por Luiz Abdala Jr.

Uma busca rápida pelo nome de Friederike Mayröcker no Google nos releva tratar-se de uma das maiores escritoras do século XX e XXI. Ainda pouco conhecida no Brasil, Mayröcker nasceu em 1924, há quase cem anos, em Viena. Os primeiros anos de vida foram tumultuados: não bastasse a meningite que a deixou seriamente doente na infância, os anos que se seguiram foram marcados pelas dificuldades econômicas do entre-guerras e mais tarde pela própria eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em 1946 publica seus primeiros poemas na revista antinazista Plan. Alguns anos depois, em 1956, publica seu primeiro livro: Larifari: Ein konfuses Buch [Larifari: Um livro confuso]. O título já demonstrava a vontade de transpassar os limites do convencional e do normativo, afinal, Larifari, em alemão, é uma gíria para designar tagarelice sem sentido ou conversa absurda. A estreia passou quase que completamente despercebida, entretanto era o início da obra daquela que viria a se tornar uma das mais profícuas autoras da língua alemã. 

Por esses anos Mayröcker aproxima-se do Grupo de Viena, importante grupo literário formado por escritores interessados nas experiências formais dos movimentos de vanguarda como modo de recriar a linguagem poética após a guerra. A poeta não chega a integrar diretamente o movimento, mas em 1954 encontra Ernst Jandl, um dos seus membros. Jandl e Mayröcker não apenas se tornam companheiros de vida, mas desenvolvem uma verdadeira relação literária, movida pelo amor à linguagem que ambos compartilhavam, por vezes dividindo leituras públicas e divulgando textos um do outro. Com a morte do poeta em 2000, a memória dessa relação foi materializada no livro de 2005 Und ich schüttelte einen Liebling [E eu abanei um amado], homenagem póstuma aos anos vividos com o companheiro e também tocante testemunho de um trabalho de luto. 

A aproximação com os movimentos de vanguarda marcou a linguagem poética de Mayröcker e diversos de seus textos levam essas características, principalmente advindas surrealismo. Porém, não se reduziram a esses princípios. Altamente inventiva, Mayröcker desenvolveu uma das linguagens mais singulares da literatura alemã do século XX, misturando marcas dialetais, línguas estrangeiras, associações livres, gírias e cultura pop. Além disso, é notória a presença da música e do canto como princípios estruturantes em seus poemas, que são marcados pela profusão formal de ecos, rimas inesperadas, repetições, combinações linguísticas, desvios sintáticos e uma verborragia controlada, extremamente precisa em termos de vocabulário e, com frequência, associada às ciências botânicas, agregando à fisicalidade do corpo humano potentes imagens naturais. Mayröcker também utilizou amplamente procedimentos de colagem e montagem, que geravam por vezes a impressão de uma multiplicidade de vozes em suas obras. Artista versátil, também desenhou, compôs libreto de ópera, escreveu histórias infantis e, talvez tão importante quanto a poesia e a prosa, escreveu diversas peças radiofônicas, inclusive em parceria com Jandl.  Sua entrega à escrita foi incansável e resultou numa obra de mais de 80 livros, sendo o último, da ich morgens und moosgrün. Ans Fenster trete (algo próximo de “pois eu de manhã e verde-musgo. Chego à janela”), publicado no ano passado pela editora Suhrkamp. A lista de prêmios ganhos, também, não é de número pequeno, e entre eles estão o Prêmio Peter Huchel e aquele que é, provavelmente, o mais importante prêmio da língua alemã, o Prêmio Georg Büchner. 

Apesar de ser uma lacuna no mercado editorial brasileiro, sua língua circula na nossa ao menos desde 1994, quando o poeta Leonardo Froés traduziu o poema Wird welken wie Gras (na tradução: “Vai secar como a grama”) para uma edição da Revista Poesia Sempre, que pode ser acessada aqui. Todavia, o principal divulgador da poesia de Mayröcker no Brasil é o poeta Ricardo Domeneck, que traduziu e publicou uma seleta de poemas no seu antigo (e muito vivo) blog “modo de usar & co”, que podem ser acessados aqui e aqui. Um viva aos tradutores, que como um dia escreveu Ana Martins Marques sobre um poema, são meus únicos heróis. Também não falta material na internet sobre Mayröcker, como vídeos de algumas de suas leituras, sempre em seus trajes pretos, tal esta aqui, de 2016.

Ontem, no dia 4 de junho de 2021, Friederike Mayröcker faleceu em Viena. A língua teve um dia triste, mas é grata pelo privilégio do amor de uma de suas maiores artífices. Viva, Fritzi!

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