A peça Endsieg, da escritora austríaca Elfriede Jelinek, contou com duas leituras dramáticas, uma em inglês e outra em alemão, que estão disponíveis online.
Escrita em resposta à reeleição de Donald Trump para presidência dos EUA, a peça é uma espécie de sequência para Am Königsweg, escrita na primeira eleição do presidente há oito anos. O texto mostra o retorno de um “novo velho rei” permeado por fantasmas e sombras.
A ação foi uma cooperação entre o Martin E. Segal Theatre Center, de Nova York, e o Wiener Festwochen. A leitura dramática foi dirigida por Milo Rau e o texto em inglês contou com tradução de Gitta Honegger, que assina a tradução de vários textos de Jelinek. A leitura alemã foi feita pela atriz Ursina Lardi e a leitura em inglês por Nicole Ansari-Cox.
A editora Temporal traz para o Brasil uma importante referência para as discussões de tradução de teatro: se trata do livro “Teatro e Tradução”, da pesquisadora Margherita Laera. A obra foi traduzida pelas professoras Ruth Bohunovsky e Gisele Eberspächer e pelas alunas Ana Carolina Olivera Freitag, Juliana Fogiato Rodrigues, Laísa Viegas e Karen Silva no âmbito de uma disciplina do curso de Letras da UFPR.
No livro, a “estudiosa feminista, tradutora de teatro e migrante italiana” – como se autodefine na introdução do livro – analisa as questões éticas, políticas e estéticas que permeiam a tradução de teatro, e o processo de tradução em geral.
Mais do que oferecer respostas definitivas, Laera convida à reflexão sobre como a tradução pode desafiar o status quo e contribuir para uma cultura mais diversa e inclusiva. A obra desmonta ao longo de três capítulos a ideia de equivalência linguística, examina as relações de poder na adaptação teatral e argumenta que ampliar o repertório de traduções é essencial para democratizar o acesso ao teatro e diversificar as vozes presentes nos palcos.
O livro é menos um manual e mais um diálogo: “O objetivo deste livro não é prescrever, mas questionar, criticar e propor pontos para discussões futuras”, escreve a especialista. Ao explorar conceitos como performabilidade, mostra como o processo de traduzir não apenas transporta significados, mas também influencia a encenação, a recepção e a interpretação do teatro em diferentes contextos culturais.
A edição conta também com um prefácio inédito de Alinne Balduino P. Fernandes, doutora em Dramaturgia e Tradução pela Queen’s University Belfast (QUB) e professora da UFSC.
Quatro lançamentos recentes de editoras brasileiras trazem obras de três escritores e escritoras austríacas para o Brasil – e contribuem com a divulgação da literatura austríaca em português brasileiro. São eles:
Damas de casaco de pele e chicote – Wanda von Sacher-Masoch Trad. Karina Jannini; Editora Ercolano
Até então inédito em português, o livro traz 11 histórias provocantes, cujas protagonistas são mulheres complexas e enigmáticas que desafiam as normas de gênero e poder da sociedade do século XIX.
O livro Damas de casaco de pele e chicote é mais que uma simples obra literária; é um questionamento profundo sobre as relações de poder e a possibilidade do amor verdadeiro em um mundo marcado pela desigualdade de gênero. Em uma escrita que dialoga com o presente, os contos de Wanda desestabilizam as normas sociais hegemônicas, propondo uma espécie de reparação histórica através da ficção.
A parede – Marlen Haushofer Trad. Sofia Mariutti, Editora Todavia
Um dos clássicos modernos austríacos. Uma mulher passa alguns dias num chalé de caça nas montanhas, mas logo se vê isolada por uma misteriosa doma invisível que a separa do mundo exterior, aparentemente desprovido de vida. É um romance em que a protagonista lida tanto com o mundo externo quanto com o mundo interno.
O livro já teve inclusive uma montagem no Burgtheater por Christian Nickelcom a atriz Dorothee Hartinger, em que somos convidados a ver a escadaria lateral do teatro como as montanhas.
