Qual é a diferença entre encenar uma peça de teatro e um romance?

Nos teatros de Viena, é bastante comum vermos adaptações cênicas de romances, que não foram escritos para serem montados num palco. Entre eles, por exemplo, A montanha mágica, de Thomas Mann ou Metamorfose, de Franz Kafka – ambas as montagens podem ser vistas no Burgtheater. Mas transformar um romance numa obra cênica não é nada fácil e é bastante instigante pensar e observar tudo que acontece quando um romance (para cuja leitura precisamos vários dias ou semanas) se transforma numa apresentação teatral de uma, duas ou três horas. 

Outro exemplo, atualmente em cartaz no Volkstheater de Viena, é Malina, de Ingeborg Bachmann, um marco do movimento feminista pós-guerra: um romance icônico, mas pouco lido fora do círculo acadêmico. A encenadora Claudia Bauer – conhecida também pela aclamada montagem de humanistää, de Ernst Jandl – dá nova vida a essa obra, transformando-a em peça teatral. No palco, os muitos “Eus” da narradora são interpretados por sete atrizes diferentesque, em alguns momentos, dividem o palco simultaneamente, representando o turbilhão de vozes na cabeça da protagonista do romance. Malina se transforma assim em um espetáculo contemporâneo: dinâmico, cômico, divertido e em diálogo com as questões do nosso tempo. A peça tem lotado o teatro e conquistado novos públicos.

Publicado em 1971 – apenas um ano antes da morte trágica da autora –, Malina é um texto introspectivo que mergulha na complexidade da psique feminina. Fragmentado e inovador, o romance retrata a luta da protagonista sem nome para encontrar sua identidade em uma sociedade patriarcal. Entrelaçando sonhos, reflexões, cartas, telefonemas e versos poéticos, a história aborda sua convivência com Ivan, o amante ausente, e Malina, símbolo de estabilidade racional.

E vem mais por aí! Em janeiro de 2025, Claudia Bauer estreia no mesmo Volkstheater Krankheit oder Moderne Frauen(Doença ou mulheres modernas), de Elfriede Jelinek. Fique de olho, porque vamos trazer as novidades e críticas por aqui! 

Oficina de elaboração de materiais didáticos para aprendizagem cultural de alemão como língua estrangeira no Brasil

Evento de Extensão: Oficina de elaboração de materiais didáticos para
aprendizagem cultural de alemão como língua estrangeira no Brasil

O workshop tem como objetivo promover a elaboração colaborativa de materiais
didáticos inéditos para o ensino de alemão como língua estrangeira no Brasil. O
evento pretende discutir conceitos teóricos na prática através do desenvolvimento de
materiais que procuram instigar a aprendizagem cultural-reflexiva, abordando
especialmente assuntos relacionados ao universo cultural e discursivo da Áustria e do
Brasil. A dinâmica do workshop se propõe a ser uma experiência que mescle teoria e
prática, incentivando os participantes a criarem materiais didáticos autorais durante o
workshop. Os materiais desenvolvidos no evento serão disponibilizados gratuitamente
no site do Centro Austríaco.

Coordenação: Cristina Nicol Rettenberger; Catarina Portinho-Nauiack e Franziska
Lorke
Local: Reitoria, UFPR – Curitiba, PR
Datas: 21-22/03/2025 – Workshop presencial
Valor do subsídio: valor aproximado R$1000,00


Condições para recebimento do subsídio:

  1. O subsídio será pago no valor máximo de R$1000,00, somente para
    gastos de deslocamento e pernoite;
  2. O pagamento do subsídio será pago APÓS o evento e condicionado ao envio
    de comprovantes ORIGINAIS para o Comitê organizador.

Número de participantes contemplados: até 6 (seis)

Inscrições: de 10 a 18 de dezembro de 2024
Acesse o formulário de inscrição aqui: https://forms.gle/8Jo4gCXBMFx6PdYG7

Critérios e procedimentos a serem utilizados na seleção:
Destina-se principalmente a professores iniciantes e futuros professores de alemão
que tenham conhecimentos sólidos nas áreas de alemão como língua estrangeira e
didática de línguas estrangeiras.

Procedimentos: Análise documental.

Critérios:
1) Ser professor/a da área de alemão como língua estrangeira ou estudante de
Letras – alemão;
2) Idealmente, estar no início da carreira;
3) Ter disponibilidade de participar de todas as etapas do evento;
4) Apresentar proposta inicial de material didático autoral,
preferencialmente sobre Kafka;
5) Descrever sua motivação para participação.

