Karin Peschka por Raphael Gabauer.

A escritora austríaca Karin Peschka nasceu em Linz em 1967 e conta com cinco livros publicados. Além disso, já foi indicada duas vezes para o Österreichischen Buchpreis e recebeu as bolsas Robert-Musil e Ingeborg-Bachmann. A autora ainda não teve suas obras publicadas no Brasil, mas o Centro Austríaco apresenta abaixo a tradução de trechos de dois de seus romances:

Autolyse Wien – Erzählungen vom Ende

Em Autolyse Wien, Peschka reflete sobre o que pode acontecer com as pessoas em uma Viena destroçada e pós-apocalíptica. Para isso, adota a perspectiva de várias personagens, tanto em narrativas em terceira pessoa como em primeira pessoa na voz de um eu mais reflexivo e autobiográfico.

Rose

Tradução de Dafne Skarbek

Viena? Estranha antes, mais estranha ainda agora. Rose não entendia quase nenhuma palavra de alemão, pelo menos nenhuma relevante. O falatório do homem continuava um enigma, talvez ela teria conseguido entender se o enfrentasse, o parasse, pedisse que falasse mais devagar e, também, que a ajudasse.

Mas a raiva, assim como a loucura, é internacional. Por isso Rose permaneceu onde estava, agachada atrás de um ônibus municipal de Viena, Linha 13A, tombado, torcendo para que o homem, que gritava alto e praguejava abertamente, passasse e não olhasse para cá, por favor não olha para cá. Dia claro, início de primavera, a primeira época realmente quente do ano, e a mais bela estação de Viena. “Come”, sua tia tinha escrito, em sua mistura própria entre os dois idiomas, que ela achava engraçado, “visit me, we will passear no parque Lobau e comer langos no Prater, visit me, please”. Auntie, pensava Rose. Dear Auntie.

De Gainesville, Flórida, para Atlanta, Geórgia, de Atlanta, passando por Frankfurt, Germany, para o Aeroporto Internacional de Viena. A Auntie era apenas cinco anos mais velha que Rose, era a irmã mais nova da mãe dela, trabalhava na OPEC, apaixonada por Viena e sempre cheia de saudades de casa. Convidava os parentes, e agora era a vez de Rose, a sobrinha favorita. Come.

O maluco tinha sumido em uma esquina, seus xingamentos desapareceram, Rose estava encostada no ônibus, alisando uma folha de papel no chão. From Vienna International Airport take the train to Estação Central de Viena, change to Citybus 13A… Ponto “Laudongasse”, sussurrou Rose, é para lá que ela tinha que ir. Ela tinha virado uma exploradora, uma Scott Amundsen em direção ao Pólo Sul, procurando pelos pontos de ônibus, encontrando um depois do outro embaixo dos escombros, precisando cavar para encontrá-los e se esconder, encontrando às vezes dois pontos a cada três dias, e, com a ajuda de um velho mapa de Viena, precisou de uma semana até o próximo. A streetcar named Desire, não, Laudongasse. Lá que vivia a Auntie e continuaria viva, até que Rose tivesse se convencido do contrário, ou seja, daqui a não muito tempo.


Elfi e Kurt

Tradução de Dafne Skarbek

Viena? Uma mudança de plano. O destino quis diferente, disse Elfi, e perguntou se ele, Kurt, agora percebia isso. Foi ficando claro, primeiro cinza, então cor de chumbo e vazio. “O quê?”, perguntou Kurt. Ele tinha perdido quatro dedos, a primeira falange de cada um, pedaços de fachada que caíram diretamente na mão, atravessaram, um corte preciso. A mão doía, mas as feridas estavam cauterizadas. O seu fraco por filmes de zumbis teria servido pelo menos para isso, pensou Elfi: Para se ter ideia de como se comportar quando o céu cai na sua cabeça.

“Não devemos nos separar, a mensagem é essa”, dizia ela e jogava um olhar de lado para a direita decepada de Kurt. Pensava: Se eu pudesse pelo menos colocar um curativo novo nele. Mas se segurava para não pedir isso, ele só diria de novo que já tinha uma mãe. Nisso Kurt era uma criança grande. Science Fiction, horror e sangue.

