exemplos de uma tal literatura austríaca e até afirmar que o mero fato de que os poetas da geração Beat dos Estados Unidos terem estudado os textos e músicas de Ernst Jandl e Hans Hölzl (mais conhecido como Falco) faz parte da literatura austríaca. “Querer escrever sobre algo que está mexendo comigo e querer que isso afete também os outros, isso é literatura austríaca. Mas não existe uma literatura austríaca.” 

E a renomada crítica literária Daniela Strigl nem se delonga na questão sobre alguma suposta “essência” da literatura de seu país, mas completa a frase com “… é doida, sobretudo quando vem de Graz”. Pois é lá, na segunda maior cidade do país, onde a literatura experimental e de vanguarda mostra sua maior criatividade e presença. Porque justamente nessa cidade, pergunta-se Strigl: “Não sei”, responde. 

Katharina J. Ferner, poeta e artista performativa, destaca ainda outra característica comum da literatura austríaca: muitas vezes, ela é escrita em alguma forma dialetal e ganha, desse modo, um tom, uma melodia e proximidade especial com os leitores e as leitoras. Já os tradutores dessa literatura ganham um desafio extra quando procuram encontrar em seu idioma uma forma para representar a função do dialeto austríaco (que, aliás, na literatura se transforma em uma linguagem artificial…). 

Por fim, alguns dias antes da Feira do Livro, o escritor Antonio Fian publicou um artigo, em que também reflete sobre a questão da literatura austríaca. Sua conclusão: “Eu já não aguento mais essa pergunta!”  

Antes de os nossos leitores e as nossas leitoras chegarem à uma conclusão semelhante, mudamos de tema e voltando ao título deste artigo, “Meaoiswiamia”. O que será que significa esse lema da participação especial da Áustria na Feira do Livro de Leipzig deste ano? Faça uma pesquisa na internet, tente completar a frase “Meaoiswiemia é ….” e mande sua resposta para o e-mail do Centro Austríaco (centroaustriaco.ufpr@gmail.com). A primeira pessoa que mandar uma resposta (em português) correta, ganha um exemplar do livro Áustria: uma história literária – literatura, cultura e sociedade desde 1650 (Zeyringer, Gollner, 2019, editora UFPR)! 

Vídeo sobre o livro “O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades”

Gisele Eberspächer, uma das tradutoras de “O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades”, gravou um vídeo contando mais sobre esta obra dramática de Elfriede Jelinek.

O texto, publicado pela Editora Temporal e traduzido por Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr. e Ruth Bohunovsky, apresenta um dos traços fundamentais da escrita de Jelinek: a intertextualidade – sobretudo com a peça “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen, mas também com outros textos de diversas áreas (como política, feminismo, cultura pop etc.).

Quer saber mais sobre a relação com os textos de Ibsen, o conceito de New Woman e aspectos que envolvem a obra e o processo de tradução? Então confira esse vídeo super interessante sobre o primeiro texto teatral de Elfriede Jelinek publicado em português brasileiro: