O simbolismo político em O Livro do Xadrez, de Stefan Zweig

Adryan Martins (graduando em Licenciatura em Letras – Português e Alemão)

Em O Livro do Xadrez somos apresentados a Mirko Czentovic, um jovem em ascensão no mundo do xadrez que havia se tornado campeão mundial. O narrador, então, apresenta sua trajetória até alcançar essa posição.

Antes de adentrarmos na história, vale situar brevemente a obra. Trata-se de uma novela de Stefan Zweig, escritor austríaco de origem judaica, escrita durante seu exílio no Brasil e enviada ao editor poucos dias antes de seu suicídio, em Petrópolis, no ano de 1942. É a última obra de ficção do autor e a única em que ele aborda diretamente o nazismo, mesclando elementos autobiográficos ao enredo. Zweig era, à época, um dos escritores mais traduzidos e celebrados da Europa, e a novela acabou se tornando uma de suas obras mais conhecidas, não só pela força literária, mas por ter sido escrita no limiar entre a vida e a morte, enquanto a Europa que ele conhecia desmoronava sob o avanço do fascismo. O texto já rendeu duas adaptações para o cinema, inúmeras montagens teatrais e até uma ópera, o que ilustra bem que essa pequena obra de pouco menos de cem páginas segue sendo lida e relida. Li a tradução de Silvia Bittencourt, publicada pela Editora Fósforo.

O narrador, então, apresenta a trajetória de Czentovic até alcançar a posição de campeão mundial. Czentovic perdeu o pai ainda muito jovem e foi acolhido pelo padre da vila onde vivia. Sob seus cuidados, recebeu ensinamentos básicos, como escrita e matemática. No entanto, mesmo após inúmeras explicações, demonstrava grande dificuldade para compreender conteúdos que pareciam simples. Apesar disso, suas limitações não pareciam estar relacionadas à falta de esforço, pois procurava cumprir as tarefas e ordens que lhe eram dadas. É justamente nesse comportamento que começamos a perceber uma característica marcante de sua personalidade: Czentovic parecia não possuir iniciativa própria, limitando-se a realizar aquilo que lhe era solicitado. Não brincava com as outras crianças e, após terminar suas tarefas, permanecia sentado no quarto, olhando para o vazio, como se simplesmente aguardasse uma nova ordem.

Esse comportamento, aparentemente banal durante sua infância, ganha maior significado quando observamos a maneira como Czentovic se relaciona com o xadrez. Fora do tabuleiro, demonstrava dificuldades para compreender situações que exigiam maior abstração; dentro dele, porém, era capaz de agir com extrema precisão. O jogo oferecia justamente aquilo que parecia faltar em outros aspectos de sua vida: um sistema fechado de regras, posições e movimentos previamente determinados. Assim, sua personalidade e sua maneira de jogar começam a revelar uma relação particular com a ordem e com os limites impostos pelo próprio jogo.

Certa noite, enquanto o padre jogava xadrez com o general, o clérigo teve que sair. No meio de um jogo, deixou o general, o jovem e a mesa de xadrez. O general então convidou Mirko a jogar uma partida com ele e acabou sendo derrotado, resultado impactante devido às capacidades limitadas que o garoto tinha. O padre volta, e, sem acreditar no feito, o desafia também, para no fim ser igualmente derrotado. Era um milagre!

No dia seguinte, Czentovic foi levado a uma cidade próxima para testar mais as suas capacidades no tabuleiro. Ao enfrentar adversários em um clube de xadrez local, perdeu apenas a primeira partida e durante o resto do dia nenhum enxadrista foi capaz de vencê-lo. Era um grande feito para ele e para aquela pequena cidade, que estava em êxtase por um grande prodígio ter surgido ali, mesmo ele sendo de outro vilarejo. Sendo assim, o jovem foi para Viena aperfeiçoar mais suas habilidades e, após meio ano, já conhecia todas as técnicas do xadrez. Mas uma estranha limitação que ele tinha foi notada pelos diversos especialistas: Czentovic era incapaz de lembrar os lances de partidas passadas e de projetar mentalmente um tabuleiro. Para jogar, tinha que necessariamente ter em sua frente o tabuleiro com 32 peças. Carregava consigo um xadrez de bolso, evidenciando sua falta de imaginação. Porém, mesmo com tal limitação, era conhecido mundialmente e acumulava diversos prêmios, incluindo o título de Campeão Mundial.