“Em dois a gente é bem mais forte, você não acha?” Kurt ficava quieto. O que ela queria ouvir? Embaixo deles fumegava a cidade arrasada. Embaixo deles, pois estavam encostados no carro, no estacionamento do Cobenzl, no mirante, bem na frente, onde de madrugada os casais tinham a melhor vista das luzes das ruas, da minúscula roda-gigante iluminada, da faixa preta do Danúbio. Que nem agora, de dia, era azul. Ou próxima. Ou familiar.

Kurt pegou a caixa de primeiros socorros que Elfi tinha apanhado do porta-malas e colocado em cima do capô. Onde estava tudo o que eles possuíam, tirando uma mala de esporte, que Kurt tinha enchido com umas roupas na noite anterior e jogado no chão entre o banco da frente e o banco de trás. Muitas garrafas de água mineral, frutas secas, uma caixa de barrinha de cereal, um canivete suíço, uma navalha, uma lamparina e pilhas reservas. Além disso, um saco de dormir para baixas temperaturas, e uma minúscula barraca para uma pessoa.

Ontem, Kurt tinha deixado Elfi de vez, depois de uma briga acalorada, tramada conscientemente por ele, abordando um velho tema, causador certo de discussão: prevenção de catástrofes no apartamento, que, segundo a Elfi, era dela. Mesmo Kurt contribuindo com metade do aluguel, ela era a locatária principal, ele que foi morar com ela, e eles já tinham falado disso mil vezes, dizia Elfi, e que ele sabia a opinião dela: ela era contra. Provisões de emergência, maçarico, caixas com água, onde é que Kurt pensava em guardar tudo isso? Não tinha mais quarto de depósito, o porão estava cheio e ainda por cima úmido. O carro, por sua vez, foi Kurt que trouxe para o relacionamento, então era claramente dele e, por isso tanto fazia para ela com o que ele enchia o porta-malas.

Portas foram batidas, houve, claro, choros e gritos, mas no fim a separação foi consumada. Um corte limpo, pensou Kurt. Ele dirigiu para a loja de material de construções, para o supermercado, a fim de comprar o que lhe ocorresse. Quanto mais longe da Elfi, quanto mais cheio o carrinho de compras, mais livre e leve ele deveria se sentir, mas não se sentia. Faltava a alegria verdadeira, e, portanto, também a vontade de comprar. Não que ele estivesse de luto pela Elfi, o relacionamento já havia morrido há muito, mas por não ter alguém. Brigar com quem agora? Eu vou aprender a ficar sozinho, pensou Kurt, primeiro eu preciso de um lugar para dormir. Ligou então para Jens, perguntou se podia ir até lá. Jens o parabenizou pela liberdade, queria festejar e convidou o amigo para dormir alguns dias no sofá.

Jens, pensou Kurt, encostado no carro, abaixo dele, a cidade destruída, ao lado, Elfi.

“Eu espero que você traga umas cervejas e aproveita e traz as minhas coisas também ”, disse Jens ontem, as últimas palavras que dirigiu a Kurt para todo o sempre. Com “coisas” ele queria dizer dois DVDs velhos e as obras completas de Phillip K. Dick, emprestados há anos.

Por isso Kurt dirigiu de volta, na esperança de que Elfi tivesse deixado o apartamento. Ele poderia então pegar logo a pasta com os documentos, deixar a chave na caixa postal e basta, pronto e acabado.

Mas não, mesmo as janelas estando escuras atrás das cortinas fechadas. Kurt desceu do carro, tinha estacionado na esquina. Esperou fumando por algum sinal e milagre, por favor que ela não esteja. Elfi tocou então seu ombro, de repente estava atrás dele, só tinha saído atrás de cigarros. “Você voltou”, ela disse. Um pedaço da fachada de vidro se soltou, cortou os dedos fora, logo estavam sentados no carro, Kurt com a mão enfaixada, Elfi dirigindo, manobrando entre luzes oscilantes e intermitentes dos postes entre quebras e rasgos, em uma viagem veloz.

“Eu não sei como você conseguiu chegar até aqui”, disse Kurt. Da fumaça da cidade vinham latidos de cachorro longínquos. Escombrava, trovejava e reverberava . De repente, silêncio. Foi assim o tempo todo. Mudança, silêncio, cinza chumbo. As rachaduras no asfalto fizeram do estacionamento do Cobenzl um mar ondulado, intransitável. O que tinha acontecido? Só quando eles tinham chegado lá em cima, que ocorreu a grande catástrofe. Um instinto a tinha impelido, segundo a Elfi, algo sobrenatural. Eles tinham saído do carro, abaixo, fogos em todos os lugares, a mão sangrando muito. Sob instrução de Kurt, Elfi abriu o capô, Kurt pressionou o lado ferido da mão no metal quente, caiu inconsciente.