Documentos necessários para inscrição:

  1. Formulário de inscrição;
  2. RG e CPF;
  3. Diploma ou Comprovante de matrícula e Histórico Escolar atualizado;
  4. Currículo: Preferencialmente Lattes, ou currículo vitae resumido;
  5. Proposta inicial de material didático autoral .

Componentes da banca de seleção:
Leitora OeAD – Cristina Rettenberger;
Prof. Dra. Catarina Portinho-Nauiack (UFPR)
Prof. Franziska Lorke (UTFPR)

Contato e informações: centroaustriaco.ufpr@gmail.com

Acesse o edital em pdf clicando aqui.

Stefan Zweig e sua novela Xadrez (Schachnovelle) no Burgtheater

Está fazendo enorme sucesso no Burgtheater de Viena uma adaptação musical do famoso livro Xadrez, escrito por Stefan Zweig durante seu exílio no Brasil e considerada uma de suas obras-primas. O texto, uma narrativa em prosa, é ambientada em um navio que faz a travessia entre Nova York e Buenos Aires, onde se desenrola um confronto simbólico entre diferentes mundos e psicologias.

As personagens centrais são Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez, retratado
como um homem de poucas palavras, simples e intelectualmente limitado fora do tabuleiro, mas um gênio estratégico no jogo, e Dr. B., um enigmático passageiro que revela ter desenvolvido suas habilidades no xadrez de maneira peculiar e traumática.

Na montagem no Burgtheater, o encenador, ator e músico Nils Strunk parodia todos os personagens da trama, canta, atua e dança. O resultado é uma performance de ritmo acelerado, dançante, envolvente e com bastante suspense. O público adorou, está lotando todas as apresentações e ainda pede bis. Vale a pena dar uma espiada no trailer:

Nova edição da revista Projekt comemora 200 anos da imigração alemã no Brasil

A nova edição a revista Projekt, editada pela BraDLV (Associação Brasileira de Professores de Alemão), acaba de ser publicada e comemora os 200 anos da imigração alemã no Brasil.

O tema do ano é “Und was mit der deutschen Sprache?” e os textos trazem exemplos atuais da língua, principalmente em relação ao alemão no contexto do multilinguismo. A revista esta disponível online gratuitamente e pode ser lida aqui.

Confira o lançamento do livro “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard

O lançamento da peça “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard, traduzida por Angélica Neri e Hugo Simões com supervisão de Ruth Bohunovsky, foi realizado no último dia 04 de dezembro. Além dos tradutores e da supervisora, participaram da conversa Alan Norões, preparador da Editora UFPR, e o professor da UEM Alexandre Flory, que fez uma leitura dramática de seis trechos do texto.

A gravação do evento está disponível no YouTube do Centro Austríaco:

O livro pode ser encontrado no site da Editora UFPR.

Além desta tradução, o Centro Austríaco já fez outros projetos relacionados ao escritor:

Ernst Jandl na floresta vienense – o Theater Dschungel Wien

Sabia que existe um teatro-floresta no centro de Viena, bem no meio do complexo arquitetônico MUSEUMSQUARTIER? O MQ é um centro cultural inaugurado em 2001, mas foi construído já no século XVIII, quando abrigava as cavalariças imperiais de Viena (Kaiserliche Hofstallungen).

O teatro Dschungel Wien apresenta apenas produções para o público infanto-juvenil. Este mês, entre outras peças, apresenta uma montagem de “Ottos Mops”, inspirado no famoso poema sonoro de Ernst Jandl em que usa apenas a vogal “o”. Leia, escute e assiste a leitura do poema aqui.

Lançamento do livro “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard

O Centro Austríaco convida para o lançamento do livro “Immanuel Kant”, de Thomas Bernhard, a ser realizado no dia 04 de dezembro de 2024 às 19h em formato online. O lançamento conta com a participação dos tradutores da obra, Angélica Neri e Hugo Simões, da supervisora da tradução, Ruth Bohunovsky, do preparador Alan Norões e leitura crítica de Alexandre Flory. As inscrições podem ser feitas aqui.

O livro pode ser comprado pelo site da Editora UFPR.