Immanuel Kant, Thomas Bernhard Trad. Angélica Neri e Hugo Simões, Editora UFPR
Realizada com supervisão da coordenadora do Centro Austríaco, Ruth Bohunovsky, esta tradução dá continuidade ao trabalho do Centro de tradução de peças do escritor austríaco, iniciado por O Presidente e Uma festa para Boris. Em Immanuel Kant, encontramos uma sátira do filósofo, já cego, indo para a América de barco na companhia de seu papagaio.
Na pista da verdade – Thomas Bernhard Trad. Sergio Tellaroli; Editora Todavia
O livro traz ensaios escritos entre 1950 e a morte de Bernhard, além de entrevistas e outros textos em que o autor fala sobre sua própria obra. Mais informações no site da editora.
O lançamento da peça “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard, traduzida por Angélica Neri e Hugo Simões com supervisão de Ruth Bohunovsky, foi realizado no último dia 04 de dezembro. Além dos tradutores e da supervisora, participaram da conversa Alan Norões, preparador da Editora UFPR, e o professor da UEM Alexandre Flory, que fez uma leitura dramática de seis trechos do texto.
A gravação do evento está disponível no YouTube do Centro Austríaco:
O Centro Austríaco convida para o lançamento do livro “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard, a ser realizado no dia 04 de dezembro de 2024 às 19h em formato online. O lançamento conta com a participação dos tradutores da obra, Angélica Neri e Hugo Simões, da supervisora da tradução, Ruth Bohunovsky, do preparador Alan Norões e leitura crítica de Alexandre Flory. As inscrições podem ser feitas aqui.
O filósofo Immanuel Kant está num navio que o leva em direção aos Estados Unidos, onde fará uma operação de catarata com os melhores cirurgiões do mundo, professores da Universidade de Colúmbia. Acompanhado pela esposa, pelo secretário Ernesto Ludovico e pelo papagaio Frederico, o intelectual está no centro da sociedade que o mundo contemporâneo forjou e que o microcosmo claustrofóbico da embarcação reproduz de maneira mordaz: representantes da Igreja e do Estado bebem champanhe com exemplares da grande burguesia, enquanto os motores do barco pifam e o papagaio, que repete frases feitas e termos-chave, só pode mesmo ser considerado o melhor aluno daquele iluminista morto em 1804.
Essa travessia põe a figura que dá título a esta peça num lugar não apenas isolado no espaço, mas também embaralhado no tempo — um telegrama, invenção de meados do século XIX, chega ao navio com uma mensagem para o protagonista; alguém menciona o naufrágio do Titanic, de 1912. Tal recurso narrativo, que deslocaliza e confunde, reforça que quem está ali não é, afinal, o autor histórico de Crítica da razão pura, eterno morador de Königsberg e nunca casado, mas uma representação hilariante dos monstros canhestros que conceitos como razão e verdade, na sua vigília implacável, podem criar. Assim, um Kant tratado ao mesmo tempo como fisicamente invalido e rei nababesco é a figura perfeita de um universo que também ele precisa ser levado urgentemente ao hospital sob pena de perder toda a visão.
Mantendo as qualidades que o tornaram um dos maiores escritores em língua alemã, o austríaco Thomas Bernhard confirma nesta dramaturgia, que estreou em 1978 com direção de Claus Peymann, a crítica feroz aos fundamentos de tudo aquilo que tem sustentado a soberba ocidental. A tradução, trabalho notável de Angélica Neri e Hugo Simões, com organização de Ruth Bohunovsky, traz consigo o exagero, o absurdo e toda a potência de uma obra de complexidade e pertinência ímpares.
A publicação encerra o projeto do Centro Austríaco de tradução de três peças do Thomas Bernhard. Já foram publicados O Presidente (trad. Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco) e Uma festa para Boris (trad. Hugo Simões e Luiz Abdala Jr.).
Há dois anos, Clemens J. Setz ganhou o prêmio mais importante da literatura de língua alemã, o Prêmio Büchner. Desde a última segunda-feira à noite, dia 6 de novembro, o autor austríaco é também o vencedor do Prêmio do Livro Austríaco (20.000 euros). O escritor natural de Graz era um dos favoritos e ganhou o prêmio pelo seu romance “Monde vor der Landung” [Luas antes do pouso].
