Quem tiver interesse pelo atual cenário literário da Áustria encontra aqui dois volumes publicados pelo Ministério do Exterior com apresentação de alguns dos mais relevantes autores e autoras da jovem geração e passagens de algumas de suas obras de prosa, poesia e teatro. Nesses livros, é possível conhecer a grande diversidade e qualidade de obras literárias da Áustria, muitas delas já premiadas. É uma oportunidade de entrar, por exemplo, no universo fantástico de Clemens Setz, conhecer o olhar crítico e sensível de Anna Weidenholzer em relação a uma vida marcada pelo desemprego ou as personagens de Milena Michiko Flašar, perdidas no nosso mundo acelerado e competitivo. O material apresenta também uma pequena biografia dos autores e passagens de textos de sua autoria, além de trechos de resenhas e críticas especializadas. Uma introdução informativa e empolgante ao universo literário da Áustria!
No início de setembro de 2014, o Paço da Liberdade recebeu a exposição sobre o escritor austríaco Thomas Bernhard, figura de suma importância no meio literário e cultural em sua terra natal e em nível internacional. Sua obra já foi traduzida para mais de 50 línguas; no Brasil, temos traduções de parte de sua obra em prosa e teatral. Diversas companhias de teatro já apresentaram obras dramáticas de Thomas Bernhard em palcos brasileiros ou adaptações de suas peças e romances.
O foco da exposição foi a estreita relação entre vida e obra de Bernhard e o papel das duas pessoas mais importantes que marcaram tanto sua vida quanto sua obra – chamados por Bernhard de Seres Vitais. Trata-se do seu avô Johannes Freumbichler, uma grande influência na formação pessoal e literária de Bernhard, e de Hedwig Stavianicek, uma mulher viúva e 27 anos mais velha que ele, que se torna sua grande confidente e companheira de viagens.
Na exposição, o público teve a possibilidade única de ver originais de manuscritos, rascunhos, imagens, filmes, cartazes e outros documentos disponibilizados pelo Arquivo Thomas Bernhard. A mostra foi exibida pela primeira vez em Viena, em 2001, depois em Linz (2001), Munique (2001), Praga (2002), Luxemburgo (2002), Bolzano (2002), Estrasburgo (2003), Budapeste (2003), Berlim (2004), Tübingen (2004), Bratislava (2005), Salvador da Bahia (2005/2006), Frankfurt am Main (2006), Lisboa (2007) e Bruxelas (2011/12).
Da esquerda para direita: Marianne Feldmann, então embaixadora da Áustria no Brasil, a Professora Doutora Ruth Bohunovsky, da Universidade Federal do Paraná, e Martin Huber, então Coordenador do Arquivo Th. Bernhard em Gmunden, Salzburgo.
Concepção: Dr. Martin Huber, diretor do Arquivo Thomas Bernhard Dr. Manfred Mittermayer, Instituto Ludwig Boltzmann Curadoria: Peter Karlhuber Parte gráfica: Gerhard Spring Organização: Instituto Adalbert Stifter (Linz), Instituto de Incentivo à Cultura da Alta Áustria, fundação Thomas Bernhard Crédito das imagens: Administração do espólio de Thomas-Bernhard, arquivo de imagens Data e local: 9 de setembro a 5 de outubro de 2014 SESC Paço da Liberdade (Curitiba)
Em ocasião da exposição, foram publicados dois volumes sobre o autor austríaco. Em primeiro lugar, o catálogo da exposição (Thomas Bernhard e seus seres vitais), que conta não apenas com uma grande e rica variedade de imagens de Bernhard e de objetos relevantes na sua vida, mas também com três ensaios escritos pelos organizadores da exposição. A tradução foi de responsabilidade de Ruth Bohunovsky e Daniel Martinschen.