O filósofo Immanuel Kant está num navio que o leva em direção aos Estados Unidos, onde fará uma operação de catarata com os melhores cirurgiões do mundo, professores da Universidade de Colúmbia. Acompanhado pela esposa, pelo secretário Ernesto Ludovico e pelo papagaio Frederico, o intelectual está no centro da sociedade que o mundo contemporâneo forjou e que o microcosmo claustrofóbico da embarcação reproduz de maneira mordaz: representantes da Igreja e do Estado bebem champanhe com exemplares da grande burguesia, enquanto os motores do barco pifam e o papagaio, que repete frases feitas e termos-chave, só pode mesmo ser considerado o melhor aluno daquele iluminista morto em 1804.

Essa travessia põe a figura que dá título a esta peça num lugar não apenas isolado no espaço, mas também embaralhado no tempo — um telegrama, invenção de meados do século XIX, chega ao navio com uma mensagem para o protagonista; alguém menciona o naufrágio do Titanic, de 1912. Tal recurso narrativo, que deslocaliza e confunde, reforça que quem está ali não é, afinal, o autor histórico de Crítica da razão pura, eterno morador de Königsberg e nunca casado, mas uma representação hilariante dos monstros canhestros que conceitos como razão e verdade, na sua vigília implacável, podem criar. Assim, um Kant tratado ao mesmo tempo como fisicamente invalido e rei nababesco é a figura perfeita de um universo que também ele precisa ser levado urgentemente ao hospital sob pena de perder toda a visão.

Mantendo as qualidades que o tornaram um dos maiores escritores em língua alemã, o austríaco Thomas Bernhard confirma nesta dramaturgia, que estreou em 1978 com direção de Claus Peymann, a crítica feroz aos fundamentos de tudo aquilo que tem sustentado a soberba ocidental. A tradução, trabalho notável de Angélica Neri e Hugo Simões, com organização de Ruth Bohunovsky, traz consigo o exagero, o absurdo e toda a potência de uma obra de complexidade e pertinência ímpares.

A publicação encerra o projeto do Centro Austríaco de tradução de três peças do Thomas Bernhard. Já foram publicados O Presidente (trad. Gisele Eberspächer e Paulo Rogério Pacheco) e Uma festa para Boris (trad. Hugo Simões e Luiz Abdala Jr.).

Johann Nestroy e o João Linguiça [Hanswurst]: o riso revelador

Johann Nestroy, uma das figuras mais proeminentes do teatro popular austríaco do século XIX (sobre o qual publicamos um verbete há poucos dias), produziu uma vasta obra teatral com figuras cômicas que remetem à tradição do Hanswurst, ou João Linguiça em tradução para o português.

Hanswurst, uma personagem oriunda da cultural popular medieval, era uma figura grotesca e cômica, frequentemente caracterizada por trajes chamativos, humor burlesco e uma mistura de astúcia e tolice. Ele representava o espírito popular, atuando como um porta-voz das classes mais simples, muitas vezes zombando das figuras de autoridade e desafiando normas sociais de forma irreverente.

Embora Nestroy tenha vivido em um contexto cultural e artístico posterior, ele herdou elementos da tradição de Hanswurst. Como dramaturgo e ator, Nestroy modernizou e refinou o teatro popular, adaptando-o às mudanças de gosto e às transformações sociais de sua época. Em suas peças, ele introduziu um humor mais sofisticado, com trocadilhos espirituosos e sátiras sociais afiadas, mas ainda assim manteve um vínculo claro com o espírito anárquico e subversivo do teatro de Hanswurst.

Assim como Hanswurst, os personagens de Nestroy frequentemente desafiavam a autoridade, questionavam hierarquias sociais e expunham hipocrisias de maneira humorística e incisiva. Além disso, o humor físico, o jogo de palavras e a teatralidade exagerada que caracterizam Hanswurst encontram ecos nos personagens cômicos e nos diálogos espirituosos de Nestroy. Ambos também conquistaram um amplo público, especialmente entre as classes trabalhadoras, ao abordar questões próximas do cotidiano e refletir as preocupações de seu contexto social.

Apesar das semelhanças, há também diferenças entre o Hanswurst e algumas das figuras cômicas de Nestroy. Enquanto Hanswurst era uma figura de improvisação e comédia mais crua, Nestroy trouxe ao teatro uma sofisticação literária, apresentando peças bem estruturadas e diálogos que combinavam humor com profundidade crítica (embora tenha passado uns dias na cadeia por descumprir as regras da censura com improvisações críticas durante as apresentações de suas peças). Além disso, Nestroy trabalhava em um cenário vienense mais urbanizado e em um teatro que começava a atrair também a emergente burguesia, enquanto o Hanswurst tradicional se dirigia principalmente a um público predominantemente rural e mais simples.

