Hoje, Thomas Bernhard faria 90 anos. Em homenagem a esse grande escritor original, provocativo, perturbador e, ao mesmo tempo, um clássico da literatura em língua alemã, republicamos um texto de Cristóvão Tezza sobre o autor austríaco, de cuja obra é fã declarado. As seguintes linhas foram publicadas originalmente na orelha do livro “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard” (Konzett, 2014, editora da UFPR). Segue ainda uma lista de todas as publicações de obras bernhardianas no Brasil até 2020.

Thomas.Bernhard.jpg: Thomas Bernhard Nachlaßverwaltungderivative work: Hic et nunc, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Sobre a literatura de Thomas Bernhard
por Cristovão Tezza

Para quem acredita que a infelicidade produz boa literatura, o caso Thomas Bernhard é exemplar. Filho de mãe solteira na Áustria conservadora dos anos 1930, prestes a ser invadida por Hitler, estudou num internato nazista de Salzburg, sobrevivendo aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Quando o retrato do Führer foi substituído pelo do Papa, o jovem Thomas não sentiu “nenhuma mudança visível”. Aos 18 anos, passou mais de um ano internado, sofrendo de uma doença pulmonar que o acompanharia como um fantasma até sua morte, em 1989. Depois de escrever alguns poemas juvenis que ainda reverberavam uma imagem idílica da antiga Áustria, Thomas Bernhard explodiu nos anos 1960 com o livro “Geada” (ainda sem tradução no Brasil), seguido de uma sequência impactante de romances e peças. Sua ficção revelava um escritor agressivo, espetacular e performático, alguém que se tornaria simultaneamente o mais odiado e mais amado artista austríaco de seu tempo.

O eixo principal de suas provocações de gênio, na literatura e na dramaturgia, está na lembrança obsessiva e obstinada de que a Áustria havia abraçado prazerosamente o nazismo, durante os sete anos em que esteve sob dominação alemã, numa cooptação que o país esqueceria em seguida, criando uma fantasia moral de seu próprio passado. Contra esta amnésia coletiva, Bernhard dedicou quase que cada uma das linhas que escreveu. Mas, o que poderia ter sido apenas uma arte panfletária politicamente localizada, nas suas mãos se tornou uma voz literária incontornável, de um pessimismo transcendente e transnacional.

Sua linguagem é, frase a frase, uma constatação instantânea, repetitiva e permanente de um desastre avassalador e irredimível, numa espécie terrível de profecia circular que se autorrealiza. Ao mesmo tempo, seu texto é irresistível, desafiando os limites do cômico e do trágico sem jamais se entregar ao conforto do relativismo pós-moderno.

Em: Konzett, Matthias (org.). O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard. Tradução por Ruth Bohunovsky. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

Publicações de Bernhard no Brasil

Prosa:
Árvores Abatidas (Holzfällen) (1991), tradução de Lya Luft
O sobrinho de Wittgenstein (Wittgensteins Neffe) (1992), tradução de Ana Maria Scherer
O náufrago (Der Untergeher) (1996, segunda edição 2006), tradução de Sergio Tellaroli
Perturbação (Verstörung) (1999), tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo
Extinção (Auslöschung) (2000), tradução de José M. M. de Macedo
O imitador de vozes (Der Stimmenimitator) (2009), tradução de Sergio Tellaroli
Meus Prêmios (Meine Preise) (2011), tradução de Sergio Tellaroli
Origem (Autobiographische Bände) (2006), tradução de Sergio Tellaroli

Teatro (peças publicadas):
O fazedor de teatro (Der Theatermacher) (2017), tradução de Samir Signeu
O presidente (Der Präsident) (2020), tradução de Gisele Eberspächer, Paulo R. Pacheco Jr.,
Ruth Bohunovsky
Praça dos Heróis (Heldenplatz) (2020), tradução de Christine Röhrig

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