Além disso, a editora da UFPR lançou também a versão brasileira de outro livro relevante sobre Bernhard, a coletânea ensaios “O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard“. Os textos foram escritos por críticos reconhecidos que examinam os aspectos mais salientes da obra bernhardiana. Em quatro capítulos – “Bernhard e seu público”, “A poética de Bernhard”, “Bernhard e o drama” e “Os mundos sociais de Bernhard” – os autores se debruçam sobre o amplo escopo e o impacto da sua arte. O livro oferece um olhar sobre as estratégias literárias e os temas públicos que fizeram de Bernhard um dos mestres europeus da prosa e do drama modernos. Os ensaios examinam a complexa sensibilidade artística de Bernhard, seu impacto na memória crítica da Áustria, sua relação com o legado da cultura judaica austríaca, seu valor representativo como principal produto de exportação literária desse país, seu caráter cosmopolita e sua importância para uma paisagem multicultural europeia que está em constante mudança. A tradução do livro foi efetuada por um grupo de alunos do Curso de Tradução da UFPR, sob orientação de Ruth Bohunovsky.
Franz Kafka escreveu sua obra em língua alemã. Mas será que ele foi um escritor alemão? E Rainer Maria Rilke? Elias Canetti? Elfriede Jelinek e Peter Handke, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Literatura: todos eles representam a literatura escrita em língua alemã, e, ao mesmo tempo, a literatura da Áustria. A história de um país e suas especificidades culturais (e não apenas sua língua) influenciam também a sua produção literária. Para usar as palavras da grande poeta austríaca Ingeborg Bachmann: “Poetas como Grillparzer e Hofmannsthal, Rilke e Robert Musil nunca poderiam ter sido alemães”. Valendo-se de uma linguagem clara e acessível, Klaus Zeyringer e Helmut Gollner procuram entender as múltiplas relações existentes entre história, política, cultura, transformações sociais/sociológicas e literatura na Áustria, nos últimos 350 anos. O resultado, além de ser uma importante fonte de estudos e conhecimentos sobre os escritores austríacos e suas obras, propicia uma leitura agradável e instigante sobre uma parte significativa da literatura escrita até hoje em idioma alemão.
Entre os anos 2014 e 2019, Ruth Bohunovsky se dedicou, junto com um grupo de alunas e alunos, à tradução e adaptação de uma obra de referência sobre a história literária e social da Áustria (Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650, autores: ZEYRINGER, GOLLNER; 2012). A versão brasileira foi publicada em 2019, com o título Áustria – uma história literária: literatura, cultura e sociedade desde 1650, pela Editora UFPR.
Do prefácio: Uma história da literatura austríaca implica a afirmação de que ela existe. Passamos por pelo menos um século de discussões de teor predominantemente ideológico acerca daquilo que podemos entender por “austríaco”, e acreditamos, hoje, que existe uma peculiaridade dessa literatura cuja base é de natureza sociocultural: o desenvolvimento histórico e social – e, portanto, também o intelectual –, deu-se na Áustria de modo muito diferente daquele na Alemanha.
Por exemplo: não é possível dividir a literatura austríaca nos mesmos períodos e fases em que se divide a história intelectual da Alemanha. Não houve na Áustria nenhum Classicismo idealista autêntico; não houve o movimento pré-classicista da emancipação racional ou emocional do Eu; não houve Romantismo, nenhum materialismo político propriamente dito, nenhum naturalismo… As categorias alemãs não deram conta do dramaturgo Franz Grillparzer nem do papel dos teatros do subúrbio vienense dos séculos XVIII e XIX, assim como os críticos alemães não conseguiram entender a concessão do Prêmio Nobel a Elfriede Jelinek em 2004.
A presente história literária procura explicar como se pode definir a literatura austríaca e como entendê-la, partindo do contexto específico da Áustria, nos sentidos histórico, social e cultural. Desse modo, assim esperamos, não corremos o risco de descrever a literatura austríaca como mero desvio da alemã.
Procuramos apresentar neste livro uma história literária de natureza narrativa, mas estamos cientes de que tal abordagem não pode ser mantida ao longo de toda a obra, devido à abrangência temática. Também nos permitimos algumas liberdades ensaísticas (certas parcialidades), na esperança de tornar o texto mais interessante e a leitura mais agradável. Em tempos de Google, nos sentimos livres para abrir mão da tentativa de abrigar todas as informações bibliográficas relevantes ou de chegar a alguma completude informativa.
O livro tem dois autores: um (Klaus Zeyringer) foi o responsável pela escrita da história social da literatura da Áustria; o outro (Helmut Gollner) contribuiu com uma série de capítulos sobre autores de destaque e com um epílogo. Como resultado, temos duas abordagens diferentes, cuja coexistência nos agradou.