Texto escrito por Felipe dos Santos Tassini, aluno da disciplina Alemão I como parte do projeto de extensão do curso de Letras Português-Alemão da UFPR

A filosofia no século XX costuma ser dividida em duas grandes correntes opostas: a tradição continental e a vertente analítica. Esta última, ainda extremamente dominante nos países anglófonos, tem sua história intimamente ligada à apropriação dos resultados da lógica formal contemporânea pelos pensamentos filosóficos de Gottlob Frege e Bertrand Russell, bem como às críticas ao idealismo britânico formuladas por este último em parceria com G. E. Moore. Entretanto, a filosofia analítica só alcançará o caráter de um novo paradigma especulativo — e seu impacto verdadeiramente transformador — a partir dos resultados obtidos por Ludwig Wittgenstein em sua juventude.

Foi Wittgenstein quem, com a publicação do Tractatus Logico-Philosophicus em 1921, operou um salto qualitativo na utilização da análise das condições lógicas da linguagem como método de esclarecimento e dissolução de aporias filosóficas, já presentes nos projetos de Russell e Frege. Porém, mesmo sendo majoritariamente influenciado pelos seus pares fundadores da perspectiva analítica — como reconhecido por ele mesmo no prólogo de sua primeira obra —, suas inspirações vão muito além dessas figuras.

Como um vienense proveniente de uma família muito abastada — seu pai, Karl Wittgenstein, foi um empreendedor tcheco de sucesso cujos negócios na indústria de ferro e aço o alçaram à condição de um dos homens mais ricos do Império Austro-Húngaro —, Wittgenstein teve um acesso privilegiado ao cenário intelectual da Áustria de sua época.

Rudolf Haller (1929–2014), filósofo austríaco e professor catedrático de pesquisa fundamental em filosofia na Universidade de Graz, pretendeu em seu livro de 1988, Wittgenstein e a filosofia austríaca: Questões, abordar essa relação entre o pensamento de Wittgenstein e a filosofia austríaca, procurando tanto construir uma história intelectual da Áustria desde Johann Friedrich Herbart (1776–1841) e Bernard Bolzano (1781–1848) quanto realizar análises comparativas entre os temas centrais do Tractatus e as ideias de autores como Fritz Mauthner, Otto Weininger e Oswald Spengler.

A tese que percorre os nove ensaios reunidos no volume é a de que existe uma tradição filosófica especificamente austríaca, cujos traços distintivos — empirismo, proximidade com as ciências, crítica da linguagem e rejeição da metafísica grandiosa — não apenas antecederam o surgimento da filosofia analítica, como ajudaram a moldá-la de maneira decisiva. Para Haller, Wittgenstein não é simplesmente um herdeiro de Frege e Russell que por acaso nasceu em Viena; ele é, antes, um pensador situado no cruzamento de duas tradições, alguém que levou para Cambridge uma sensibilidade filosófica forjada no ambiente intelectual austríaco e que, ao mesmo tempo, transformou essa herança ao submetê-la ao rigor da lógica formal.

Com isso, Haller nos oferece uma chave de leitura duplamente reveladora. Por um lado, ele ilumina facetas do pensamento de Wittgenstein que a historiografia convencional costuma deixar na sombra — como sua dívida para com a Sprachkritik de Mauthner ou sua admiração pelo rigor ético de Weininger. Por outro, ele reconstrói uma genealogia alternativa da filosofia contemporânea, na qual a Áustria deixa de figurar como mera coadjuvante e passa a ocupar o centro do palco. O resultado é um livro que, mais de três décadas após sua publicação, continua sendo leitura obrigatória para quem deseja compreender não apenas Wittgenstein e a tradição austríaca, mas o próprio desenvolvimento da filosofia no século XX.

Uma opinião sobre “Recomendação de leitura: Wittgenstein e a filosofia austríaca – Questões de Rudolf Haller

Deixe um comentário