Para participar de um campeonato de xadrez, Czentovic zarpara de New York a Buenos Aires, e durante o percurso somos apresentados ao narrador do livro, que compartilha a mesma curiosidade de nós leitores: como é esta personalidade excêntrica a bordo? Após algumas tentativas falhas de aproximação por parte do narrador, nota-se o principal traço do rapaz: trata-se de uma pessoa resoluta, fria e resistente a qualquer abalo. Após alguns dias o nosso narrador e outros cavalheiros conseguem marcar uma partida de xadrez, onde todos jogariam contra Czentovic, o atual campeão. Era nítido qual seria o resultado final: a primeira partida resultou em uma derrota rápida para os enxadristas. Entretanto, algo que poderia ser um banho de água fria revelou ser uma faísca em um barril de pólvora. Todos ali presentes sentiram uma incrível motivação para derrotarem seu oponente, e inicia-se a segunda partida. O jogo encaminhava-se a mais uma derrota quando surpreendentemente surgiu um senhor de cabelos brancos mas com um rosto jovem, que os ajudou a levar a partida ao empate. Era um feito extraordinário, principalmente para uma partida que estava quase perdida contra um campeão. Os enxadristas ficaram extasiados por terem alguém capaz de enfrentar Czentovic. Entretanto, ao ser chamado para outra partida, agora apenas entre o enigmático senhor e o jovem, o primeiro nega, pede perdão por ter se intrometido na disputa e deixa o recinto. Ninguém entende a atitude daquele senhor, e assim como talvez alguns leitores estejam consumidos pela curiosidade desta ação, o narrador também estava.

Sendo assim, ele vai questionar o senhor (que logo descobrirá que se chamava Dr.B) por qual razão teria declinado outra partida, e é surpreendido pela resposta concedida:

“na verdade não sei se sou capaz de jogar corretamente uma partida de xadrez, conforme as regras. Acredite, por favor, não se tratava de modo algum de falsa modéstia quando afirmei que desde os tempos de ginásio, há mais de vinte anos, não tocara em nenhuma peça do jogo. E mesmo naquela época eu era considerado um jogador sem nenhum talento especial.”

A surpresa evidente do narrador motiva Dr.B a contar sua história de como iniciou neste mundo preto e branco. Era advogado da família real na Áustria, encarregado de administrar os bens da família. Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, fora detido e confinado em um minúsculo quarto no hotel Metrópole – Quartel Geral da Gestapo -, com o objetivo de ser interrogado. Seu quarto era extremamente pequeno e sem decoração.

“Ele tinha uma porta, uma mesa, uma cama, uma poltrona, uma bacia, uma janela gradeada.”

E neste ambiente claustrofóbico foi onde ficou por quatro meses. Durante as primeiras semanas, resistiu bem à tortura psicológica, mas logo começou a ceder, pois não havia nenhum estímulo capaz de entretê-lo no cubículo. Contudo, ao ser levado para o corredor onde ficava a sala onde seria interrogado como sempre, notou um casaco na parede. Nele havia um pequeno volume, e quase sem pensar e de maneira instintiva, criou um plano para furtar o livro. Com astúcia e um pouco de sorte, foi capaz de pegar o objeto e escondê-lo na cintura. Chegando ao quarto, o livro revelou ser uma obra que continha 150 partidas de mestres enxadristas. Uma onda de decepção e raiva tomou conta do Sr. B. O único livro ao qual tinha acesso era um do qual ele nada entendia; mas isso não o impediu de aprender.