Elfi, a super-heroína. A manhã tinha chegado e a noite sumido, com tudo que tinha acontecido. Sem separação, mas com um novo começo, mesmo se com meios completamente insuficientes.


Eu V

Tradução de Gisele Eberspächer

Viena? Finalmente vazia. O cansaço me atropelava constantemente. Eu acordava com pálpebras pesadas, as bochechas esticadas sobre o meu rosto como um peso seco, eu tive que estender a mão sobre elas para sentir se ainda eram pele ou já eram osso, se a noite já tinha comido minha carne e não, não tinha. 

Sentia cansaço e sede o tempo todo, um rio com a nascente entupida por um sapo. Tinha sido um conto de fadas e agora era realidade, mas: a realidade já não existia mais. A realidade tinha se tornado real a ponto de se revogar. Toquei minhas bochechas e senti que havia vida sob a camada seca, e me endireitei. Os olhos fechados. Para abri-los seria necessário um impulso que só se alcança com coragem. Dormia sempre que possível, ao menor sinal de exaustão. Deitava em camas velhas, em sofás elegantes, com tudo que tinha sobrado da cidade à minha disposição. Os vãos e as casas desabadas, os pedaços dos apartamentos antigos, tudo isso havia se tornado meu território. 

Dormia e acordava, em todo lugar, em qualquer momento, juntando coragem antes de abrir as pálpebras e me assegurar: você ainda existe como você. 

Uma vez, estava a dez centímetros de um precipício. Tinha encontrado uma porta, atrás dela uma escada, intacta, subi pela escadaria estreita e passei por uma outra porta. Como todos os outros sobreviventes, eu estava completamente à mercê do dia: nascer do sol, dia, pôr do sol, noite. Entre um e outro, o crepúsculo como introdução e aviso: esconda-se, encontre um lugar para se trancar. Que sorte esse quarto atrás das escadas. Eu senti um colchão, agarrei uma almofada. Adormeci e acordei a dez centímetros do precipício. Não de manhã. No meio da noite, na hora dos lobos, como teríamos dito antes, achando romântico. Acordei porque algo se mexeu ou porque ouvi alguma coisa. O perigo me ajudou a abrir os olhos de uma vez só. Algo inútil em uma noite de lua nova nos tempos pós-elétricos. Pós-digitais. Pós-históricos. Pós-tudo. Quando sentia mais calma, passava horas pensando sobre essas coisas. Não quando estava tateando no escuro, alcançando o vazio, a palma da mão pairando sobre o vazio, sentindo algo como uma corrente de ar frio que indicava que não havia nada, e muito nada, abaixo de mim. Uma profundidade muito grande.

À descoberta, e ao consequente aumento de palpitação no coração, seguiu-se uma discussão. No meio da curva de excitação provocada pela adrenalina, comecei um solilóquio em voz baixa, perguntando e me ouvindo responder. O que seria mais sensato? Claro, em situações como essa, voltar a dormir e deixar que as coisas seguissem seu curso sempre era uma opção, uma tentação.

Eu tinha que juntar as duas coisas: o número suficiente de motivos e a coragem para seguir em frente com a decisão tomada. Mesmo que isso significasse torcer para que o sono tivesse o efeito de uma anestesia, para não perceber uma possível queda ou senti-la como se fosse um sonho e o impacto como um breve evento final. Mais um choque do que uma dor.

Quando lembro daquele momento, entendo bem porque insisti em não voltar a dormir. Nos meses desde a destruição de Viena, investi muita energia no projeto “morrer melhor”, e esse esforço não podia ter sido em vão. Eu tinha sobrevivido até agora para planejar meticulosamente minha morte e, sobretudo, a decomposição adequada do meu corpo.