No romance histórico “Monde vor der Landung”, publicada pela editora Suhrkamp e ainda sem tradução no Brasil (aliás, ainda não temos nenhum livro publicado desse autor mais promissor no cenário de literatura de língua alemã neste momento), a personagem central é Peter Bender, que propagou a “teoria do mundo oco” nos anos de 1920. Contra a vontade de Setz, a figura foi relacionada com os cépticos contemporâneos do coronavírus. Ultimamente, tem se discutido o romance também no contexto do crescente antissemitismo na Europa. Setz reconheceu o paralelo infeliz com os dias de hoje durante a cerimônia de entrega do prêmio e se posicionou claramente: “Não escrevo romances históricos para que as coisas voltem a acontecer!”
Clemens J. Setz nasceu em 1982 em Graz, onde estudou matemática e Letras Alemão (Germanística). Atualmente, vive em Viena como tradutor e escritor.
Clique aqui para acessar mais informações sobre o prêmio e os outros indicados.
Aqui, no Centro Austríaco, temos o projeto intitulado “Teatro e dramaturgia austríacos”, no qual são lançados verbetes sobre dramaturgos. Recentemente lançamos o verbete sobre Clemens Setz, clique aqui para conferir.
Desde o começo deste milênio, uma escritora e um escritor austríacos ganharam o Prêmio Nobel de Literatura: em 2004, foi Elfriede Jelinek quem ganhou a cobiçada condecoração “por seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em romances e dramas que, com extraordinário zelo linguístico, revelam o absurdo dos clichés da sociedade e seu poder de subjugo”. Em 2019, Peter Handke. Na ocasião, o comitê justificou a escolha com as palavras de que o autor mereceria o prêmio “por sua obra influente que explorou, com engenho linguístico, as áreas marginais e a peculiaridade da experiência humana“.
As frases citadas sobre os motivos da entrega da distinção já apontam que estamos lidando com obras bastante diversas: enquanto Jelinek está interessada, através de sua literatura, em abordar, criticar e revelar contradições da sociedade em que vivemos e tratar de seus mecanismos de poder e discriminação, a obra de Handke se dedica em grande parte a questões de âmbito mais subjetivo ou a relação entre linguagem e a nossa percepção da realidade.
Vejamos dois exemplos: num dos seus primeiros romances, As amantes [Die Liebhaberinnen], ainda sem tradução no Brasil, Jelinek trata da vida familiar, da construção de famílias e dos imaginários acerca dessa instituição no meio rural. Em vez de histórias de amor romântico com final feliz, a autora apresenta os esforços das duas protagonistas femininas para formar uma família como uma luta em que cada uma tenta eliminar as concorrentes mais fortes, mais atrativas e/ou mais ricas, para se casar com o homem que mais parece prometer uma ascensão social. A possibilidade de uma vida independentemente, também em termos econômicos, existe, mas são as próprias mulheres que optam pelo caminho do casamento para subir na vida. As mulheres, apesar de vítimas das estruturas patriarcais, contribuem assim para a manutenção dessas estruturas que as mantêm num lugar de segunda categoria. Mais que qualquer outro autor ou outra autora, Jelinek analisa e expõe fria e cruelmente o mundo das pequenas mentiras que nos contamos no dia a dia para manter em pé o nosso imaginário acerca da própria felicidade e do nosso sucesso.
Já Peter Handke, embora às vezes também se manifesta sobre questões políticos (lembrando aqui as polêmicas em que se envolveu no que diz respeito à Sérvia durante a Guerra dos Balcãs), se debruça com grande intensidade sobre questões de âmbito subjetivo e o processo de escrita literária, a relação entre realidade e palavra. Citamos aqui um trecho do texto de orelha de uma das últimas traduções de sua obra aqui no Brasil, A segunda espada – uma história de maio (Tradução de Luis S. Krausz; Estação Liberdade, 2022): “Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício. Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor de seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias. Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo. Qualquer semelhança com os road movies de Wim Wenders em seus melhores tempos não será coincidência: um se alimenta do outro.”