Veja nas fotos algumas imagens da figura do Hanswurst e uma representação dele na fachada exterior do Burgtheater de Viena:

Arthur Schnitzler, o duplo de Sigmund Freud, dissecando a alma humana

Arthur Schnitzler é um autor bastante conhecido e traduzido no Brasil, famoso também pela adaptação cinematográfica de seu Breve romance de sonhos [Traumnovelle] por Stanley Kubrick: “De olhos bem fechados” [Eyes Wide Shut], de 1999, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papéis principais.

Na Áustria, Schnitzler é presença constante nos palcos, sendo autor de uma vasta produção
dramática repleta de questionamentos e nuances psicológicas. Entre suas peças mais instigantes está Das weite Land (A Vastidão), atualmente em cartaz no Akademietheater, um dos espaços cênicos do renomado Burgtheater. Classificada como uma tragicomédia, a peça mergulha no universo da burguesia, onde diálogos aparentemente banais revelam, nas entrelinhas, a complexidade e a profundidade da alma humana, seus desejos, fracassos e suas esperanças. Em 1987, o cineasta suíço Luc Bondy adaptou o texto dramático de Schnitzler para o cinema. E ainda em 2025, teremos uma nova montagem para outro teatro de Viena, o Josephstadt.

A trama tem início com o suicídio de um pianista, suposto amante de Genia, esposa do industrial Friedrich Hofreiter, ele próprio envolvido em traições constantes. Como um cirurgião habilidoso, Schnitzler disseca as relações amorosas, os impulsos eróticos e as amizades de sua época, expondo as contradições e ambiguidades das conexões humanas sem oferecer soluções ou julgamentos. Poucos escritores conseguiram iluminar as lógicas paradoxais das relações íntimas com tamanha perspicácia. Vale atenção também aos papéis femininos de Schnitzler, as mulheres não apenas participam igualmente dos jogos de sedução e traição, mas geralmente possuem mais objetividade e capacidade de compreensão das lógicas das relações humanas.

Na montagem atual no Akademietheater, não vemos um cenário ou atuações em estilo realista, mas uma interpretação estilizada. A ação se desenrola em frente de uma cortina preta, há apenas três poltronas no palco, os atores entram e saem pela cortina, acentuando o caráter quase marionético de seus personagens. Michael Maertens, no papel de Friedrich Hofreiter, ganhou o Prêmio Nestroy como melhor ator em 2023. No site do Burgtheater, você pode ver algumas fotos e o trailer, assim como mais informações técnicas da montagem atual.

Arthur Schnitzler é também assunto de algumas pesquisas desenvolvidas no Centro Austríaco – em breve lançaremos um verbete sobre esse autor. Além disso, partes da peça Der Reigen (A Ciranda) foram traduzidas por Deborah Raymann como parte de sua dissertação de mestrado, disponível no acervo digital da UFPR.

Buch Wien: A Feira do Livro de Viena

A Buch Wien, a maior feira literária de Viena, terminou no dia 24 de novembro. Durante quatro dias intensos, visitantes tiveram a chance de explorar o trabalho de várias editoras — das mais consagradas às independentes — e participar de encontros com renomados autores e autoras como Robert Menasse, Arno Geiger, Barbara Zeman, Doris Knecht, Valerie Fritsch, Elias Hirschl e Reinhard Kaiser-Mühlecker.

As novas publicações da obra riquíssima de Maria Lazar tiveram um destaque especial. A autora teve muito sucesso nos anos 1930 e, após ser exilada e ter suas obras queimadas pelo nazismo, foi redescoberta apenas alguns anos atrás, graças à editora Das vergessene Buch [O livro esquecido]. Já publicamos sobre essa editora no nosso blog. Agora, não apenas os romances de Maria Lazar estão sendo reeditados, mas também sua obra dramática; suas peças são atualmente encenadas em diversos teatros de língua alemã e sua obra ganha novos olhares acadêmicos, incluindo no Brasil (UFPR, Curso de Letras) e nos EUA. Na biblioteca do Centro Austríaco temos alguns títulos publicados pela editora Das vergessene Buch, inclusive de Maria Lazar, disponíveis para empréstimo.

Outro momento marcante foi o lançamento do livro Und einige Herren sagten etwas dazu:
Die Autorinnen der Gruppe 47
[E alguns senhores disseram alguma coisa a respeito: as
autoras do Grupo 47] de Nicole Seifert, que resgata autoras e obras literárias importantes,
mas que foram esquecidas pela história literária.