Primeiro, usava migalhas de pão sobre a colcha da cama para reproduzir mecanicamente cada lance do livro. Depois, decorou todas as partidas e passou a visualizar o tabuleiro mentalmente com clareza absoluta. Por fim, com o livro esgotado, precisou jogar contra si mesmo. Para isso, dividiu artificialmente sua consciência em duas personalidades opostas, forçando uma espécie de esquizofrenia voluntária. O preço foi altíssimo. O xadrez tornou-se uma obsessão que o consumiu por inteiro, até que os guardas o encontraram em colapso, movendo peças invisíveis no ar.

Após sua libertação, um médico o proibiu de tocar em um tabuleiro novamente, para não sofrer um novo colapso nervoso.

Apesar do alerta do médico, estando dentro daquele barco, Dr. B. acaba aceitando o convite e finalmente aconteceria a partida que todos os presentes no navio estavam esperando. Czentovic joga devagar e com calma, enquanto Dr.B quase instantaneamente após o movimento do adversário. A partida dura horas, e o senhor começa a ficar extremamente irritado. O jovem, por sua vez, notando isso, atrasa suas jogadas propositalmente. O ápice da partida ocorre quando Dr. B anuncia um xeque que não existia no tabuleiro real. Sua mente divagava em uma partida imaginária, e se dividiu entre a realidade e as partidas fantasmas de sua antiga prisão. O jogo que um dia o salvara tornou-se sua ruína.

Após compreender este livro e observar Czentovic e Dr. B., podemos perceber um contraste entre suas personalidades. Enquanto Czentovic representa a rigidez e a frieza, Dr. B. simboliza a resistência e a imaginação, permitindo relacioná-los às transformações políticas e sociais da Europa durante a ascensão do fascismo. Czentovic também pode ser interpretado como uma representação alegórica da lógica fascista que avançava sobre a Europa.

Nessa perspectiva, o tabuleiro pode ser compreendido como uma representação de uma ordem autoritária, na qual cada peça possui uma função determinada e os movimentos obedecem a regras inflexíveis. Czentovic não precisa compreender o mundo para dominá-lo, basta-lhe conhecer perfeitamente as regras do sistema no qual está inserido. Sua força não está na imaginação ou na reflexão, mas na repetição, na disciplina e na eficiência mecânica. Essa característica permite aproximá-lo simbolicamente do funcionamento dos regimes fascistas, que buscavam submeter o indivíduo a uma estrutura rígida de poder, reduzindo a autonomia e o pensamento crítico.

Sua ascensão no xadrez também pode ser interpretada como uma alegoria da ruptura da antiga ordem europeia. Czentovic surge de uma posição marginal e passa a derrotar sucessivamente jogadores que representam uma tradição consolidada do xadrez, até alcançar o título de campeão mundial. Assim, sua vitória sobre os grandes mestres pode simbolizar, metaforicamente, a vitória de uma nova força política autoritária sobre a velha Europa, marcada por suas tradições culturais, intelectuais e políticas. Não se trata de afirmar que cada personagem corresponde diretamente a uma figura histórica específica, mas de observar como a trajetória de Czentovic permite representar a ascensão de uma força que parecia banal e rudimentar, porém extremamente eficiente em destruir ou dominar estruturas tradicionais.

Essa interpretação torna-se ainda mais significativa quando Czentovic é colocado em contraste com Dr. B. Enquanto Czentovic representa uma inteligência mecânica, dependente das regras concretas do tabuleiro, Dr. B desenvolve a capacidade de reconstruir mentalmente o jogo durante seu confinamento. O contraste entre os dois pode ser compreendido como o confronto entre a força rígida e exterior de um sistema autoritário e a resistência interior do indivíduo. Dr. B, antigo advogado da família real austríaca, pertence justamente a uma ordem europeia que estava sendo destruída pela violência política da Segunda Guerra Mundial. Dessa maneira, o confronto no tabuleiro deixa de ser apenas uma disputa de xadrez e passa a carregar uma dimensão histórica e ideológica: de um lado, a força mecânica de uma nova ordem, do outro, a inteligência e a memória de uma Europa que estava sendo destruída.