A palavra “introspecção” talvez seja uma chave possível para comparar, mesmo que de modo bastante superficial, as obras de Jelinek e Handke, pois enquanto o termo é bastante útil para se referir à literatura de Handke, a de Jelinek não combina bem com esse termo, pois a escritora faz algo bem diferente, coloca o mundo, a sociedade, o patriarcado, o capitalismo, o racismo – para citar apenas alguns exemplos – na sua mira e abaixo de seu microscópio literário.
Para leitores e leitoras interessadas nas obras de Jelinek e Handke, seguem aqui ainda algumas indicações de traduções brasileiras. De Elfriede Jelinek, temos 2 romances traduzidos (A pianista, 2011, Tordesilhas, tradução de Luis S. Krausz; Desejo, 2013, Tordesilhas, tradução de Marcelo Rodinelli). Há poucas semanas, saiu também o texto teatral O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades (2023, Temporal, trad. Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr., Ruth Bohunovsky).
Já de Peter Handke, há mais traduções disponíveis. Textos em prosa: A mulher canhota & Breve carta para um longo adeus (1985, Brasiliense, trad. Lya Luft); O medo do goleiro diante o pênalti & Bem-aventurada infelicidade (1988, Brasiliense, trad. Zé Pedro Antunes); A repetição (1988, Rocco, trad. Betty Kunz); A ausência (1989, Rocco, trad. Lya Luft); História de uma infância (1990, Companhia das Letras, trad. Nicolino Simone Neto); A tarde de um escritor (1993, Rocco, Reinaldo Guarany); Don Juan – Narrado por ele mesmo (Estação Liberdade, 2003, trad. Simone Homem de Mello); A perda da imagem: ou através da Sierra dos Gredos (2009, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); Ensaio sobre o louco por cogumelos: uma história em si (2019, Estação Liberdade, trad. Augusto Rodrigues); Ensaio sobre a jukebox (2019, Estação Liberdade, trad. Luis S. Krausz); Ensaio sobre o cansaço (2020, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); Ensaio sobre o dia exitoso: sonho de um dia de inverno (2020, Estação Liberdade, trad. Simone Homem de Mello); A segunda espada (2022, Estação Liberdade, trad. Luis S. Krausz). Ainda temos a coletânea de textos teatrais Peças faladas (2015, Perspectiva, trad. Samir Signeu).
Wolfgang Bauer (1941-2005) foi um escritor cujo legado para a literatura austríaca é inestimável, embora pouco reconhecido, talvez. Se vivo ainda, completaria hoje, 18 de março, 82 anos.
Versátil, Bauer enveredou pelos mais variados gêneros. Não obstante, o corpus de sua obra constitui-se majoritariamente de peças teatrais, nas quais ele pôde exercer toda a sua criatividade e aptidão para a criação dramatúrgica.
A despeito de controvérsias e escândalos com relação à sua figura pública e das críticas desfavoráveis, que muitas vezes se aproveitavam dos burburinhos midiáticos para pormenorizar a sua arte, ele foi capaz de construir uma carreira literária/teatral prolífica e respeitável.
Wolfgang Bauer, 1972.
Afinal, assim como os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura de 2004 e de 2019, Elfriede Jelinek e Peter Handke, Bauer é considerado um dos grandes nomes do teatro austríaco, sendo, inclusive, admirado por estes e por outros literatos dentro e fora da Áustria.
As suas peças são caracterizadas pela estrutura pouco convencional, no que, é provável, seus Mikrodramen [Microdramas] (1962-1963) configuram o ponto deste traço, assim como pelo uso elaborado e refletido da linguagem, a exemplo de Magic afternoon (1968), de onde recebeu a alcunha Magic Wolfi, em que o uso de dialeto é explorado na interação dialógica entre as personagens.
Outra característica importante da obra baueriana é a presença massiva de elementos surrealistas e fantasiosos, os quais surgem já no seu primeiro trabalho, Der Schweinetransport [O transporte de porcos] (1961), escrita muito sob influência do teatro do absurdo de Ionesco.
Aliás, vale mencionar que Bauer foi apontado por Martin Esslin, junto de Thomas Bernhard e Peter Handke, como os únicos expoentes desta corrente na Áustria. E foi ele, Esslin, o responsável por popularizar Bauer em palcos internacionais, ao levar algumas de suas peças para os Estados Unidos.