No parque do observatório astronômico, a cova estava preparada. Depois de muitas tentativas fracassadas, consegui ter sucesso no cultivo de cogumelos em panos. Pretendia deitar na terra e me tornar parte dela envolvendo meu corpo com um desses panos, para ajudar na decomposição. Uma reminiscência da minha infância e juventude. Cresci entre a dedicação à agricultura e o cotidiano da cidade pequena. A cada outono, os campos colhidos, e junto com eles um desejo, associado a algo reconfortante, uma espécie de segurança. 

Por consequência: se não houver mais ninguém para te enterrar, você tem que cuidar de tudo. A ideia de apodrecer em algum lugar qualquer era insuportável para mim.

Eu sabia que cada célula contém em si mesma a enzima para autólise. Após a morte, começa a auto-digestão, a auto-dissolução. O que está morto se consome. Um processo automático, de repetição constante, que desde o início está presente, do menor, em cada pedacinho de pele que arrancamos da ponta dos dedos. Até o fim, até o maior, quando ela, a vida, para. O corpo é mesmo uma invenção prática, que inclui o processo de descarte de todo material entregue.

Não importa onde te atinja. Mesmo antes das bactérias, mesmo antes de um roedor conseguir morder fora a sua orelha, da qual você não precisa mais, mas cujo valor nutricional prolonga decisivamente a vida útil do animal.

Eu tinha pensado muito sobre isso. Estes pensamentos me ajudaram, especialmente em situações em que eu estava prestes a acabar com tudo. Se é para ser, que seja bem feito, foi o que pensei quando acordei na hora do lobo, a alguns centímetros do precipício. Meu corpo é meu templo, e eu decido a maneira e o lugar de sua extinção.

Ou não. No final, encontrei um meio termo. E foi uma luta, pois até o amanhecer eu não tive coragem de me mexer. Eu cantei para a escuridão, recitei poesia, belisquei as costas da mão esquerda alternadamente com a direita, puxei os cabelos quando a tentação de adormecer quase me venceu. Chorei, uivei, botei pra fora todo luto que eu tinha reprimido, esfreguei minha pele seca sobre as bochechas até queimar. E, no primeiro sinal de luz, ainda cinza, rastejei de volta para a porta, sentei nos degraus e encostei a cabeça na parede estreita, intacta da escadaria, adormeci.

Putzt euch, tanzt, lacht

Em Putzt euch, tanzt, lacht, Peschka nos apresenta uma protagonista que, ao se aproximar da aposentadoria, resolve mudar sua vida, sair da sua cidade e ir morar com pessoas novas.

Prólogo

Buscando na distância 

Tradução de Dafne Skarbek

Assim, algo novo tinha começado: Eu não tinha aparecido na terapia, na primeira consulta marcada. Eu simplesmente segui em frente, eu, sem ninguém perceber, tinha – literalmente – me distanciado e me apartado da minha família. Sete anos antes da aposentadoria, uma velha moça de 57 anos, em um velho carro. Que Bernhard tinha cuidado bem, com esmaltes que cobriam as marcas de oxidação, tratado do serviço anual, da troca de óleo.

[…]

p. 20

Eu me lembrei, enquanto dirigia sentido sul neste início de noite, da pequena sacada que ficava na parte de trás do chalé, perto da encosta. Quase tocando o campo íngreme. Com um pulo de mais ou menos um metro, estava-se aqui ou lá. Desde que se pulasse com vontade de um lugar específico. Subindo a grade larga e tomando impulso. Agarrando-se na grama curta, ou em um cardo cheio de espinhos, o que aconteceu com meu irmão, e ele aguentou como um herói, um homem de verdade que não chora. Se tivesse chorado, a culpa seria minha, da supervisão.

Nunca pulei. Eu sempre só tomava conta. O chalé não faz parte do início da minha infância –  eu já tinha 16 anos nas primeiras férias de família nas montanhas, mas meus irmãos ainda eram crianças brincalhonas, eles são um tanto mais novos do que eu.

As imagens passavam por mim no ritmo das luzes de neon no teto do túnel. Eu via a gente na encosta atrás do chalé, em cima dos colchões com cheiro de mofo no primeiro andar, no quarto com janelas minúsculas que não convidavam a luz do dia. Mesmo assim, via raios de sol empoeirados tocarem a mesa de madeira, pois às vezes faziam isso no finzinho das tardes de verão.

