Susi Horn
Ler o livro Die Welt von Gestern: Erinnerungen eines Europäers (O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu) não só proporciona ao leitor uma imagem íntima de Stefan Zweig, como também um panorama histórico — mesmo que subjetivo — de sua época de vida.
Stefan Zweig nasceu no final de 1881, na capital do então Império Austro-Húngaro, Viena. Sua progressão no mundo literário foi aos poucos, mas ele teve a sorte, desejada por muitos autores, de encontrar sucesso ainda durante sua vida. Na verdade, seu sucesso foi tanto que, com a chegada ao poder de um certo homem de bigode perigosamente estreito no país vizinho, os livros de Zweig lá foram proibidos e queimados em praça pública.
O austríaco foi, além de romancista, biógrafo, dramaturgo, jornalista e libretista, também tradutor, atividade essa com a qual se distinguiu principalmente no início de sua carreira. A partir de 1919, no pós-guerra, se mudou para Salzburg, onde havia adquirido uma casa durante a Grande Guerra. De lá somente saiu em 1934, para a Inglaterra, devido também ao início de novas tensões na Europa, e, em 1941, emigrou para o Brasil em conjunto com sua segunda esposa, Lotte. Foi onde, em Petrópolis, deprimidos com o avanço de Hitler na Europa, ambos se suicidaram apenas um ano depois.
O livro Die Welt von Gestern dá conta de trazer sensações sobre o tempo que um simples livro de história não consegue suscitar. Isso, é claro, não significa que se deve substituir um pelo outro, mas que, devido à forma descritiva e sensorial que Zweig escreve, uma pessoa — como a autora que vos fala — que em geral não tem na história seu maior interesse e capacidade de memória, consegue apreender coisas que normalmente não apreenderia. Ademais, para quem é apaixonado por observar e dar atenção a detalhes, a descrição que Zweig fornece de personalidades que teve o prazer de conhecer é, na sua riqueza e personalidade, mágica. Ainda que Richard Strauss, Freud, Rilke, Joyce, Gorkij, Wells, Shaw, Rathenau, entre tantos outros, são obviamente descritos pelos olhos do autor, a leitura de suas descrições já é inspiradora pelo simples modo como foram escritas, fazendo surgir imagens tão fortes com o uso das palavras-chave cuidadosamente escolhidas. Estranho foi que, tendo casado duas vezes, Zweig não deu nem de longe igual atenção às esposas em seu livro. Exemplo para tal foi a confusão sentida durante a leitura de um trecho já mais avançado do livro, onde o autor conta como foi se mudar para Salzburg e repetidas vezes fala em “nós” ao tratar dos acontecimentos ali vividos. Fui descobrir apenas mais tarde que esse “nós” incluía sua esposa, à qual ele também só se refere com essa palavra, de modo que o leitor apenas descobre quem ela foi ao pesquisar por ela exteriormente ao livro.
Por fim, voltamos a um aspecto admirável em Stefan Zweig: sua capacidade de ver verdades e humanidade em todos os homens, contrastando com o pensamento em preto e branco e a dominância das paixões que provavelmente desde sempre marcam os tempos políticos mais difíceis de uma era. Deixo aqui, numa tradução livre, um trecho do livro que pode fazer-te refletir, principalmente nos tempos polarizados que nem mesmo o século XXI nos fez superar. No contexto do trecho, Zweig contava como se envolveu em todo tipo de discussões anti-guerra quando passou pela Suíça durante a Grande Guerra, discutindo até tarde da noite com pessoas de todos os tipos, mas como começou a se entediar aos poucos até com aqueles mais confiáveis entre os parceiros:
“Mas até nos mais confiáveis me entediava o caráter infrutífero das discussões sem fim e o obstinado encaixotamento em grupos radicais, liberais, anarquistas, bolchevistas e apolíticos; pela primeira vez eu aprendi a observar o eterno tipo do revolucionário profissional que, pelo caráter meramente oposicional do seu cargo, se sente elevado em sua insignificância e se prende ao dogmático, porque em si ele não possui ao que se prender. Manter-se nessa bagunça faladeira significaria confundir-se, cultivar afinidades perigosas e comprometer sua própria convicção em sua segurança moral. […] De fato nenhum desses faladores se atreveu a um complô, nenhum desses improvisados políticos mundiais soube fazer política quando ela foi verdadeiramente necessária. Assim que começou-se a reconstrução após a guerra, eles se mantiveram em sua negatividade ranzinza e resmungadora […].”
Bem, assim é Stefan Zweig, que descreve de modo conciso e surpreendentemente filosófico. Afinal, não é à toa considerado um dos maiores escritores do século passado. Fica aqui a recomendação de suas obras, a começar por essa, que lhes dará a oportunidade de começar a entender quem foi esse homem. E fica também a recomendação de sermos mais como ele no seu pensar crítico, não nos deixando levar por paixões passageiras e radicalismos que apelam a essas mesmas paixões.
Bons dias!