Também têm especial protagonismo na obra baueriana o cômico e o hiper-realismo, que, de maneira sutil e complexa, trazem à tona as incongruências da sociedade austríaca e dos seres humanos em geral.
Temática, linguística e/ou estilisticamente, Wolfgang Bauer estava sempre em busca de se distanciar do que havia feito a cada novo trabalho, sem perder sua personalidade literária pelo meio do caminho.
E essas são apenas algumas de suas qualidades enquanto dramaturgo, as que mais saltam aos olhos, mas certamente há muito a ser dito sobre Bauer.
Este texto se apresenta não apenas como uma homenagem a este que foi, sem sombra de dúvidas, um virtuose do teatro, mas como um convite para que mais pessoas busquem conhecê-lo, com a consciência de que ao menos por enquanto o acesso à sua obra é bastante limitado no Brasil.
De toda forma, para quem tiver interesse, há uma tradução de Change (1968-1969) disponível em algumas bibliotecas do Instituto Goethe, Ruth Bohunovsky publicou um artigo chamado Os microdramas de Wolfgang Bauer: o riso como liberação e como provocação e no site do Centro Austríaco está disponível um verbete, o qual pode ser acessado clicando aqui, em que é possível conferir algumas informações importantes a respeito dele e de sua obra, bem como trechos de suas peças em tradução para o português.
Convidamos a todos para participar do nosso grupo de estudo e leitura de peças dramáticas!
Através da leitura de peças dramáticas de diversos autores em traduções brasileiras, e para quem tiver interesse, nas línguas originais (inglês, francês e alemão), o grupo pretende contextualizar e debater textos dramatúrgicos e refletir sobre questões da tradução teatral. A leitura em outras línguas não é obrigatória, pois a leitura em conjunto será em português.
Os encontros serão semanais e presenciais, com duração de 90 minutos, nas sextas-feiras. A leitura prévia dos textos não é obrigatória.
Pré-requisito para participar: não há.
Público-alvo: alunos e interessados em teatro, dramaturgia e tradução.
Peças: a definir.
Interessados deverão preencher o formulário disponível aqui.
Demorou, mas chegou: mais uma tradução de uma peça de Thomas Bernhard: “Uma festa para Boris”.
Depois de “O presidente”, publicada em 2020 numa tradução de Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco Júnior, a peça que acabou de chegar à livraria da UFPR é a segunda que foi traduzida por membros do Centro Austríaco (Hugo Simões e Luiz Abdala Jr.). Escrita e estreada em Salzburg em 1970, é a primeira grande peça do dramaturgo austríaco, está presente nos palcos europeus até hoje e contém tudo que torna a escrita literária e dramatúrgica do autor polêmico tão inconfundível: une o trágico com o cômico, o grotesco com o filosófico, um humor sombrio e um ritmo único na linguagem, manias monológicas das personagens centrais e relações humanas marcadas pelo cinismo, a crueldade e a incompreensão mútua, mas também pelo absurdo e o medo inerente à existência humana.
Como todas as peças de Thomas Bernhard (que, frequentemente, é comparado com Beckett e Sartre), “Uma festa para Boris” não se destaca pela ação, pelo enredo, mas pelas falas de teor existencialista, pela ironia e pelo olhar satírico e cruel sobre a sociedade contemporânea. A personagem central se chama a Bondosa, mas tudo o que lhe falta é a bondade. A peça apresenta os preparativos e a festa de aniversário que ela organiza para seu marido, Boris – que, assim como sua esposa e os outros 13 moradores do “Asilo de Aleijados”, não tem pernas e se locomove em uma cadeira de rodas. E, como sempre, o final é bernhardiano.
Além da tradução completa da peça, o livro traz um prefácio do encenador teatral, músico e mediador de literatura Flávio Stein, um posfácio de Manfred Mittermayer, especialista na obra de Bernhard e coordenador do Arquivo Literário de Salzburg, além de textos introdutórios de Helmut Galle (USP) e do tradutor e escritor Antônio Xerxenesky.
Com as festividades natalinas chegando, nada melhor do que presentear alguém com um livro que pode render um bom assunto para a ceia de Natal!