O “Bukowski da Estíria” chega ao Brasil: Os microdramas de Wolfgang Bauer em tradução

Também chamado de “Magic Wolfi”, “o Bukowski da Estíria” ou “terror da burguesia”, Wolfgang Bauer foi um dos maiores dramaturgos austríacos da segunda metade do século XX. Elfriede Jelinek o chamou de “maior dramaturgo” da Áustria e destaca, sobretudo, seus microdramas. Peter Handke refere-se a Bauer como único “gênio” entre os jovens literatos austríacos dos anos 1960. Em 18 de março, Bauer faria 80 anos se não tivesse falecido em 2005, em parte em consequência de seu estilo de vida exagerado. No Brasil, o autor continua praticamente desconhecido e pouco traduzido, embora parte de um dos seus romances, Fieberkopf [Cabeça febril] seja ambientado no Brasil. Além desse romance, Bauer escreveu poemas, dramas, manifestos, críticas, ensaios etc.

Foi sobretudo como dramaturgo que seu potencial provocativo, questionador e inovador se mostrou com força, mas as realizações artísticas de Bauer como letrista, romancista e escritor de longas-metragens também são extremamente bem sucedidas e populares, sempre questionando os limites dos gêneros e suas convenções. 

Wolfgang Bauer na cerimônia de entrega do Großen Österreichischen Staatspreises, em 1995.
Fonte: Wolfgang Bauer: Werk – Leben – Nachlass – Wirkung, por Thomas Antonic.

Famigerado nos anos 1960 até 1990 na Europa, Bauer obteve grande sucesso com seus dramas também nos Estados Unidos, graças a traduções e aos esforços de Martin Esslin, que o inclui na sua lista dos representantes do teatro do absurdo (Esslin, O teatro do absurdo, 2018). Depois de uma fase de pouca presença nos palcos, o autor foi redescoberto e ganhou nova fama em 2015, quando foi encontrado um drama seu até então desaparecido: Der Rüssel [A tromba], peça montada com grande sucesso em 2018 no Wiener Akademietheater. Outra peça, recentemente levado ao palco pelo Volkstheater de Viena, é Magic Afternoon, cujo tema é o vazio existencial da juventude numa cidade europeia do século XX. Sua peça Change é a única que já foi traduzida para o português, publicada em 1978 em forma de caderno pelo Instituto Goethe e disponível hoje apenas em algumas bibliotecas dessa mesma instituição.

Neste momento, estão sendo vertidos para o português os 21 microdramas de Wolfgang Bauer, num projeto de tradução do Centro Austríaco, executado por Ruth Bohunovsky e Hugo Simões. Inspirados no teatro de Eugène Ionesco, Wolfgang Bauer escreveu essas miniaturas dramáticas no início dos anos 1960. São peças para serem lidas ou encenadas com grande criatividade (como, por exemplo, essa montagem no teatro Kabinetttheater de Viena, ou ainda essa montagem musical e dramática inspirada por Bauer, que conta com a apresentação de três dos seus microdramas), pois colocam em questão praticamente todas as convenções do gênero dramático. Seus protagonistas são personagens históricas ou míticas conhecidas, de Martinho Lutero até Lucrécia Bórgia, do faraó Ramsés até Joseph Haydn, dos três mosqueteiros até Richard Wagner, mas o público-leitor certamente não encontra narrativas ou representações cénicas que correspondem a suas expectativas tradicionais.

Para saber mais sobre os objetivos e a recepção dos microdramas de Wolfgang Bauer, veja aqui um artigo de Ruth Bohunovsky, ou esse texto do Der Standard (em alemão) sobre a importância da obra de Bauer hoje. Mas, melhor que falar sobre Wolfgang Bauer e seus textos absurdos, cômicos e, ao mesmo tempo, instigantes, é lê-los. Leia aqui “Ramsés”, um dos microdramas, em uma tradução ainda provisória:

Ramsés

(sem intervalo)

Primeiro quadro:

Nas colinas da Irlanda do Norte. Granizo retumbante. Chuva densa. Baleias voam pelo ar. Ramsés, fantasiado de Napoleão, dá uma palestra frente ao clero irlandês. Não dá para ouvir nada, já que as gaivotas estão gritando muito, por causa das baleias voadoras. 

Ramsés: … (O clero, aos risos, se afasta)

Cai o pano.

Segundo quadro:

Um templo em chamas (incêndio total do templo). O teatro está se enchendo de fumaça. Ramsés encontra-se em algum lugar no meio das chamas, não é possível vê-lo. O teatro está tomado pelo cheiro de roupas queimadas. Estalos. Fumaça. Explosão.

Ramsés: (dos bastidores): Socorro! Socorro!

Cai o pano. 

Terceiro quadro:

O palco está cheio de água. Dentro dela, vários tipos de peixe estão nadando. (Tubarões, carpas, polvos, enguias, eventualmente baleias. Por motivos de simplificação, podem ser usadas as baleias do primeiro quadro.) Ramsés está for da água, proferindo uma de suas palestras populares. Está chovendo. Olhando a partir de baixo, é possível ver as gotas caindo na água. Raramente, um remo bate na água. Não é possível ouvir nada da palestra de Ramsés, devido à grande quantidade de água que está entre ele e o público.

Ramsés: …

Cai o pano.

Quarto quadro:

Cairo. O palco oferece um panorama da cidade, absolutamente preciso em termos geográficos. Ramsés encontra-se em algum lugar bem distante, proferindo sua famosa fala de denúncia (mesmo fazendo muitos inimigos…). Não é possível ouvi-lo. Os gritos das feirantes abafam tudo.

Ramses: …

Cai o pano.

Quinto quadro:

Ramsés está deitado na sua cama, morto apunhalado. Um quarto luxuoso. Entra um lacaio …

Lacaio: Salve, Ramsés!

Cai o pano.

Fim.

 

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