Nessa dança tremeluzente, eu também via a mesa na casa espaçosa dos meus pais em Rieder, eu, uma adolescente na cidade onde nasci, todas as paredes em ângulo conforme a norma e forma correta, sem dúvida de acordo com as leis da física, nada deixado ao descaso.  No meio dessa ordem, o pai, com um grande álbum de fotografias, disforme e volumoso, papéis de seda crepitantes. Ao lado dele, anunciando a morte de alguém, uma carta com as bordas pretas rasgada, que nesse dia distante da minha juventude havia chegado pelo correio.

O tio dele, Alois, tinha falecido, deixando ele, o pai, como herdeiro, pois não tinha filhos. Um lado da família paterna tinha assim se extinto e o sítio Laitn-Bauer em Pinzgau passou a ser nossa propriedade. A mãe bateu palmas (férias em Pinzgau!) e nos mostrou a foto do falecido. 

O pai nem precisava ir ao enterro, ele já tinha sido preparado pelo morto há anos: uma caderneta tinha sido deixada para cobrir os custos, o caixão escolhido, a missa paga, até mesmo a oração fúnebre de véspera tinha sido planejada, com salmos desejados e indicações de cada canção, que o morto queria ouvir em sua ascensão à porta do céu. O velho tinha deixado uma condição como requisito para poder receber a herança: que cuidassem de seu túmulo, ficassem em pé perante dele uma vez por ano, no dia de Todos os Santos, para a bênção aos mortos (ocasião em que deveriam enfeitá-lo com urzes brancas), e que abaixassem a cabeça quando o padre falasse a benção.

Um cemitério pequeno localizado em volta de uma igrejinha, situada em uma colina. Tudo se encaixou. Fim de outubro, faltava pouco até o dia de Todos os Santos e Finados, os espíritos voavam sobre a terra, e eu – mais velha do que o meu pai no momento da herança – dirigia em direção ao túmulo do meu tio. O trânsito diminuía, o céu mostrava sua escuridão profunda e, na frente, os morros ficavam em antracite. De tal forma que eu tinha que me encolher igual criança no meu carro, onde o maior nos força ao menor, a baixar a cabeça e a se recolher ao silêncio.
Exatamente durante essa viagem me ocorreu aquela citação sobre luto. Embaixo da foto desse homem muito, muito velho, que tinha olhado de forma estranha para além da câmera ao ser fotografado, e que claramente já não sabia mais onde estava e quem era no momento do registro, que encontrou sua penúltima paz na (assim dizia o endereço) casa de repouso A Boa Filha. A citação me veio e disse e era

Não me detenhais, 

pois o Senhor tem prosperado o meu caminho 

(Genesis, 24, 56)

(E o meu caminho, quem prosperou?)


Divagação: o que o Marek ama

Tradução de Gisele Eberspächer

O bicho favorito de Marek é a mamangaba, esse tipo maior de abelha nativa da Europa, por isso ele também prefere a primavera e o verão ao outono e inverno. Mamangaba dos alpes, mamangaba das montanhas, as bombus mendax, bombus confusos, bombus pomorum, bombus ruderatus, bombus hortorum, bombus lapidarius. Ele me mostra a diferença entre elas em um catálogo de identificação e soletra os nomes em latim, todos começam com “Bombus” e isso nos faz rir. Pequenas bombas peludas voam sobre o campo, gritamos “Cuidado, bomba!” e nos esquivamos. Uma vez, nos jogamos de corpo inteiro na grama, o que não foi uma boa ideia. Quando nos levantamos, nossos corpos se tornaram uma depressão em um mar de flores abatidas, insetos morrendo. Marek encontrou dois gafanhotos mortos e um besouro que não se mexia mais, apenas fingindo sua morte. Encontrou também uma minhoca seca, o casulo de uma borboleta e uma aranha amassada pela metade, estremecendo as pernas. “Pobrezinha”, sussurrou Marek (mandando um sussurro por cima do animal moribundo como uma espécie de carinho), pegou uma pedra e redimiu cuidadosamente o bichinho de seu sofrimento. 

Será que ele chorou por causa disso? Não. Ficou quieto. Desde então, nós nos esquivávamos das bombas de mamangaba, pisávamos nos campos com um cuidado extremo. Desde então, não saímos das trilhas, mesmo em pastagens alpinas, mesmo nos pastos já comidos. Entre tudo isso, o esterco seco de vaca, as pelotas escuras da cabra montesa, entre tudo isso os pinheiros da montanha, os pinheiros altos, as gralhas, entre tudo isso nós. Marek ama muito as pastagens alpinas.

Ele também gosta do calor, domesticado pelas ruas estreitas e lisas das antigas vilas do mediterrâneo. Essas ruas se parecem com o chão molhado, mas é apenas a pedra polida por um trilhão de solas de sapatos, como diz Marek, explicando que sua avó era uma siciliana famosa. Uma mafiosa com sangue nas mãos e um pano preto sobre o cabelo. Ninguém sabe disso, um segredo, que ele me conta como um sinal de confiança. Tem algum sinal, pergunto (sem questionar nada), por meio do qual os iniciados podem reconhecer o que a avó siciliana é? “Uma mulher perigosa?” pergunta Marek. Sim, tem, tem sim. Se inclina na minha direção, soprando no meu ouvido: uma ponta do lenço preto de cabeça tem um bordado preto, quase invisível. Mas cuidado, quando a avó aperta casualmente seu lenço, tocando esta marca sinistra de um jeitinho específico, então. “Então o quê?”, pergunto com a voz falhando. Faz parte do jogo. “Então você não vai viver para ver o dia seguinte”.

Marek ama drama. Ele ama narrar. A cada instante repovoando seu mundo, que não tem constância nenhuma, porque ele esquece, sempre esquece. As personagens ficam circulando por sua imaginação, assim como os pensamentos, um passando por cima do outro, submergindo, emergindo, mudando e voltando com uma vestimenta diferente. Amanhã, a avó italiana já vai ter se transformado em uma avó do norte da Alemanha que dirige uma pensão na ilha de Sylt, adorável e, aliás, muito parecida com ele. “Quer dizer, você se parece com ela”, digo, corrigindo a progressão geracional. “Não”, diz Marek, “ela que se parece comigo”. Deve ser uma mulher pequena, torta nos quadris, com penugens cinzentas no lugar do cabelo. Eu rio, e Marek ri, porque isso ele também ama.

Além disso, catálogos de equipamentos para caminhadas e camping, lojas de construção, jardins botânicos, assentos na janela em trens e ônibus. Ele ama mostarda Dijon e molho barbecue, pão sírio, xarope de tâmaras, couve-rábano crua, champignon recheados, eu e o som da língua francesa. Não me ama do jeito como um homem ama uma mulher, quando o faz com o corpo. Eu não era o tipo dele, diz. Ele fez um carinho no meu braço pesarosamente, bem rápido, desconfia de qualquer tipo de toque. Além disso, ele tem uma noiva. “Ela está me esperando”. Onde, quem? Ele tira um atlas velho de escola da bolsa, um da editora freytag e berndt, fronteiras defasadas, informações erradas sobre as jazidas de recursos naturais, sobre os números populacionais, sobre a economia, nada está correto. Mas as cidades estão lá, onde sempre estiveram, eu acho, e que não importa. Ele vai me contar uma história hoje e outra amanhã. 

Marek, porém, abre o atlas sem hesitar. A página marcada com uma dobradura no canto mostra a França; ele precisa se curvar um pouco mais sobre o livro com a capa azul e amarela plastificada que sobreviveu às bolsas escolares, prateleiras, caixas e mudanças. (E também sótãos, porões e mercados de pulgas, pode-se ver bem). “Ali”, diz ele, o dedo cobrindo Marselha. “É aqui que Camille espera”. “Que bom”, eu digo. E vejo, com o canto do olho, no último instante, quando a ponta grossa do dedo de Marek solta Marselha antes de ele fechar o atlas para recolocar na bolsa, lentamente, deliberadamente, como tudo que ele faz, vejo: Marselha está borrada, circulada por traços grossos. Papel fino e frágil. (A aranha, o sussurro carinhoso, a pedra). Não sei por quê, mas neste momento tenho um pouco de medo do meu Marek. 

O que você ama. O que você não ama. Em viagens longas, fazemos listas, completando-as, verificando se aquilo que escrevemos ainda é verdade. Ah, a verdade, uma coisa tão escorregadia e imprecisa. Ela não é o oposto de mentira. “Marek”, pergunto, “qual é o oposto da verdade”? “Falsidade”, diz ele, e como está em pensamentos, ele murmura a palavra.


Agradecemos à editora Otto Müller Verlag pela permissão de publicar os trechos selecionados.

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